Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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CRUZAMENTO

Novilho enquadrado

Há tempos a carne brasileira é produzida sob alto padrão de qualidade, acredita Auler José Matias, diretor da Associação Brasileira do Novilho Precoce (ABNP). A entidade encabeçou a luta pela criação de normas de produção pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Elas estão sendo elaboradas e constituem, para o diretor, o reflexo de práticas realizadas há anos na terminação de gado precoce, antes mesmo de a portaria 268 do MAPA “enquadrar“ o novilho, em 1995. Os novíssimos padrões devem, portanto, em curto prazo, mexer pouco nas planilhas e rotinas do pecuarista e dos frigoríficos, caracterizando-se muito mais como uma ferramenta para o consumidor. Isso porque as normas tornam mais fácil o rastreamento do produto ao detalhar suas características e cada etapa de produção, definindo cortes adequados e especiais, atentando para a embalagem e criação de um selo certificador da carne terminada precocemente. Espera-se que em um prazo de três anos sejam concluídas e aplicadas.

São, ao todo, três normas. A primeira trata da classificação e tipificação de carcaça e já está redigida. Está em andamento a segunda normativa, que discorre sobre boas práticas na produção agropecuária. Em 2008, está prevista a edição da terceira norma, que compreenderá a tipificação dos cortes da carne do novilho precoce. Há fazendeiros, porém, que estão além dessas determinações. São aqueles que já exportavam para grandes mercados, sob exigência de adesão aos avançados padrões EurepGap, por exemplo, enquanto o Brasil não tinha ainda um regulamento que garantisse a qualidade de sua carne. A adaptação dessas propriedades não vai requerer muitos investimentos.

Já as fazendas em crescimento terão de gastar um pouco mais para adequar seu sistema de produção, diz o diretor da ABNP, sem mencionar porcentagens em relação ao custo atual. Mas o resultado, ele afirma, será sentido em um ganho muito próximo de mercado interno e externo. As normas darão conta de parte da desinformação que emperra o setor internamente, fazendo produtores operar no vermelho há anos. “A conta do pecuarista não fecha“, diz o diretor.

Internamente, o diretor da ABNP prevê certo repasse do custo da implementação das normas para o consumidor final. “O brasileiro não admite que o produto seja caro. Mas veja só a relação: paga-se R$ 3 em uma cerveja e não se pode subir nenhum centavo do leite, que custa em torno de R$ 1 e obriga o produtor a operar em negativo“, diz Matias. Ele prefere acreditar na mudança de cultura de mercado a esperar incentivos governamentais.

Obter carne valorizada, no entanto, não é uma tarefa fácil. Para Matias, não é possível, por exemplo, falar em cruzamento ideal, embora o Sistema Novilho Precoce compreenda a otimização dos cruzamentos industriais. A regra, por enquanto é a mesma: evidenciar cada vez mais a adaptabilidade do zebuíno e a precocidade e deposição de gordura dos taurinos nos cruzamentos orientados para o sistema. Isso, claro, levando-se em conta inúmeras variáveis: o mercado que se quer atingir e as condições locais, como disposição de insumos, transporte, clima, etc. O melhor custo-benefício, explica Matias, não ignora a diversidade de fatores. “Se o pecuarista pretende vender para o mercado interno, por exemplo, deve considerar que ele não tem demandas específicas de gordura, espessuras delimitadas, etc. Não é necessário, portanto, um animal orientado para tal característica.’’

Ficam como exemplo os cruzamentos hoje utilizados com sucesso no Sistema Novilho Precoce. A saber, segundo Matias, seriam aqueles que compreendem as raças Angus, Canchim, Blonde, Limousin, Bonsmara e Senepol, sempre associadas ao Nelore, nas regiões de atuação do Sistema (BA, GO, MS). O bom trabalho com elas tem sido notificado desde o início do Sistema, em 1974, explica o diretor da ABNP, época em que os produtores envolvidos recebiam incentivo de 3 a 4,5% em isenção de impostos sem que fosse, de fato, comprovado o uso do Sistema. A Portaria 268/95 surgiu, então, para regulamentar o benefício, ao prever um maior valor agregado ao novilho precoce, definindo padrões de qualidade para esta categoria, detalhados, agora, pelos padrões ABNT.

Sem fórmula mágica

Para que os resultados pretendidos com as normas possam ser atingidos, Marcia Dutra de Barcellos, professora e pesquisadora em Marketing, Estratégia e Agronegócios da PUCRS, explica que o produtor precisa estar comprometido. “Produzindo uma carne de melhor qualidade, normatizada e certificada, ele poderá obter uma remuneração premium. Esse retorno econômico será a resposta do mercado ao seu investimento em tecnologia e qualificação. O consumidor agradece também, pois estará adquirindo um produto de alto valor agregado, mas com uma alta relação custo-benefício.’’ Mas Márcia, assim como Matias, não acredita que haja fórmula mágica de obtenção de excelência na produção do novilho precoce. ‘‘Cada produtor, na sua região, deve buscar o cruzamento mais eficiente e valorizado pelo mercado. O mais importante é ter volume de produção constante e padronização dos lotes. Aí sim o pecuarista conseguirá agregar valor e qualidade ao seu produto’’, destaca.

A professora da PUC não ignora o avanço de qualidade na produção da carne brasileira, mas lembra que no Brasil ainda existem muitas incongruências e infelizmente nem sempre as normas são seguidas. “Se considerarmos que existe um mercado informal na cadeia da carne bovina de 40%, podemos imaginar o quanto estamos longe do ideal. Países como Austrália e Reino Unido, por exemplo, são muito mais rígidos em garantir qualidade da carne aos consumidores, e a cadeia trabalha unida com essa finalidade.’’ Além disso, “a ABNT representa a ISO - Organização Internacional de Normalização. E por ser esta uma organização reconhecida em mais de 150 países, os produtos normalizados neste sistema são melhor aceitos globalmente“, explica Márcia, certa de que as exportações serão altamente beneficiadas pela novidade.