Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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GENÉTICA

Produtividade com hora marcada

Nada de ficar observando o comportamento dos animais a campo para saber qual é o momento ideal para a monta. O cio tem data e hora para acontecer. Caberá ao pecuarista definir qual é o melhor momento para que isto aconteça. Simples assim, uma vez que a ovulação é induzida. A Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF) permite sincronizar o ciclo. O processo se dissemina cada vez mais de Norte a Sul do País pelas vantagens e ganhos que o processo traz ao produtor.

A estimativa da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) é de que 2007 se encerre com 1,5 milhão de doses de sêmen, de um total de 600 milhões comercializadas, aplicadas em IATF. O número ainda tem muito potencial para crescer e, pelo interesse dos pecuaristas, isso não deve demorar para acontecer, graças ao benefício do aumento da produtividade no campo, já que é possível inseminar um grande número de exemplares em tempo pré-determinado.

O importante é saber qual o melhor protocolo a ser usado, que varia de acordo com as características do rebanho, como raça, condição corporal das vacas, idade dos animais, número de crias e também do inseminador. Esta é justamente uma das principais vantagens. Por contar com equipes preparadas para os procedimentos, a IATF está à disposição de todos os produtores, independentemente do porte ou de terem a experiência para fazer. “Basta contratar equipes que dominem a técnica”, destaca o presidente da Asbia, Lino Nogueira Rodrigues Filho. As propriedades que contam com poucos exemplares podem se unir e utilizar o serviço em parceria, o que barateia o custo e dá acesso a todos.

São vantagens como essas que devem fazer com que este mercado gere impacto na pecuária brasileira. Somente neste ano, de 15% a 20% dos clientes que foram em busca de sêmen para inseminar os rebanhos apostaram na técnica do tempo fixo. Os benefícios não param por aí. Além de praticamente eliminar a necessidade de mão-de-obra para observar o cio - que também pode apresentar falhas e perder a oportunidade de cobertura, o que é prejuízo certo -, pode-se reduzir o intervalo de um novo cio após o parto. Ou seja, mais bezerros no rebanho em menos tempo. Outro ponto positivo é o fato de reduzir a taxa de doenças sexualmente transmissíveis.

A EVOLUÇÃO DA TÉCNICA

Um breve resgate histórico mostra que já se evoluiu, e muito, em termos de IATF no Brasil. Em 2002, o número de animais sincronizados não chegava a 100 mil. Neste ano, até o final da estação de monta, que vai de fevereiro a março de 2008, serão submetidas à técnica 1,5 milhão de fêmeas. “É um número surpreendente”, comemora o professor Pietro Baruselli, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP).

A necessidade de olhar o rebanho a cada 12 horas, de domingo a domingo, para identificar o cio, fica cada vez mais no passado. “Muitos cios foram perdidos com esse tipo de acompanhamento, que gera um atraso na concepção e, em conseqüência, representa menos bezerros nascidos”, afirma o especialista. Hoje, é possível inseminar, por tempo fixo, 400 vacas em um único dia. “Isso com tecnologia que permite eficiência satisfatória e facilidade”, argumenta.

Estes animais demorariam muito mais a ovular novamente após o parto com a monta natural. No caso da IATF, a ovulação é induzida e acontece de forma precoce. “O animal emprenha mais cedo”, diz o professor. A média pelo sistema convencional é de 200 dias para a fêmea estar novamente apta a ser mãe. Já com a tecnologia, esse número se reduz para algo em torno de 50 a 60 dias após parir, tanto no caso de fêmeas primíparas (que vão parir pela primeira vez) quanto no das pluríparas (que já tiveram vários partos).

A escolha do sêmen também é fundamental no processo. A IATF busca definir quais são as características que se quer imprimir no rebanho e, desta forma, buscar o banco genético mais adequado. “Atualmente, apenas 6% das matrizes são inseminadas e têm a possibilidade de introduzir no rebanho uma genética superior por usarem os melhores touros nas centrais de sêmen. As outras 94% são cobertas a campo, muitas vezes sem qualquer melhoria genética. Esta vantagem é fundamental”, salienta Baruselli.

O resultado é uma carcaça bem mais acabada e, por conseqüência, melhor valorizada no mercado. “Esses animais geneticamente superiores apresentam mais peso e têm um valor agregado importante”, alega o especialista. “Imagine então produzir mais bezerros por vaca/ano com essas características”, completa. É aí que está a vantagem econômica e a garantia de uma boa relação custo-benefício, acredita o professor.

O custo varia muito de região para região, ainda mais em se tratando de um país de dimensões continentais como o Brasil. A grosso modo, uma média dá a idéia de preços: R$ 15 a R$ 20 por vaca sincronizada. “É um investimento que vale a pena se levarmos em conta que a cotação desses animais também é maior em função da qualidade do produto”, defende Baruselli.

TIRANDO O MELHOR PROVEITO POSSÍVEL

Mas atenção! Para tirar o melhor proveito possível da IATF, é preciso cumprir com requisitos básicos. “Milagres não existem. A ferramenta da IATF, por si só, não vai funcionar se outros fatores ficarem de lado”, adverte o professor Pietro Baruselli. Os animais têm que estar bem alimentados e apresentar condição corporal para receber a técnica. Ou seja, nutrição e sanidade precisam estar em dia. Em caso de a fêmea não estar bem nutrida, a mesma não apresentará a eficiência reprodutiva ideal para a inseminação. “Nem adianta querer usar a técnica se não estiver em condições de recebê-la”, reforça.

Os cuidados com a condição corporal do animal e as condições nutricionais devem ser acompanhados pela escolha de um bom sêmen. “Assim, a resposta será melhor ainda”, afirma o professor José Luis Moraes Vasconcelos, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Campus de Botucatu.

Mas todos esses cuidados valem a pena quando se coloca na balança o retorno que podem trazer. A tendência é que a IATF acelere o processo produtivo da bovinocultura de corte no País. “Estamos falando de uma ferramenta que melhora a reprodução, acelera o processo e diminui a idade para a primeira cria”, enfatiza.

Segundo ele, o pecuarista está mais atento para as vantagens que o processo traz. Prova disso é que cresce a utilização da técnica nas fazendas. A explicação, para o professor, é que antes o criador não tinha recompensa por investir e nem tinha condições para isso. Agora, ele sabe que a tecnologia pode representar uma remuneração melhor. Tanto que vários grupos de pesquisa, tanto em universidades quanto na Embrapa, têm trabalhado nesta técnica para melhorar ainda mais os resultados que ela proporciona. “O mercado quer animais de qualidade”, conclui Vasconcelos.

Mas há outro fator de impacto, e este se dá em especial no Brasil. É que a IATF ajuda a diminuir o anestro (intervalo para a apresentação do cio após o parto), um problema mais comum entre as fêmeas Nelore, uma das raças que mais cresce no País. “Esses exemplares têm um grande problema de ciclicidade, e a técnica pode ajudar a mudar este quadro”, acredita Vasconcelos. Após 11 dias da utilização dos hormônios, já pode ser cumprido o protocolo de inseminação. São esses medicamentos que estimulam o ovário – e isso acontece também na fase no anestro – a produzir, desde que todos os cuidados sejam adotados para que o animal tenha as devidas condições de gestação.

Embrapa investe em pesquisas e aperfeiçoamento da ferramenta

São diversas as unidades da Embrapa envolvidas com pesquisas e aprimoramento da técnica de Inseminação Artificial por Tempo Fixo. O objetivo da empresa é estimular os produtores a investirem na ferramenta, além de atualizar médicos veterinários, zootecnistas e estudantes sobre a tecnologia para a reprodução de bovinos de corte. Em setembro deste ano, por exemplo, a Embrapa Gado de Corte, em parceria com a Intervet, promoveu o Curso Avançado nas Tecnologias para Reprodução de Bovinos.

Na pauta, assuntos como as perspectivas da IATF, as particularidades da técnica no Brasil e a implantação e condução de programas em grande escala. Também foram discutidos temas como a importância da avaliação do sêmen para o sucesso da inseminação. No Rio Grande do Sul, a Embrapa Pecuária Sul investe forte na técnica e atualmente desenvolve pesquisas de IATF na ovinocultura.

Na bovinocultura de leite, os reflexos da ferramenta também são positivos, conforme mostram pesquisas da Embrapa Rondônia, que realiza Inseminação Artificial em Tempo Fixo para manter o alto padrão produtivo nos bovinos de leite. De acordo com os pesquisadores, esta é uma das técnicas mais importantes já desenvolvidas para o melhoramento genético dos animais, potencializando o rebanho e permitindo que características desejáveis sejam transmitidas a outros animais. Para o produtor, a vantagem é o aumento da produção de leite e de bezerros, aumentando a eficiência reprodutiva e diminuindo o intervalo entre os partos.

A Embrapa orienta que, para efetivar esta técnica, o produtor solicite o acompanhamento de um médico veterinário para realização do exame ginecológico das vacas. Desta forma, será possível detectar possíveis problemas, como a inflamação do útero (endometrite) ou qualquer outro fator que precise ser solucionado antes da inseminação. Depois, é só cumprir com o protocolo e desfrutar dos resultados.