Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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LAVOURA - PECUÁRIA

Integração para viabilzar

Muito tem se falado sobre a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) ultimamente, o que pode ser o reflexo de que, finalmente, o mercado está começando a entender a profundidade e o alcance deste sistema de produção. Na realidade, a ILP não é uma proposta nova, já que há muito tempo tem sido utilizada como forma de amortizar os custos da reforma de uma pastagem, geralmente através das tradicionais parcerias entre pecuaristas (donos da terra) e agricultores (arrendatários).

Neste panorama, a grande novidade é a adoção do Plantio Direto (PD) como ferramenta básica para agregar valores ao sistema, agronômica, econômica e ambientalmente falando.

Daí decorre uma boa definição dos alicerces da ILP, que se baseia na melhor utilização dos recursos disponíveis na propriedade, permitindo, com baixo investimento e tecnologia disponível, otimizar os parâmetros agronômicos, econômicos e ambientais da atividade.

Dentre os benefícios do sistema podemos enumerar três grupos:

1– Benefícios da pecuária para a agricultura; 2 – Benefícios da agricultura para a pecuária; 3 – Benefícios do Plantio Direto.

Benefícios da pecuária para a agricultura

A palhada, representada pelos restos de uma pastagem dessecada com Roundup, vem solucionar um dos problemas crônicos da agricultura sob PD, que é a deficiência de palhadas, base para o sucesso de qualquer programa de PD. E este talvez seja o grande benefício que a pecuária traz para o sistema. Inúmeros outros são meramente decorrência da produção de palha: supressão de plantas daninhas (por efeito físico da palha ou por alelopatia), reciclagem de nutrientes (extraídos de camadas profundas graças ao sistema radicular dos capins), retorno de matéria orgânica ao solo (com seus benefícios físicos e químicos na fertilidade e estrutura dos agregados), etc.

Há benefícios típicos da rotação de culturas, como a quebra do ciclo de pragas, plantas daninhas e doenças, este último ganhando importância à medida que se entende o seu valor na convivência com doenças como mofo branco e fusarium. E, por último, um grande benefício, representado pela sinergia entre as atividades agrícolas e pecuárias, que se complementam e dão como resultado um saldo maior do que a sua simples soma.

Na figura 1, pode-se ver o resultado de dois anos de pastagem de braquiária, interrompendo a monocultura da soja, em experimento conduzido pela The Nature Conservancy na fazenda Sucuriú, em Chapadão do Céu/GO. A produtividade aumentou 14% e o consumo de defensivos caiu 70%.

Benefícios da agricultura para a pecuária

Aqui se sobressai o histórico benefício do custeio da reforma da pastagem pela produção de grãos. Qualquer lavoura implantada e conduzida razoavelmente bem sobre uma pastagem degradada acaba por gerar uma receita que paga o custo da lavoura em si e deixa sobras, amortizando, em meses, o que a pecuária levaria anos para pagar.

Como se isso não bastasse, o novo pasto plantado após o ciclo agrícola aproveita-se de todo o resíduo das adubações, produzindo uma forrageira de excelente qualidade e em alta quantidade, garantindo altas lotações e ganhos de peso ou produção de leite. Novamente a sinergia aparece como fator diferencial, pois o cultivo de espécies de inverno (ou de safrinha), como o milheto e sorgos para pastejo ou silagem, geram forragem em períodos críticos do ano, beneficiando a atividade pecuária.

Nos dois gráficos da página encontram-se os resultados de avaliações de produção de uma braquiária em várias situações: degradada (com nove anos de implantada e de pastejo), após uma gradeação (prática infelizmente muito comum como processo de recuperação), adubada (com apenas 100 kg/ha de sulfato de amônia) e recuperada (após uma cultura de soja). São dados da Estância Cristina, em Uberaba/MG, mostrando que, após a soja, a Braquiaria Brizanta teve seu potencial de produção de carne aumentado de 72 kg/ha para 454 kg/ha. E o potencial de produção de leite passou de menos de 800 l/ha para quase 5.000 l/ha.

Benefícios do Plantio Direto

As características que tornaram o PD a tecnologia que mais rapidamente foi adotada pelos produtores em toda a história recente da agricultura mundial são novamente responsáveis por todos os benefícios que o sistema aporta à ILP.

Economicamente, o PD traz consigo o benefício de reduzir a necessidade de máquinas (até 48% a menos do que num plantio convencional), de mão-de-obra (até 70%) e de diesel (até 74%). O que se traduz em custos menores e menor aporte de capital para viabilizar a operação.

Agronomicamente, o PD traz o benefício da sustentabilidade. Todos os sistemas convencionais de plantio, baseados em arados e grades, são responsáveis pelos quadros de degradação com que nos defrontamos hoje, seja no Rio Grande do Sul (áreas em desertificação), no Paraná (principalmente no Arenito, mas não exclusivamente lá), em São Paulo ou em todo o Centro-Oeste, no Nordeste ou Norte. Em todos estes solos a matéria orgânica tem papel preponderante na fertilidade, e o PD, pela adição de palha, privilegia a produção de matéria orgânica nos solos, seja em quantidade, seja em qualidade. Isto é sustentabilidade.

Ambientalmente, o papel do PD é notório: controle de erosão, com redução do escorrimento superficial e aumento na infiltração das precipitações, trazendo como benefícios a eliminação de assoreamento, contaminação e poluição, tendo de quebra maior aporte de água aos lençóis freáticos, regularizando o ciclo da água, desde o renascimento de nascentes até a melhor distribuição das chuvas. Ainda ambientalmente, o seqüestro de carbono proporcionado pelo PD na ILP promete benefícios adicionais, como mostram estudos recentes da Universidade de Brasília.

Além destes aspectos, a rapidez que o PD confere à transição entre pasto degradado e lavoura plantada tem conseguido facilitar o entendimento entre pecuaristas e agricultores. Num sistema convencional, o agricultor precisa começar a preparar o solo o mais cedo possível (entre maio e agosto). Para os pecuaristas, esta é a pior época para abrir mão de seus pastos para a entrada de grades e arados, obrigando-os a vender gado ou alugar pasto extra. Se vai ser feito PD, o pasto pode ser usado pelo gado até as vésperas do plantio, sendo retirado duas a três semanas antes apenas para a dessecação em tempo hábil.

E isto nos remete ao tema deste texto, que é a viabilização da propriedade rural através da ILP. A soma de todos os benefícios acima descritos não só viabiliza a exploração das mais diversas classes de estabelecimentos rurais como abre uma perspectiva revolucionária para o Brasil: através da ILP, o País pode fazer frente às acusações internacionais sobre derrubadas indiscriminadas de florestas para a expansão da fronteira agrícola, pois basta estimular a ILP através do plantio de grãos sobre os mais de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas para estender a fronteira sem derrubar um metro de mata. Os dados do quadro ao lado, sumarizando os resultados da ILP na Fazenda Boa Fé (Uberaba/MG), são a prova de que a Integração Lavoura-Pecuária tem condições de viabilizar uma propriedade, pois representa um incremento de 66% na rentabilidade da exploração, quando comparada com uma cultura de milho solteiro.