Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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LEITE

Do otimismo ao desalento

2007. Um ano que ficará na memória de setor leiteiro brasileiro: um ‘‘céu de brigadeiro’’ que, de repente, se transmuda em tempestade que provoca sérios estragos à cadeia do leite. O setor produtivo entrou com o pé direito neste ano com a tendência de alta do preço do leite, que veio se confirmando no correr dos meses, chegando a cotação a R$ 1 o litro. Era a recuperação do preço ao produtor. O otimismo era a tônica das declarações de produtores de leite e de seus representantes.

Ante essa quase euforia, vale lembrar as palavras prudentes e acertadas do presidente da Associação Gaúcha de Laticinistas, Ernesto Krug: “Estamos diante de uma nova era para o leite. É o momento de redesenhar a cadeia. Precisamos ser inovadores e empreendedores, mas não eufóricos e, sim, otimistas”.

Pela análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea, da Esalq/USP, o preço do leite registrou alta nos oitos meses do ano, sinalizando queda a partir de setembro, conforme a esperada chegada da safra. O leite entregue em setembro e pago em outubro, na média nacional dos sete estados pesquisados, passou de R$ 0,80 para R$ 0,74 o litro. Ou seja, uma queda de 6,3%, ou de R$ 0,05 por litro. A análise aponta ainda que as maiores baixas, superiores a R$ 0,10 por litro, ficaram com Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Minas Gerais ficou com a menor baixa, mantendo o preço em R$ 0,81/litro, em outubro. Já a média de Goiás foi de R$ 0,78, a de São Paulo, R$ 0,73, e a do Rio Grande do Sul, R$ 0,65.

Já o mercado atacadista, segundo dados do Cepea, registrou um recuo mais forte no preço dos derivados lácteos em setembro. A queda foi de 8,5%, comparativamente a agosto. O recuo mais significativo ficou para o leite UHT, com 19,6%, passando da média de R$ 1,68 o litro para R$ 1,35. O leite pasteurizado registrou queda de 4,8%. A previsão dos agentes do setor é de que haverá novos recuos no preço desses produtos.

O engenheiro agrônomo e diretor da Scot Consultoria Maurício Nogueira comenta em artigo publicado no site da empresa que os aumentos no preço do leite levaram a algumas análises equivocadas. “Imputaram ao leite uma culpa além da conta no que diz respeito ao índice inflacionário. Comparam o mercado de 2007 com o de 2006, ano em que se registraram os piores preços da história. Trata-se de um erro, visto que o preço médio do leite no Brasil, nos últimos anos, é de R$ 0,56 por litro, quando corrigido pelo IGP-DI”, observa, afirmando que os preços, até agosto, aumentaram 37% em relação à média histórica.

Outro ponto que ele destaca é que os produtores que recebem as melhores bonificações trabalham com preços médios entre 14% e 16% acima da média regional. “O período de abril a setembro foi favorável ao produtor profissional. Houve aumento de receita. Há muito o que fazer e investir. É preciso melhorar e crescer”, diz ele. No entanto, ressalva que ao investir, o produtor deve priorizar os itens que reduzam custos fixos. Para ele, se o produtor não planejar nem priorizar os investimentos, certamente perderá a oportunidade. “Se as melhorias feitas não trouxerem melhorias em índices técnicos e zootécnicos, infelizmente, ele desperdiçou tempo e dinheiro.”

A tempestade

Aproximava-se a entrada da safra e o produtor ainda mantinha sua expectativa de que a natural queda no preço fosse insignificante, quando vem a bordoada das denúncias de fraude no leite. A Operação Ouro Branco, desfechada pela Polícia Federal, revela então, em outubro, a fraude criminosa (não só econômica) do leite perpetrada por duas cooperativas mineiras. Ecoam pelos quatro cantos do país manchetes sobre a fraude que respinga sobre o setor como um todo. É triste ver um setor que há tantos anos vem lutando para sobreviver, ao mesmo tempo fazendo de tudo para melhorar a qualidade de seu produto, ser motivo de chacotas e piadas nos meios de comunicação. O consumidor assustado ficou sem norte quanto aos riscos de consumir um leite com soda cáustica e água oxigenada. Conseqüência: retração do consumo de leite UHT.

Esses acontecimentos eram uma espécie de “morte anunciada”. Pelo menos é isso que se depreende de declarações de representantes do setor produtivo. O presidente da Comissão de Pecuária Leiteira da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) Rodrigo Alvim não poupou críticas à inércia do Ministério da Agricultura (Mapa) em suas declarações à mídia. Segundo ele, desde 2002, a Comissão vinha alertando, com base em muitos indícios e análises, que havia diversas indústrias fraudando o leite com a adição de soro e até mesmo de água.

Ele conta que em setembro de 2006, depois de uma reunião com mais de 300 representantes do setor produtivo, a CNA exigiu do Mapa providências urgentes de combate a essas fraudes. Como nada aconteceu, em fevereiro de 2007, a entidade pleiteou junto ao Ministério da Justiça que instasse o Ministério da Agricultura a tomar providência sobre o caso. E deu no que deu. Até então, observa Alvim, era denunciada uma fraude econômica. Não se imaginava que já se dispusesse de tecnologias a ponto de haver uma fórmula química capaz de mascarar a fraude.

Gerente da Clínica do Leite, da Esalq/USP, Laerte Dagher Cassoli, que faz parte da Rede de Laboratórios Credenciados pelo Ministério da Agricultura, faz uma observação bastante pertinente. A baixa qualidade do leite dá oportunidade à fraude. Ele exemplifica: uma empresa que capta leite junto aos produtores e o vende no mercado spot para uma indústria fabricar derivados. Sendo uma matéria-prima de baixa qualidade, à qual se somam a demora para reunir um alto volume e o tempo de transporte, essa qualidade piora mais ainda. Então vem a fraude para estabilizar e corrigir a acidez do leite para que este chegue em condições de processamento na indústria.

Em seu entender, essas denúncias estão despertando no consumidor a preocupação com a qualidade do leite e a escolha de marcas mais confiáveis. “Isso com certeza vai levar as indústrias, que prezam sua marca, a assegurar a alta qualidade de seus produtos”, diz ele, complementando que esse cuidado se inicia com o monitoramento da qualidade desde a ordenha. Essa visão é reforçada por Alvim, que acredita que uma das conseqüências das denúncias e de uma fiscalização mais eficiente e rigorosa seja a oferta de produtos lácteos de alta qualidade.