Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Estratégia

A volta por cima

Uma reflexão sobre as oportunidades da crise global na nova ordem da pecuária do conhecimento

Ao longo dos últimos tempos, as escolas têm dado menor atenção ao ensino da História. Essa tendência vai ao encontro da preferência dos povos latinos, que gostam de valorizar o momento e, certamente, alegra adolescentes que preferem a rapidez do vídeo game à análise refletiva sobre “coisas velhas’’. No entanto, em épocas de grande convulsão estrutural, o conhecimento do padrão cíclico da história pode confortar mentes e trazer luzes importantes sobre como se posicionar frente às mudanças para chegar à frente quando “tudo isso” se acalmar. É verdade que a pecuária é uma atividade milenar. Por outro lado, a combinação da evolução tecnológica dos últimos anos, com o salto qualitativo na prática comercial da carne, está criando fundamentos completamente novos para o modelo de negócio da pecuária brasileira.

Navegar com segurança

A direção e o ritmo da transformação da atividade bovina seguem os moldes pelos quais a agricultura e a indústria passaram ao longo dos últimos 50 anos. Conceitos como produtividade, competitividade e rentabilidade devem ser incorporados para assegurar o papel de líder mundial e para tornar a atividade sustentável para as próximas gerações. O gráfico “Caminho da Transformação” (ao lado) apresenta as principais mudanças no passado e identifica as forças que influenciarão o setor durante as próximas décadas.

Compreender os sinais do mercado

Por se tratar de uma atividade capital intensiva, com baixo lucro, baixo risco e ciclo muito longo, a visão estratégica na pecuária é mais importante do que em outros setores. A mudança radical do paradigma comercial retrata bem essa necessidade. Durante muitos séculos e até há pouco tempo, o pecuarista vendeu o que produziu conforme seus critérios pessoais. Como conseqüência, o curral de um frigorífico parecia uma verdadeira enciclopédia de raças, sistemas de produção e práticas de manejo. Ninguém se preocupava com o que aconteceria com seu animal após a saída da porteira.

Como reflexo da mudança cultural e das forças do mercado da carne ocorre nesse momento a chamada inversão da lógica de cadeia produtiva. Quem manda é quem paga. E quem paga é um consumidor que compra sua picanha numa boutique especializada em Tóquio ou engole seu bife nos 20 minutos de almoço numa cantina em Moscou ou Campinas. Cada um possui preferências que serão transmitidas mediante um sistema sofisticado de informações ao longo dos canais de comercialização. Perante esse novo panorama, o pecuarista tem que produzir a carne que o cliente quer e não o animal que ele mais gosta de criar.

Como se toda essa mutação mercadológica não bastasse, é preciso enfrentar outra realidade típica do mundo globalizado. O comprador exige um produto cada vez melhor, mas quer pagar cada vez menos. Não é essa a nossa atitude quando compramos um novo telefone celular?

O consumidor, através do voto na gôndola, determina as características do produto. Em nosso caso, trata-se de um perfil composto pelos elementos: qualidade, segurança alimentar, conveniência, modismos dietéticos, sustentabilidade ambiental e social e preço. Essa definição passa do comércio via indústria de carne para as centrais de sêmen e volta como produto via pasto, confinamento e frigorífico para a prateleira do supermercado. Pela compra (ou rejeição) do pedaço da carne, o consumidor reinicia o ciclo entre quem consome e quem produz.

A novidade é o rigor do fluxo de informações, decisões e práticas de negócio. Quem não quer ou não pode participar nesse conceito integrado de cadeia fica fora e vai ter que comercializar seu produto em mercados tradicionais com preços inferiores.

Quem participa?

Desenha-se, então, a nova ordem da pecuária do conhecimento. É interessante observar que a discussão passa a ser em torno da carne e não foca mais, como no passado, no boi. O sistema da cadeia é composto pelos seguintes atores com funções interligadas: geneticista (desenho científico e engenharia do produto ‘‘carne’’), selecionador (arte de produzir o protótipo de boi por categoria de carne), criador (confiabilidade na multiplicação da massa genética padronizada), invernista (modelo industrial de engorda com foco nos custos), confinador (acabamento do produto conforme segmento de mercado) e investidor (novos entrantes com potencial financeiro para a intensificação e economias de escala para carne de qualidade a preços acessíveis).

Antes da porteira, são os fornecedores de insumos para o manejo alimentar e sanitário que contribuem para a padronização do processo em alto nível. Os prestadores de serviço e a indústria frigorífica completam esse sistema integrado com certificado de origem que dá nome e número aos bois e que, em alguns casos, capricha com a foto do produtor na embalagem do bife. Tudo isso passa por alianças estratégicas e contratos plurianuais de fidelização com regras claras e muita transparência.

Essa nova tendência, radicalmente oposta a tudo que se fez até poucos anos atrás, irá separar o joio do trigo na produção animal. A modernidade de bens e serviços não tolera mais o ‘‘produto mais ou menos’’. Ou serve ou não se compra. No setor bovino, a realidade não será tão rigorosa. Já que existirá sempre um expressivo mercado secundário das Classes B, C e D para carne de menor qualidade, o produtor sem capacidade de acompanhar o ritmo do progresso continuará a colocar seu produto, no entanto com margens cada vez mais estreitas.

No segmento mais competitivo da cadeia, está chegando o fim do tradicional modelo democrático da bovinocultura. A filosofia de “cada um faz o que e como quer” será rapidamente substituída por um novo sistema de duas classes. Um grupo de talvez 40 mil empresários rurais (3 a 4% do total) constituirá o bloco da pecuária de ponta que abastecerá a classe A nacional e as exportações. Em termos de abate, esse segmento será responsável por 25% a 30% da produção (10 milhões de animais/ano). O outro 1 milhão e tanto de produtores dividirá o resto do mercado com condições de preços bastante inferiores, produzindo 30 milhões de animais para o abate nos mais de mil abatedouros de menor expressão.

Perante esse cenário, o que cada um de nós pode e deve fazer?

- Elaborar um diagnóstico das potencialidades e limitações da propriedade e da atual prática de gestão;

- Ouvir e avaliar experiências de outros produtores e procurar alianças antes (geneticista, selecionador) e depois da porteira (invernista, confinador, frigorífico);

- Definir e escrever um novo plano de negócio dentro das condições físicas, financeiras e da equipe que existe concretamente na propriedade;

- Negociar compromissos com fornecedores e clientes para iniciar um programa plurianual de produção (alianças);

- Procurar assistência técnica para aperfeiçoar o sistema produtivo;

- Buscar financiamento para a melhoria da estrutura e a expansão da atividade (economia de escala).

O criador passará para o assento do piloto

A observação atenta do ciclo histórico da bovinocultura sinaliza que o papel do criador será reforçado no futuro. Enquanto a pesquisa genética pode ser cada vez mais mecanizada através do uso de marcadores e sofisticados programas de computador e, prevendo que o processo de engorda no pasto e em confinamento tornar-se-á uma atividade quase industrial com margens reduzidas e foco em economias de escala, a seleção e criação de animais continuarão a demandar o dom artesanal do “Homo sapiens”. A pecuária de ponta é a combinação da ciência com a arte. No mercado de exportação, o preço diferenciado do produto de qualidade irá recompensar o esforço coletivo das alianças estratégicas da cadeia da carne. Uma vez que o criador representa a interface entre os processos mecanizáveis do laboratório e da engorda, existe para ele um potencial especial para margens mais expressivas, desde que seu bezerro garanta a passagem da qualidade do sêmen para um animal que possa ser acabado com precocidade. O criador voltará a ser o verdadeiro pecuarista.