Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado de Couro

Queda na demanda

A partir do crescimento dos abates bovinos no Brasil e da crescente demanda internacional de couro, a indústria investiu fortemente em tecnologia e se capacitou para se transformar em líder mundial.

Dois fatores foram fundamentais para este avanço. Primeiro, as ações de melhoria da qualidade da matériaprima, com a participação dos setores da pecuária e de frigoríficos. Por outro lado, a evolução da indústria, que aproveitou melhor a potencialidade do couro brasileiro, agregando o máximo de qualidade a suas características.

O resultado é evidente. No ano 2000, deixaram os portos brasileiros 14,7 milhões de couros. Em 2006, este total cresceu para 34,2 milhões, um incremento de 132%. Este crescimento somente foi viável graças ao aumento dos abates de bovinos, que passaram de 32,5 milhões para 44,4 milhões no mesmo período. Porém, em 2007, a apreciação do Real deu início a um processo de recuo nas exportações. De 34,2 milhões de unidades, o total retrocedeu para 32,8 no ano passado.

Este processo acelerou em 2008 com uma queda de 22% no volume exportado de janeiro a outubro deste ano, na comparação com o mesmo período de 2007. A redução alcançou também o faturamento, com diminuição de 8% na receita das exportações. A queda foi tão acentuada que criou um cenário de oferta maior do que a demanda, mesmo com uma redução nos abates. Segundo estimativa do Conselho Nacional de Pecuária de Corte, o país deve encerrar o ano com 39,5 milhões de bovinos abatidos, 10% abaixo dos 45 milhões apontados em 2007.

Isto gerou uma situação aparentemente paradoxal, mas totalmente lógica. Enquanto a carne brasileira se manteve competitiva no exterior, o nosso couro (em razão do dólar) ficou caro no mercado internacional. Além disto, o mercado interno esteve aquecido para o consumo de carne, mas não para o couro.

E as perspectivas não se apresentam animadoras para 2009. O maior consumidor de produto final em couro é os Estados Unidos. Assim, a crise americana atingiu em cheio a demanda deste produto. Neste cenário, infelizmente, não temos motivos para otimismo em relação a 2009. Em um primeiro momento, houve queda forte nos pedidos de couros nos estágios iniciais de processamento, que podemos chamar de commodities. A seguir, inicia a diminuição das encomendas de couros acabados, prontos para serem transformados em produtos de consumo, o que deverá se agravar nos próximos meses.

O contexto faz com que se possa prever uma queda de mais 10% a 15% na quantidade de couro exportado em 2009, sem qualquer expectativa de aumento de demanda no mercado interno. Assim, mesmo que ocorra uma redução de 5% a 8% nos abates no próximo ano, o panorama será de superoferta de matéria-prima, fazendo com que o mercado opere em ritmo ainda mais frouxo. Isto significa que as indústrias brasileiras terão que se adequar a um mercado com nível baixo de consumo, de crédito difícil, entregas imediatas e exigências maiores em qualidade, porque a queda de consumo será menor para produtos que atendem as faixas de maior poder aquisitivo. Outro fator é que o couro se trata de um produto nobre, muito utilizado nos setores moveleiro e automotivo, que estão entre os primeiros a sentirem os efeitos da crise e estarão entre os últimos a saírem do quadro de dificuldade. Enquanto isto, a demanda de carne deverá ser bem menos afetada. A compra de um móvel ou um carro pode ser adiada. O mesmo não vale para alimentação.