Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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OVINOCULTURA

Articulação para crescer

As demandas da ovinocultura brasileira exigem a articulação da cadeia produtiva para saírem do papel. Com a união de forças entre criadores, pesquisadores, indústrias e poder público, fica mais fácil lutar por medidas que fortaleçam a atividade.

Representantes do setor, por meio da Câmara Setorial de Caprinos e Ovinos, defendem um plano de desenvolvimento para alavancar a cadeia. “O segmento realmente carece de ações estruturais em longo prazo”, constata o veterinário Raimundo Nonato Braga Lôbo, pesquisador da Embrapa Caprinos.

As sugestões da câmara foram apresentadas e discutidas durante uma audiência pública realizada em Brasília, no mês de setembro. Na opinião do especialista, essa programação é fundamental para expor aos dirigentes políticos e à sociedade, de uma maneira geral, as necessidades dos criadores. “Esse tipo de iniciativa precisa acontecer para chamar a atenção das pessoas que têm o poder de legislar no País”, argumenta Lôbo.

As propostas da cadeia envolvem quatro temas prioritários: crédito, financiamento e tributação; ciência, tecnologia, pesquisa e assistência técnica; sanidade, qualidade e rastreabilidade; e informação, estratégia e mercado. Entre as reivindicações, estão a criação de linhas de crédito para a retenção de matrizes, a intensificação das ações para a erradicação da febre aftosa, a realização de pesquisas de mercado e o maior rigor na fiscalização dos processos clandestinos de abate de animais e venda de produtos.

Como são muitos os itens de reivindicação que compõem esses quatro temas, a câmara elegeu cinco principais pautas que serão negociadas com mais urgência. A estruturação e implementação do Programa Nacional de Sanidade dos Caprinos e Ovinos é essencial para facilitar o comércio internacional e o trânsito de animais entre os Estados do País, explica o pesquisador da Embrapa. “O programa está em formatação no Ministério da Agricultura há cerca de dois anos e a expectativa é de que seja lançado em breve”, observa Lôbo.

A adequação e equalização dos impostos estaduais, federais e no âmbito do Mercosul é a proposta da cadeia para diminuir as desigualdades de preços entre as regiões e a concorrência que Estados como o Rio Grande do Sul sofrem com a entrada da carne uruguaia.

O segmento também pede a implantação do Programa Nacional de Melhoramento Genético. A intenção é formar uma base para a ampliação e a melhoria dos rebanhos. “Esse projeto ainda pode ajudar a diminuir a carência de ações de pesquisa em algumas regiões do Brasil”, salienta o veterinário. Segundo ele, o programa já está encaminhado por meio de trabalho conjunto entre a Embrapa, a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco) e diferentes entidades parceiras.

Um estudo do complexo do agronegócio da caprinovinocultura é uma medida importante para dimensionar o que o setor representa para a economia das regiões. “Queremos saber que mercado é esse, qual o impacto econômico e social da criação. Hoje, até mesmo os números do rebanho são uma incógnita”, declara Lôbo. O segmento ainda defende a criação de um programa nacional de capacitação contínua para técnicos, produtores e trabalhadores rurais em caprinovinocultura, já que a qualificação da mão-de-obra não acompanha o crescimento da atividade.

A cadeia concentra esforços para ver seus pleitos colocados em prática. E as ações concretas dependem, além dos próprios criadores, de iniciativas dos governos federal e estaduais e de órgãos de pesquisa e fomento. “Há muito para ser feito, mas um importante passo foi dado. O fundamental, agora, é que todos os interessados se mantenham atentos para dar continuidade ao processo”, acrescenta o veterinário.

Necessidade de ampliar o rebanho

Apesar de haver dúvidas quanto às estatísticas, o rebanho nacional de ovinos é estimado em torno de 16 milhões de cabeças. Hoje, boa parte da carne consumida no País é importada. Para garantir os cortes de cordeiro autenticamente brasileiros na mesa da população, seria necessário aumentar o rebanho em 23 milhões de cabeças, o que significaria 204 mil toneladas de carne. Com esse incremento, poderiam ser gerados R$ 277 milhões em receita e 575 mil empregos, segundo dados apurados pelo pesquisador Raimundo Nonato Lôbo.

O presidente da Arco, Paulo Afonso Schwab, lembra que o Brasil está bem posicionado geneticamente, com o desenvolvimento importante de diversas raças de corte. O desafio, no entanto, é justamente conquistar a ampliação do plantel. “Precisamos focar nesse objetivo e temos o pensamento audacioso. Acreditamos que podemos chegar a somar um rebanho que represente metade da população bovina, ou seja, 100 milhões de ovinos”, projeta o dirigente.

Como não há oferta suficiente para suprir a demanda, um dos grandes problemas da ovinocultura nacional é a importação dos cortes, principalmente do Uruguai. Esse comércio deprecia os preços internos e acaba desestimulando os criadores. Exemplo disso é o valor do quilo do cordeiro, que variava entre R$ 2,20 e R$ 2,30 há alguns meses e que baixou para R$ 1,70 no momento de entrada dos cortes do país vizinho no mercado. Nos supermercados de Porto Alegre/RS, em agosto, os cortes nacionais de paleta e pernil, por exemplo, eram encontrados com preços em torno de R$ 16, enquanto os uruguaios eram vendidos com valores de cerca de R$ 11. Uma forma de defesa para os criadores nacionais é a produção em escala e a oferta regular, o que pode ser conquistado com medidas concretas de organização da cadeia.

Apesar de tantos desafios, o ano que está acabando foi positivo para o setor, na avaliação do pesquisador da Embrapa Caprinos. Para Lôbo, o trabalho da Câmara Setorial e, principalmente, a união em torno dos mesmos objetivos, representaram uma evolução. “Percebemos que os representantes estão articulados na mesma direção, com a mesma visão. Isso é muito bom, porque já tivemos experiências de divergência de opiniões entre a própria cadeia produtiva”, acentua.

Para 2008, as expectativas também são otimistas. Há a perspectiva de aumento de interesse por parte de criadores e, conseqüentemente, de ampliação dos plantéis. Com o Programa de Melhoramento Genético, a tendência é de que haja uma democratização nas vendas, o que significa um maior volume de negócios, mas com preços não tão altos como os praticados agora. “O que esperamos é um aumento de qualidade e de quantidade nos criatórios brasileiros. Quando o setor se torna mais formal e organizado, é natural que os criadores se sintam atraídos pela atividade”, resume Lôbo.