Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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OVINOS / CAPRINOS

Mais qualidade no rebanho

Criadores iniciantes e produtores tradicionais de diferentes regiões do Brasil estão investindo de forma consistente na ovinocultura. A atividade passa por um momento especial, de valorização dos rebanhos e de busca por condições mais favoráveis de mercado. A procura pela melhoria da qualidade é grande e pode ser percebida pelos excelentes resultados nos leilões realizados especialmente com animais de raças deslanadas. “A ovinocultura recentemente passou por um período de retração, mas agora mostra uma retomada importante, de grande valorização da genética”, destaca o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Afonso Schwab.

Essa mesma busca pelo aprimoramento dos padrões precisa ocorrer em favor do incremento dos rebanhos, afinal, a oferta ainda é inferior à demanda no País. “Enfrentamos a sazonalidade e a falta de regularidade no fornecimento da carne, o que diminui nossa competitividade”, observa Schwab. Esse espaço do mercado acaba absorvido por produtos importados, principalmente do Uruguai, que envia para o Brasil cortes com preços mais baixos. A entrada dessa carne afeta diretamente os produtores nacionais. No ano passado, quando as remessas uruguaias eram menos freqüentes, o valor pago pelo quilo vivo aos criadores ficava em torno de R$ 3. Este ano, em períodos de grande entrada de carne importada, os preços variaram entre R$ 1,80 e R$ 2.

O empreendedorimo dos criadores e o potencial do mercado indicam que há um campo vasto para o desenvolvimento da ovinocultura no Brasil. Para impulsionar o setor, a Arco vem trabalhando em ações direcionadas que envolvem toda a cadeia produtiva. Uma das atividades conta com a parceria do Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/RS) e prevê a certificação dos rebanhos. O projeto-piloto que está sendo montado no Rio Grande do Sul deve ser estendido para todo o País nos próximos anos. “Queremos desenvolver um selo de qualidade para a carne, através do controle dos animais desde a propriedade até a gôndola dos supermercados. As diversas regiões produtoras têm características bem distintas e, conseqüentemente, produtos diferenciados. Pretendemos informar isso ao consumidor para que ele faça a opção”, explica Schwab.

O projeto ainda estipula a certificação de propriedades laneiras (produtoras de lã e de peles) e iniciativas para estimular o consumo da carne ovina entre a população. Também estão envolvidos nas ações a Federação Brasileira de Criadores de Ovinos Carne (Febrocarne) e os agentes do programa Juntos para Competir, desenvolvido pelo Sebrae/RS, Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Entre os produtores de lã, a preocupação é desenvolver um produto mais fino, que possa atender às necessidades das indústrias têxteis. Hoje, empresas brasileiras ainda precisam importar lã de países como a Austrália para a produção de determinados tecidos. “Nós podemos alcançar esse patamar de qualidade. O criador precisa conhecer o seu rebanho para saber que pode agregar valor à produção”, enfatiza o presidente da Arco.

Além da carne, da pele e da lã, a produção do leite de ovelha surge como um importante nicho de mercado que pode ser explorado de forma mais intensa pelo setor. Em alguns estados, já existem trabalhos interessantes nesse sentido com ovelhas da raça lacaune. De origem francesa, a raça é reconhecida mundialmente pela produção do queijo roquefort. “Trabalhando com os diferentes produtos, estamos buscando a maioridade da ovinocultura brasileira, que tem condições reais de crescimento”, prossegue Schwab.

Necessidade de organização

Ao mesmo tempo em que chama a atenção para novos investimentos, a ovinocultura tem necessidades básicas de organização que precisam ser resolvidas para ampliar a competitividade da cadeia. Existem dificuldades inclusive em relação às estatísticas do setor. As estimativas indicam que o rebanho nacional seja de aproximadamente 16 milhões de cabeças. Alguns especialistas, no entanto, apontam para a possibilidade de haver até 30 milhões de ovinos no País. “As estatísticas também são importantes para a organização da cadeia. A expectativa é de que o novo censo do IBGE possa colaborar para o abastecimento de informações”, declara Paulo Schwab.

Definir o consumo nacional de carne ovina também é importante, na opinião do dirigente. Algumas informações dão conta que esse número seja de 700 gramas por pessoa ao ano. “Imagino que a média do Brasil seja menor. Esse índice deve representar o Rio Grande do Sul, onde existe mais a cultura da carne ovina”, analisa o presidente da Arco. Para se ter uma idéia de quanto esse número é baixo, o consumo médio da carne bovina no País chega a 37 quilos por pessoa anualmente.

Grande parte do rebanho nacional de ovelhas vem sendo dividida entre a Região Sul, Sudeste e Nordeste, com destaque para os estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Bahia. No Centro-Oeste a atividade também vem ganhando destaque nos últimos anos, principalmente em áreas tradicionais de bovinocultura de corte. No total, em torno de 25 raças são mantidas nos criatórios brasileiros.

Mesmo com a crescente formação de frigoríficos voltados a ovinos e caprinos, a cadeia ainda enfrenta um alto número de abates clandestinos no Brasil. Schwab estima que a prática esteja presente em 80% dos abates realizados atualmente. Para ele, uma das soluções desse problema passa pela vontade política nos municípios produtores. “Manter um eficiente sistema de inspeção nos pontos de venda pode ajudar a diminuir a atividade clandestina, que além de estimular o abigeato, pode ser responsável pela transmissão de uma série de doenças ao ser humano”, sustenta.