Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Genética

Marcadores da eficiência

Tecnologia de DNA identifica duas novas características economicamente importantes na pecuária

Os marcadores moleculares são conquistas recentes da biotecnologia animal brasileira se comparadas às de países da Europa e América do Norte, que estudam essa tecnologia de DNA desde a década de 70. Os primeiros ensaios e resultados efetivos foram apresentados em terras tupiniquins apenas em 2005. Fato é que, três anos depois, as pesquisas avançaram a passos largos e proporcionam, hoje, a identificação de dezenas de genes dos bovinos responsáveis pelo lucro da propriedade. As mais recentes descobertas são os marcadores para conversão alimentar e contagem de células somáticas, que chegaram a conhecimento público neste ano.

Os primeiros podem agradar especialmente os confinadores, que terão subsídio para melhor aproveitar a alimentação fornecida ao gado – despesa que responde por 70% dos custos de produção. Por outro lado, ganhos em sustentabilidade também serão obtidos. De acordo com pesquisa realizada pelo Programa Igenity, animais com eficiente conversão alimentar – capacidade de transformar alimento em carne – emitem 15% menos metano na atmosfera, um dos mais nocivos gases de efeito estufa na Terra.

Os segundos vêm bastante a calhar aos produtores de leite interessados na bonificação por qualidade. A ferramenta identifica quais animais apresentam maior capacidade de digestão de matéria seca e necessitam de menor quantidade de alimento para ganhar mais peso. “O marcador para contagem de células somáticas identifica, no rebanho, as vacas com maior ou menor potencial genético de resistência à mastite, doença responsável pela alta incidência dessas células no leite”, afirma Henry Berger, coordenador do Programa Igenity na América Latina.

Até o momento foram identificados marcadores para 16 características economicamente importantes nas raças taurinas e seis para as zebuínas – na pecuária de corte – e 12 e seis, respectivamente, na pecuária de leite. “Marcador molecular é uma reação química que possibilita identificar determinados trechos do DNA que possuem alguma variabilidade entre os indivíduos. Mas o importante mesmo é saber quais características estas seqüências expressam e como elas se manifestam no meio ambiente”, explica Berger.

Sustentação em três pilares

A ferramenta se sustenta sobre três pilares: melhoramento genético, manejo nutricional e marketing dirigido. Este último, utilizado para comprovação do mérito genético dos reprodutores colocados à venda com objetivo de agregar valor ao produto. Mas o mais interessante é a infinita perspectiva que ela oferece à produção agropecuária. “A ciência vai ajudar o agricultor a produzir vegetais com mecanismos inteligentes de absorção de nutrientes ou resistência a doenças e pragas. Não parece haver limites para as probabilidades fornecidas. E a cada nova descoberta, essas possibilidades se multiplicam. Não dá para saber até onde podemos ir”, frisa Guilherme Gallerani, coordenador do Igenity no Brasil.

Na produção animal, pode-se, com antecedência, saber quais animais devem continuar no plantel com base nas características de interesse do criador. Consegue-se, também, eliminar problemas de correlação negativa – quando o melhoramento de uma característica inibe outra, como peso de carcaça versus acabamento de gordura –, encontrando indivíduos capazes de permitir o progresso genético. “Ainda há possibilidade de se selecionar atributos de baixa herdabilidade e difícil mensuração como maciez de carne e marmoreio. E por último, tornar possível a avaliação do mérito genético das fêmeas, até o momento, possível apenas para os touros”, enumera Gallerani.

Os painéis do Igenity possuem testes que analisam o potencial genético dos bovinos. Para a produção de carne, há marcadores para maciez, espessura de gordura subcutânea e marmoreio, entre outros. Na produção leiteira, é possível mensurar a produção de sólidos, gordura e proteínas para queijos especiais. Para tanto, basta orientar os acasalamentos no sentido de aumentar a freqüência de alelos favoráveis. Isso, claro, deve ser feito com base no mercado. Laticínios e frigoríficos bonificam ou penalizam conforme o padrão do produto que desejam.

Por enquanto, os usuários são aqueles criadores mais sofisticados e entusiastas de novas tecnologias. Cerca de 450 pecuaristas detentores de um rebanho de 10 milhões de cabeças têm acesso à novidade para usar em grande escala. Desses, 150, efetivamente, aderiram aos marcadores e o inseriram no programa de melhoramento genético de suas fazendas. A expectativa é dobrar esses números em 2009. Há criadores de diversas raças, com destaque ao Angus, Brahman, Charolês, Braford, Brangus, Gir, Girolando, Hereford, Holandês, Jersey, Montana, Nelore, Senepol e Tabapuã.

Genética Européia

As pesquisas em raças de origem européia são direcionadas, atualmente, para a descoberta de fatores que melhorem a eficiência alimentar, reprodutiva e a resistência a endo e ectoparasitas. Os estudos com zebuínos foram responsáveis pelas maiores surpresas, principalmente, em relação ao gado Nelore. O zebu é referência em adaptabilidade, especialmente, em climas tropicais. Mas a maciez de carne não é dos seus pontos fortes em virtude até de sua história evolutiva.

Durante processo de validação dos painéis do Igenity, os pesquisadores detectaram que os marcadores para maciez descobertos para gado taurino correspondem exatamente à mesma característica, e ainda na mesma amplitude, em raças zebuínas. “Existem zebuínos com carne tão macia quanto a dos melhores reprodutores taurinos, assim como há europeus com potenciais genéticos tão baixos quanto os dos zebuínos. A diferença é que existem muito mais animais europeus com carne macia”, enfatiza Berger.

Para se ter idéia, a população Nelore apresenta média de escore três a quatro – numa escala de 1 a 10 – para maciez de carne. E existem reprodutores da raça com nota máxima. Poucos chegam a esse patamar, apenas 17% da população assistida apresentam números superiores a seis. Na população Red Angus, reconhecidamente de carne macia, oscila entre seis e sete. “O fato é que existe e dá para selecionar. Especialmente no caso do Brasil, que comercializa boa parte da produção de cortes nobres para a União Européia e mostra preferência por carne macia e livre de gordura, típica desse gado”, diz.

Validação dos marcadores

Só o fato de se identificar uma fração de DNA não significa muito. É preciso apurar se ela corresponde à característica desejada. Quem garante a eficácia do marcador molecular é um processo chamado de validação, feito, basicamente, a partir de comparações entre os resultados expressos no campo (avaliação fenotípica) e a análise das combinações do código genético. Os dados são comparados e submetidos a um rigoroso tratamento estatístico. “Validação é, portanto, confirmar se o marcador está efetivamente ligado à característica de interesse econômico do pecuarista e compreender como ela pode se manifestar na interação com o ambiente”, define Gallerani.

Embora animais bos taurus e o bos indicus tenham rigorosamente a mesma seqüência de DNA, as duas subespécies sofreram histórias evolutivas diferentes. Em outras palavras, um marcador importante para um poderia ser completamente irrelevante ao outro ou ainda corresponder às mesmas características, mas em proporções distintas. “Esse processo é necessário para trazer segurança ao teste genético”, defende. No Brasil, a validação dos painéis Igenity estão sendo realizados pela Universidade de São Paulo – campus Pirassununga (SP) e Embrapa Gado de Leite. Contribui para a pesquisa uma base de dados finalizada em 2007 em parceria com grandes propriedades integrantes de programas de melhoramento genético. O seqüenciamento do genoma bovino foi concluído em 2007. Para 2009, é esperado o lançamento de mais quatro marcadores, incluindo conversão alimentar para zebuínos.

Foco no melhoramento genético

Especializada na seleção genética de gado Brahman voltado para reprodutores de alto valor genético, a Fazenda Brahman Pilar/RJ, de Sérgio Rutowitsch, já era pioneira no melhoramento de gado Nelore PO (Puro de Origem) na década de 1930. Em 2005, iniciou a seleção de Brahman POI (Puro de Origem Importada) e passou a desenvolver o trabalho de melhoramento genético com a tecnologia de DNA. O marco zero foi a escolha do touro Tom Cat para uso no plantel de doadoras. Segundo a avaliação, este animal apresentou escore 6 (numa escala de 1 a 10) para maciez de carne. Apesar de parecer mediano, o resultado, na realidade, significa que Tom Cat está muito acima da média da população Brahman mundial no quesito maciez (com escores médios ao redor de 3 para esta característica, assim como a maioria dos zebuínos), o que justifica o seu uso na seleção.

O primeiro produto nascido de seleção assistida por marcadores foi a fêmea Tom Cat Miss Pilar POI 1223, em 31 de outubro de 2005. O passo seguinte foi a genotipagem de todo o rebanho de interesse, com recolhimento de amostras de pêlo da cauda de cada animal. Durante este processo, descobriu-se que apenas 3% do plantel possuíam escore 6 ou superior para maciez.

Foi então que o projeto pecuário carioca efetivou parcerias com outros criatórios para identificação de indivíduos melhoradores, segundo o foco comercial definido originalmente. A primeira destas alianças foi efetivada em 2006 com o criatório Brahman Kilombo, de Eva Monteiro, que deu origem ao Projeto Pilar-Kilombo (PPK) de seleção da raça Brahman. Em janeiro de 2008, nasceram 30 bezerros gerados por Transferência de Embriões (TE) oriundos de cruzamentos orientados pelos perfis com DNA analisados. Do total, nove apresentaram escore 6 para maciez de carne, incremento de 88% ao número de animais com este perfil no plantel, já na primeira geração.