Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Entrevista do Mês - FABIANO TITO DA ROSA

Futuro Promissor

Revista AG - A pecuária vinha em ascensão antes da crise econômica mundial. E agora? Como o mercado pecuário deve começar o ano de 2009?

Fabiano Tito da Rosa - Para responder essa questão, é preciso voltar no tempo para entender o que vem acontecendo com a pecuária. Os preços estão em alta, em termos reais, desde meados de 2006. Isso é reflexo da crise de preços que acometeu a atividade entre 2002 e o primeiro semestre de 2006. Nesse período, produtores deixaram de investir, passaram a usar menos insumos (ou insumos de “pior qualidade”) na tentativa de conter o avanço dos custos de produção. Buscando sustentar os caixas das fazendas, partiram para o descarte de matrizes. Mas não aquele descarte normal, de 10% a 20% ao ano. Os plantéis de cria, em algumas regiões, foram literalmente liquidados. No Tocantins, por exemplo, entre 2001 e 2006, enquanto o abate de bois aumentou 44%, o abate de vacas cresceu 1.029%. O mercado, como não poderia deixar de acontecer, enxugou. Ao mesmo tempo a demanda por carne bovina estava em crescimento. Houve um desequilíbrio na relação oferta x demanda que favoreceu o aumento dos preços. Esse movimento de alta tem levado à retomada de investimentos no campo. Mas não ainda a ponto de equalizar o “problema” de oferta de gado a partir de 2009. Portanto, na Scot Consultoria, acreditamos que 2009 será ainda um ano de oferta relativamente reduzida, principalmente de animais para abate, pois o estoque de vacas caiu drasticamente e as matrizes, agora, passaram a ser retidas. Isso, em tese, favorece a continuidade do movimento de alta dos preços pecuários. A questão agora é avaliar qual será o comportamento da demanda, diante da crise econômica. Ela é que irá reger o mercado pecuário em 2009.

Revista AG - Há previsão para a cotação da @ do boi gordo no ano que vem?

Tito da Rosa - Na Scot Consultoria trabalhamos com cenários. Não fazemos previsão de preços, pois o mercado é extremamente dinâmico. Estou na Scot Consultoria há quase nove anos e nunca vi ninguém acertar, com boa antecedência, a cotação futura da arroba. O mercado está na fase de alta. Historicamente, cada fase tem duração de três a quatro anos (às vezes cinco). Portanto, são três a quatro anos de preços variando acima da inflação e três a quatro anos de preços pecuários variando abaixo da inflação. A fase de alta atual ainda não completou o mínimo historicamente observado (três anos). Além do mais, como já mencionado, a retomada de investimentos ainda não foi suficiente para equalizar o problema de oferta. A crise econômica poderia promover esse ajuste, mas não acreditamos que seja suficientemente forte para tanto. Não é o mundo que está em recessão, mas sim os países desenvolvidos. Dessa forma, acreditamos em demanda relativamente estável, em nível mundial, em 2009, sendo que a produção se manterá baixa. Sendo assim, a tendência é de que os preços pecuários permaneçam firmes ao longo do próximo ano, principalmente no que diz respeito aos animais terminados. A não ser, vale frisar, que a demanda por carne bovina, em nível mundial, se retraia significativamente.

Revista AG - Comparando esses cenários com os projetados no início de 2008, a que conclusão chegamos?

Tito da Rosa - A média de preços de 2009 tende a ficar acima da média de 2008 em termos reais. No entanto, não convém esperar um movimento de alta tão forte no ano que vem quanto o dos últimos dois anos e meio. O consumo, no ano que vem, não irá ajudar da forma que ajudou entre 2006 e 2008, mesmo que não se retraia. Os frigoríficos, que antes estavam em expansão, agora estão fechando as portas. E a oferta doméstica, se por um lado ainda não aumentou, pelo menos deve parar de cair. Em síntese, a curva do ciclo pecuário tende a adentrar o período de acomodação. Os preços podem (e acreditamos nisso) se manter firmes, mas acompanhando mais de perto a inflação.

Revista AG - Quais os custos que mais devem interferir na rentabilidade da atividade?

Tito da Rosa - Desde que o mercado passou a trabalhar em alta, estimamos que os custos de produção, na média brasileira, tenham subido 67% para a pecuária de alta tecnologia e 17% para a de baixa tecnologia. No primeiro caso, o aumento foi mais significativo, justamente por conta dos reajustes de preços de insumos. Mas isso não significa que os resultados foram melhores. Foi justamente o contrário. É bem possível que, em 2009, o impacto dos custos seja menor. Os preços de alguns insumos, como aqueles atrelados ao petróleo (fertilizantes), tendem a recuar. Os problemas com a oferta de fosfato bicálcico, que levaram à valorização dos suplementos minerais este ano, estão sendo resolvidos. Além do mais, a demanda pelo fosfato, por parte das indústrias de fertilizantes, tende a se acomodar, pois a agricultura deve investir menos. Esses fatores já deram sustentação a uma leve redução dos custos com suplementação mineral neste final de ano. Existe uma chance, porém, dos confinadores serem afetados por um aumento de custo de alimentação em função de uma possível quebra de safra, principalmente no que diz respeito ao milho.

Revista AG - E quais instrumentos você recomenda para o pecuarista proteger seus investimentos a partir de agora?

Tito da Rosa - Gestão, tecnologia e organização. Sem isso, cerca de 60% dos pecuaristas serão expulsos do mercado ao longo dos próximos 30 anos. Acompanhe o raciocínio. Um produtor que manteve, até hoje, a mesma escala de produção que possuía na década de 70, conseguiu, este ano, uma receita equivalente a 50% da receita daquela época. Ele empobreceu. Para que isso não aconteça, é necessário investir constantemente em escala de produção. Como a competição com a agricultura, as pressões socioambientais e a valorização da terra praticamente impedem que esse aumento de escala se dê, principalmente, através da expansão de área, é necessário aumentar a produtividade. E isso só se consegue com tecnologia. Porém, antes, é necessário gestão. Do contrário não é possível, de forma eficiente, angariar recursos, escolher que tecnologia (ou tecnologias) aplicar, quais áreas receberão os investimentos, mensurar resultados e realizar as adequações necessárias para alcançar a melhor relação benefício- custo. Depois da casa arrumada, parte-se para a organização. Nesse caso, refiro-me ao termo coletivo, ou seja, organização como setor. Dizem que é impossível organizar mais de dois milhões de pecuaristas, pode ser. No entanto, é possível organizar “grupos de interesse”, buscando compartilhar informações, melhorar o poder de barganha (através de compra e/ou venda em conjunto), conseguir representatividade institucional, etc. Bons exemplos estão aí, como a Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), as Alianças Mercadológicas do Paraná (que agora estão se tornando cooperativas) e a Cooperocarne.

Revista AG - E como devem ser os modelos de negociação com os frigoríficos?

Tito da Rosa - Acreditamos que novos modelos de negócios entre produtores e frigoríficos – através de alianças, de parcerias, de contratos diferenciados e/ou de financiamento – sejam uma tendência, uma vez que as pressões econômicas, as exigências dos consumidores e as barreiras não-tarifárias não param de aumentar. Produtores e indústrias precisarão inovar e estreitar relacionamentos para se manterem competitivos no mercado.

Revista AG - Com a crise, o Brasil deve se manter no posto de maior exportador de carne bovina?

Tito da Rosa - Com certeza. Primeiro, porque a crise não acomete apenas o Brasil. Aliás, citando Roberto Setúbal, presidente do Itaú, o Brasil não está em crise, está apenas tendo que lidar com a crise dos outros. Segundo, porque o nosso país está muito bem posicionado. Entre o que o Brasil exporta e o que a Austrália, segundo maior exportador mundial, coloca no mercado externo, tem mais ou menos um volume de carne equivalente ao que embarcará este ano os Estados Unidos, o terceiro maior exportador mundial. São 2 milhões de toneladas equivalente carcaça para o Brasil e 1,3 milhão de toneladas para a Austrália (estimativas para 2008). É preciso considerar que nenhum importante concorrente conta com um potencial de crescimento tão grande quanto o brasileiro. Hoje, o país tem um rebanho de cerca de 200 milhões de cabeças, em pouco mais de 175 milhões de hectares, com uma taxa de lotação média de 0,80 UA/ha. Se aplicássemos tecnologia a ponto da taxa de lotação média chegar a 6 UA/ha, o que seria, mais ou menos, o nosso “potencial técnico”, caberia todo o rebanho bovino do mundo, pouco mais de 1,5 bilhão de cabeças (considerando também os bubalinos), dentro do Brasil.

Revista AG - E qual a projeção com relação à habilitação de fazendas brasileiras pela União Européia?

Tito da Rosa - As projeções otimistas apontam para algo em torno de 2 mil fazendas até o final de 2009, o que permitiria que as exportações de carne “in natura” para a UE retornassem aos patamares de 2007. Mas a crise econômica, que pode deixar o pecuarista mais cauteloso no que diz respeito ao aumento de custos, e a retração dos ágios, que vêm sendo pagos aos animais de fazendas habilitadas, podem impactar negativamente o ritmo de adesões ao novo sistema de rastreabilidade.

Revista AG - Quais devem ser os principais mercados compradores da carne brasileira em 2009?

Tito da Rosa - Se realmente forem habilitadas duas mil novas fazendas, a União Européia voltará a disputar, com a Rússia, o posto de maior importador de carne bovina brasileira. Outra possibilidade é a retomada das exportações para o Chile, que já esteve entre os quatro principais mercados para a carne bovina do Brasil. De forma geral, porém, não esperamos muitas mudanças no quadro de exportação. Rússia, Oriente Médio, Venezuela e União Européia deverão se manter como os mais importantes clientes

Revista AG - Existe tendência com relação a preços no mercado internacional?

Tito da Rosa - Os preços, no mercado internacional, subiram significativamente ao longo dos últimos anos. O aumento médio da cotação da carne brasileira, por exemplo, foi de 39% entre outubro de 2007 e outubro de 2008. Isso graças à oferta ajustada e à forte expansão do consumo mundial. Por conta da crise econômica, ninguém espera por um significativo aumento de demanda no ano que vem. Portanto, as cotações tendem a se acomodar, com tendência de retração junto aos mercados que estiverem sentindo mais os impactos da crise, seja na demanda ou na dificuldade de acesso a crédito.

Revista AG - Existe a possibilidade de o mercado interno ser beneficiado por alguma diminuição nas exportações?

Tito da Rosa - A carne brasileira se destina, principalmente, a países em desenvolvimento, grupo que tende a ser o menos afetado pela crise econômica. Além do mais, a desvalorização do real minimiza os impactos negativos da queda dos preços internacionais. Portanto, não esperamos uma significativa retração das vendas externas em 2009. Aliás, não descartamos a hipótese das exportações brasileiras registrarem um leve crescimento no ano que vem.

Revista AG - Quais as perspectivas a médio e longo prazo para a pecuária de corte?

Tito da Rosa - Crises vêm e vão. Dessa forma, é preciso olhar o longo prazo, principalmente quando se trata de uma atividade cujo ciclo produtivo dura entre três e quatro anos e o ciclo de preços entre seis e dez anos. A FAO (órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e a OECD (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) apontam que, até 2017, o consumo mundial de carne bovina deverá crescer 41%, alcançando 79,52 milhões de toneladas. Para atendê-lo, estimamos que o mundo (considerando o peso médio de carcaça atual) terá que abater 83,65 milhões de cabeças a mais, isso é o dobro do que o Brasil, principal participante (player) do mercado mundial, abate hoje. As perspectivas de médio e longo prazo para a pecuária de corte são muito boas e não dá para pensar em atender o aumento da demanda mundial por carne bovina sem o Brasil. Basta que o governo crie e conserve um ambiente favorável aos investimentos, ou seja, que garanta o crédito, a segurança, a infra-estrutura e o respeito às boas práticas de mercado, que do resto os produtores e as indústrias dão conta.