Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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SANIDADE

Poblema ou solução?

Todos os que analisam o segmento ou mantêm contatos com o exterior notam claramente que a pecuária de corte brasileira, embora pujante, ainda sofre da falta de prioridades estabelecidas e executadas objetivamente, bem como da difícil tarefa de construir uma aliança entre produtores e frigoríficos para uma política de premiar qualidade em benefício dos mesmos e dos consumidores nacionais e internacionais.

Corrigir estas falhas é essencial para manter ou consolidar nossa liderança no mercado internacional da carne bovina.

As carnes de aves e suínos não têm estes entraves, pelo menos não nas mesmas dimensões. A situação sanitária do segmento é substancialmente mais tecnificada e apoiada profissionalmente pela iniciativa privada estruturada nas integrações existentes. Os integrantes destas cadeias são mais organizados e profissionalmente mais dispostos ao diálogo, pois foram menos capitalizados e lutaram com lucratividade menor. Por outro lado a presença há mais tempo no disputado mercado internacional lhes permitiu vencer estas barreiras há alguns anos e eles sabem que a união faz a força, tanto nas épocas lucrativas como nas desfavoráveis!

O desafio de maior significância é a questão sanitária, onde a febre aftosa é a mais cobrada. Esta enfermidade já foi profissionalmente vencida em diferentes épocas por diferentes países, como os Estados Unidos, onde sua erradicação ocorreu em 1929.

E este país, num esforço estratégico, contribuiu decisivamente para a erradicação da doença no Canadá, em 1952, e no México, em 1947, e novamente na recidiva, em 1954. Até hoje, os EUA apóiam a Colômbia e outras nações andinas a erradicar a enfermidade.

No Grupo Interamericano para Erradicação da Febre Aftosa (Giefa), estamos lutando para que colaborem também com as regiões carentes de recursos dos três países do Chaco como já fazem em áreas da Bolívia. A integração dos americanos com os brasileiros nesta cooperação com os vizinhos pode acelerar o programa de livrar as Américas da febre aftosa até 2010, o que facilitará o comércio de carnes no continente.

O Brasil, pelos seus setores público e privado, também deve ampliar seu apoio econômico às regiões carentes dos vizinhos Bolívia e Paraguai. Todos lucraremos com a erradicação e cerca de US$ 420 milhões anuais - dos quais 45% provenientes do setor privado - poderão ser economizados pela cadeia produtiva ou aplicados em outras zoonoses e enfermidades do rebanho brasileiro. Se pensarmos na América do Sul, a erradicação da aftosa permitirá disponibilizar cerca de US$ 580 milhões anualmente para outras finalidades.

Erradicar a aftosa é tarefa fácil, basta um esforço objetivo em reduzidas áreas do continente ainda problemáticas e teremos removido a grande barreira sanitária que ao longo dos tempos nos atormenta. Muito mais complicado é se livrar da vaca louca, que graças a Deus não temos!

A performance americana no mercado global foi duramente atingida com o aparecimento da vaca louca, que foi importada do Canadá, aquele mesmo que lançou falsos boatos sobre a doença em nosso País há alguns anos.

Este fato, aliado ao excelente trabalho internacional desenvolvido nos últimos anos pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), colaborou para que o Brasil atingisse a liderança internacional deste segmento.

O Brasil está bem classificado, com um risco muito reduzido de apresentar a EEB ou vaca louca, o que é enorme vantagem competitiva frente aos produtores do hemisfério norte.

Esta enfermidade, criação dos produtores ingleses, quando tentavam transformar um herbívoro em carnívoro, em uma tentativa infeliz de melhorar a competitividade reduzindo custos de produção, é um problema no mercado global da carne e continua provocando dúvidas ou reações negativas em muitos consumidores mundo afora.

Na última assembléia geral da Organização Mundial de Saúde Animal, realizada em maio deste ano, vimos os coreanos tocando tambores em protesto pela desejada liberação do seu mercado doméstico para países com a presença da vaca louca!

Certos produtores ingleses, ao invés de nos criticarem de maneira desleal, falsa e traiçoeira sobre a qualidade de nossa pecuária, deveriam se preocupar com os 179.175 animais acometidos por vaca louca, conforme dados registrados desde novembro de 1986, e que se espalhavam em 35.409 diferentes propriedades no Reino Unido, infeliz criador e recordista mundial da vaca louca, que se associa à terrível Doença de Kreutzfeldt-Jakob em humanos.

Não obstante as milionárias cifras de abate sanitário, ultrapassando 4,4 milhões de animais, e as tenebrosas colunas de fumaça das incinerações de carcaças de animais do ano 2001, atribuídas aos focos de aftosa, o Reino Unido continua apresentando o recorde em vaca louca.A partir de janeiro de 2002 este recorde global atinge o acumulado de 1.808 animais positivos entre os abatidos com idade maior que 30 meses e oriundos de 1.701 propriedades.

Produtores irlandeses que se aliaram aos ingleses nesta campanha fajuta contra o Brasil deveriam recordar que o seu rebanho teve 1.602 casos de EEB desde 1986 ocupando o terceiro lugar neste triste pódio sanitário, não obstante o reduzido rebanho da República da Irlanda. E o problema continua, como demonstram as estatísticas governamentais, de que a partir de 2002, em animais abatidos com dois anos e meio de idade ou mais, já se somam 772 casos.

Para falar só de 2007, o acumulado de animais positivos com vaca louca chega a 21, ou seja, a cada duas semanas, mais um animal é identificado como portador da doença nos matadouros irlandeses.

Estes dois países nos atacam de uma maneira lamentável e é preciso investir e mostrar ao mundo que nossa pecuária, na esmagadora maioria, é feita por produtores responsáveis, que criam ou engordam seus animais em pastagens formadas e conservadas respeitando os princípios da sustentabilidade em todos seus aspectos econômicos, ambientais e sociais.

Além disso, está claro que nossos animais nascem, crescem e engordam em condições adequadas de bem-estar animal, similares às que teriam na natureza se não tivessem sido domesticados.

O Brasil mostra um avançado e eficiente programa de controle de resíduos, onde os fármacos aqui usados estão em perfeita sintonia com a orientação dada pelo Codex Alimentarius.

O novo Sisbov evolui progressivamente e a rastreabilidade dará à União Européia a segurança desejada embora não tenhamos a vaca louca. A rastreabilidade, que em breve futuro será eletrônica, é um ótimo instrumento para auxiliar o criador brasileiro na busca de maior produtividade.

Os EUA, embora com alguns atritos ou fricções entre os produtores e indústrias, mantiveram com muito sucesso a liderança global no mercado exportador durante décadas e mudaram o perfil da produção na pecuária de corte, ampliando a presença de confinamentos, o que lhes assegurou a venda de grãos colhidos a preços maiores através da transformação dos mesmos em carne. Esta performance por tanto tempo só foi possível pelo bom sinergismo de sua cadeia da carne bovina.

São ainda os Estados Unidos que nos mostram outro bom exemplo de integração da sua pecuária de corte com a tipificação de carcaças, cujo primeiro padrão foi desenvolvido em 1916 e a oficialização das diferentes classificações oficiais foi publicada em 1926.

Desde 1980 os EUA especificaram as tipificações de carcaças através do Serviço de Marketing Agrícola – AMS -, que conta com 5.500 funcionários e atua em parceria com órgãos estaduais, com grande sucesso, no programa “USDA Prime”. Este abrange avaliações permanentes em 43 marcas de carne bovina certificadas, envolvendo 35 milhões de animais abatidos em 2005, onde 96% foram tipificados com um custo de apenas US$ 0,60/carcaça.

Este investimento, entretanto, permite que criadores e frigoríficos recebam estimulantes diferenciais de preço por suas carnes quando se atinge os níveis mais elevados de qualidade e rendimento, que são choice e prime. Em 2005, estes dois níveis superiores de qualidade foram alcançados por 59,3% das carcaças avaliadas.

Estes programas de premiação da qualidade da carne são hoje aplicados em 40% dos bovinos abatidos nos EUA. Estão tão difundidos e consolidados que o AMS está desenvolvendo sistemas de tipificação totalmente automatizados, isto é, efetuados por equipamentos.

No Brasil já existem alguns programas muito limitados para premiar a qualidade e o rendimento, mas a expansão e evolução destes só poderão ocorrer se houver entendimento e alianças entre produtores e seus frigoríficos!

No Congresso Internacional da Carne, promovido pelo CNPC e pelo Internacional Meat Secretariat, em abril passado, o ex-subsecretário de agricultura dos EUA, James Butler, demonstrou em sua palestra como uma aliança é indispensável neste contexto!

A Argentina e o Uruguai, nossos vizinhos e parceiros no Mercosul, com muita similaridade cultural conosco, mostram cadeias e alianças mais estruturadas e efetivas que as nossas.

Produtores e industriais de ambos os países trabalham em conjunto com seus governos para vencer desafios internacionais. Exemplos deste nível de cooperação, não obstante divergências ocorridas na cadeia, é a rapidez com que a Argentina circunscreve ou soluciona suas emergências de enfermidades e como verifica a boa avaliação em vigilância sanitária animal do Uruguai. Exemplo de bons resultados desta união, ou pelo menos cooperação, é que ambos possuem programas de produção de carne bovina “in natura”, certificados pelo SMA dos EUA, desde os anos 2000 e 2005.

Outro país sul-americano cujo programa de produção de carne está sendo avaliado pelos EUA é o Chile, que pretende aproveitar para sua carne a excelente imagem de que já desfruta nas frutas, pescado e vinhos.

Embora tenham muitas vezes embates dentro das cadeias, estes países sabem se agrupar nos aspectos essenciais para expansão dos negócios da carne.

Existem também nestes países uma maior integração e divisão de trabalho entre os diferentes níveis governamentais de administração. Devemos cultivar com os governos estaduais um entrosamento respeitoso e profissionalmente definido das responsabilidades e recursos de cada um, para evitar comentários em círculos internacionais de que nossa estrutura federativa seria uma barreira para se conseguir um programa nacional de sanidade animal ou de rastreabilidade auditáveis, pois Estados algumas vezes ignoram suas responsabilidades nestes processos. Em outras, alegam falta de recursos ou repasses para executá-las.

O poder público brasileiro precisa trabalhar com maior rapidez no fluxo de informações pertinentes ao setor privado, principalmente daquelas oriundas de relatórios de missões internacionais, para que o processo de aprimoramento ou de correção de orientação seja acelerado. Este fluxo de informações ao setor privado é sempre mais lento no Brasil do que nos nossos vizinhos de Mercosul. No período em que fui presidente do Giefa constatei este terrível problema. O governo deve fiscalizar o setor privado até mesmo com maior rigor, porém deve compartilhar rapidamente as informações de mútuo interesse que recebe.

A Austrália há tempos criou uma sólida e eficiente parceria com o nome de “Meat and Livestock Australia-MLA”, que assegurou uma renda baseada nas transações pecuárias que os australianos usam, com sucesso, para elevar ou assegurar a qualidade de sua produção pecuária e expandir com bom marketing a presença de sua carne nos mercados de primeira linha do mundo, principalmente naqueles do Japão, Coréia do Sul e Malásia, no Sudeste Asiático, onde almejamos entrar, mas somos barrados principalmente pela questão sanitária relacionada à febre aftosa.

Desejo que nossa cadeia da pecuária de corte esteja mais integrada e harmonizada, com as respeitosas divergências, que normalmente ocorrem nos casos onde há interesse econômico, pois acredito ser essencial conseguir uma aliança que já deu resultados invejáveis em outros países, como vimos neste artigo. Tal união nos trará resultados extraordinários no atraente mercado global de carnes, que continuará crescendo, e permitirá maior expansão da nossa presença ativa e reativa em cenário cada vez mais disputado e, como já vimos em muitas ocasiões, com ataques e críticas falsas e de baixo nível, principalmente quando nos chegam de sociedades tidas como milenares em civilização.

A confirmação desta visão de futuro é que investidores internacionais cada vez mais demonstram que sem o Brasil fica difícil participar do promissor mercado global deste nobre produto.Assim sendo, não devemos perder mais tempo e sim começar a desenvolver em conjunto um plano estratégico de consolidação de nossa liderança internacional!