Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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CONFINAMENTO

Cautela nos investimentos

Apesar de o mercado estar aquecido e o produtor reanimado com a recuperação das vendas a termo (negociação antecipada de boi gordo com preços previamente acordados entre pecuaristas e frigoríficos), ainda há a preocupação em cobrir os custos de produção, patamar ainda não alcançado.

Um dos motivos de tanta apreensão está no custo dos insumos. O suprimento alimentar dos animais, que responde por 1/3 dos investimentos na engorda, registrou alta de 60% em 2007. Os itens mais atingidos foram os grãos como milho e soja e seus derivados, obrigando o produtor a apostar no escuro, ainda em abril, quando deu início ao confinamento. “Em fevereiro, março e abril, teve gente que tomou decisão, comprou mais e driblou a alta na matéria-prima, que durou praticamente o ano inteiro”, afirma o diretor-executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), Fábio Dias.

O salto na valorização do boi de reposição, que representa os outros 2/3 dos custos da atividade, também se tornou fator limitador. Somente neste ano, as aquisições das reses pesou de 20% a 30% a mais no bolso do produtor ante 2006, cenário que, provavelmente, o levará a enfrentar escassez de oferta em 2008. “O quadro deve-se ao elevado índice de abate de fêmeas ocorrido em anos anteriores. Quanto menor o número de matrizes no rebanho, menor será a produção de bezerros”, frisa o diretor-técnico do Instituto FNP, José Vicente Ferraz.

O mercado ainda aponta para uma queda no volume de financiamento em confinamento por parte das empresas do mercado financeiro devido ao preço desfavorável do boi gordo em outubro de 2008.

“Neste cenário, ninguém vai confinar. O boi de reposição está com ágio sobre o boi gordo. Tem alguma coisa que está errada que não sabemos identificar”, relata Dias. Com isso, a previsão da Assocon é de que a intenção de confinamento se reduza até maio do ano que vem. Os criadores mais atingidos são os de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás.

De acordo com pesquisa da Assocon, os índices apontam para uma diminuição na intenção de confinamento no País. O percentual que chegava a 26% em abril caiu para 21% em setembro. Apesar de menor do que a primeira previsão, o crescimento é atribuído ao gerenciamento da disponibilidade de oferta aos frigoríficos, que, em anos anteriores, concentrava-se somente no mês de outubro. “O confinador colocou o produto no mercado também em julho e agosto. Isso ocasionou uma explosão de preços agora porque não teve oferta concentrada”, explica Dias. Por este motivo, atualmente, a arroba está valendo em torno de R$ 74 na BM&F, cotação que se manteve em torno de R$ 60 no resto do ano. “A valorização compensou, mas tem produtor que foi obrigado a vender na bolsa de valores por preços menores do que valiam a arroba”, relata Dias.

No Brasil, o confinamento de gado de corte ocorre em situações muito específicas. No Sudeste e Centro-Oeste há estações de seca que determinam uma queda acentuada de forragem nas pastagens reduzindo a capacidade destas regiões de produzirem carne. No Rio Grande do Sul, onde a alta do gado ocorreu ainda no ano passado, houve um certo desânimo em confinar neste ano. Conforme o presidente da Comissão de Bovinocultura de Corte da Farsul, Carlos Simm, o criador preferiu apostar em grãos. “No RS, registraram-se, inclusive, algumas paradas”, revela. “A tendência é uniformizar os valores em 2008. Em 2006, um touro reprodutor era vendido a R$ 3 mil. Este ano, está a R$ 6 mil”, exemplifica.

 

Projeção otimista

Para o presidente do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da CNA, Antenor Nogueira, a previsão é de um mercado favorável em 2008. Os motivos são a valorização da pecuária e o aumento do consumo mundial e nacional de cortes bovinos. “O mercado interno é bastante promissor. O preço da carne no varejo está o mesmo praticado em outros países”, revela. O preço pago ao produtor também está compensando.

A arroba do boi gordo iniciou o ano valendo entre R$ 50 e R$ 52 e está cotada, hoje, entre R$ 73 e R$ 74. “Esse aumento foi em torno de 20%”, comemora Nogueira. A alta, segundo ele, permitiu ao produtor recuperar parte dos investimentos de períodos anteriores. “Quem se dedicou a confinar gado obteve resultado”, comenta.

Contrariando o prognóstico da Assocon, Ferraz afirma que as condições favoráveis devem levar a um aumento na escala de produção do ano que vem. Apesar de não fazer previsões, ele acredita que a tendência dos preços é de ainda maior firmeza em 2008, com cotações melhores concentrando-se no final do período. A perspectiva é endossada por Nogueira, que aposta no aumento da procura por boi acabado. “Hoje, o abate de fêmeas é praticamente zero. O frigorífico tem que ir atrás de boi gordo para compensar”, comenta.

Se confirmada, a situação exigirá mais qualidade administrativa, o que será fundamental para o sucesso dos negócios. O grande desafio será diminuir o volume de perdas e gerenciar os custos, que, de 2003 até o primeiro semestre de 2006, tiveram um aumento na ordem de 40%. O primeiro passo será adotar estratégias para aumentar a relação custo- benefício ou o retorno do negócio. “O cálculo apurado de custos, o planejamento bem-feito e a estratégia de confinamento serão fatores importantíssimos de sucesso”, salienta Ferraz.

As técnicas variam caso a caso conforme as condições específicas do confinamento, como localização, escala, facilidade de obter animais para confinar de boa qualidade e facilidade de produzir ou adquirir volumosos. “Os confinadores aprenderam este ano que precisam ser muito eficientes, tratar o negócio com gestão para evitar perdas”, diz Dias. Neste processo, o uso da informática torna-se essencial. “Ela permite o balanceamento das rações, armazenamento de dados estatísticos, controles, planejamento, entre muitas outras atividades absolutamente essenciais”, justifica.

O acompanhamento deve prover informações suficientes para indicar e embasar necessidades de ajuste no transcorrer do período de engorda. O controle servirá de base para a avaliação do negócio, permitindo seu aprimoramento ou indicar modificações para as engordas seguintes. Segundo a Embrapa Gado de Corte, o monitoramento inclui observação sobre comportamento do gado, dos horários e quantidade de alimentos fornecidos, além do desempenho e das habilidades da mão-de-obra e do funcionamento de máquinas e implementos.

O controle deve contar também anotações e registros da aquisição de animais, alimentos e medicamentos, de fretes, de mão-de-obra, preparo de áreas e colheita de forragens, venda dos animais, de esterco. Também será necessário munir-se de informações como procedência e peso vivo inicial dos animais; início e término do período de engorda; tratos sanitários feitos, frigorífico comprador. “A eficiência da engorda será definida por cada criador. Ele terá que ter boa performance técnica e comercial”, define Dias.

A utilização das chamadas dietas de alto valor protéico seria uma das opções para otimizar custos. “Aumentando-se o teor de proteína na dieta, pode-se diminuir a quantidade de volumoso (aqueles que possuem teor de fibra bruta superior a 18% na matéria seca, tais como os capins verdes, silagens, fenos, palhadas) necessária”, argumenta o diretor do Instituto FNP.

A alternativa deve-se às novas tecnologias, que permitem controlar problemas de acidose/timpanismo (distúrbios metabólicos causados pelo excesso de proteína na dieta).

Para ele, a tendência, no Brasil, é da atividade crescer bastante ainda, pois é uma forma de manejar os pastos. “Como a produção de forragem é sazonal, na época do frio e da seca é necessário aliviar as pastagens e transferir estes animais para confinamento, ao invés de vender o gado em plena safra (depende do ano em particular)”, salienta.