Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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LEITE

Crescimento que vem do sul

O anúncio de novos investimentos na região Sul do País promete redesenhar o setor lácteo nacional. Até 2008, o Rio Grande do Sul receberá as plantas da Nestlé, Embaré e a CCGL e diversos outros projetos em unidades já instaladas. Segundo o Sindicato da Indústria de Laticínios e Derivados do RS (Sindilat), apenas em 2007, deverão ser desembolsados R$ 80 milhões.

Juntos, os laticínios demandarão 12 milhões de litros de leite por dia e obrigarão os criadores gaúchos a duplicarem a produção. Inicialmente, tudo indica que a capacidade instalada no Sul ficará maior do que o potencial de produção do rebanho leiteiro, o que poderá motivar um aquecimento dos preços. "Alguns produtores deverão migrar da lavoura de grãos para a criação de gado de leite", aponta o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Aryeverton Fortes de Oliveira.

Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), a preferência de indústrias pela Região Sul se deve às características do mercado gaúcho, fundamentado em pequenas propriedades de mão de obra familiar. "Nesses casos, se obtém um custo de produção menor em um mercado mais fácil de controlar", pondera o presidente da Leite Brasil, Jorge Rubez.

Contudo, o novo cenário no Pampa deve trazer reflexos em todo o país, que hoje coleta 25,7 bilhões de litros por ano. Segundo levantamento feito pela Embrapa Gado de Leite, em 2015, o Brasil terá ampliado esse potencial produtivo em 25%. No mesmo período, o consumo pode sofrer acréscimo de 18% a 34%, puxado pelo resultado de programas sociais de distribuição de renda entre faixas mais baixas da população, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. O temor inicial é de que o ganho de escala afete a rentabilidade da atividade, que já é extremamente suscetível às movimentações da safra e não deve ser totalmente absorvido pelo mercado doméstico. "Há épocas do ano em que a oferta do leite aumenta de 5% a 8% e o preço cai até 25%, ficando abaixo do custo de produção", constata Oliveira. Atualmente, o consumo per capita brasileiro está em apenas 138 litros/ ano. Na Argentina, por exemplo, cada habitante consome cerca de 210 litros/ano. De acordo com Rubez, atingir a marca de 170 a 180 litros/ano seria suficiente para aquecer o mercado.

Para evitar maiores danos à indústria e ao produtor, é preciso direcionar os investimentos com atenção também à exportação, qualificando a produção de forma a atender a mercados ainda inexplorados. E tudo indica que as novas indústrias que se instalam no país já estão voltadas para esse filão. A Nestlé prevê investir R$ 70 milhões em seu novo complexo e integrar 12 mil produtores para processar leite condensado e em pó em Palmeira das Missões/RS, produtos tipo exportação. Mesmo caminho segue a CCGL, que planeja aplicar R$ 100 milhões em planta em Cruz Alta/RS para obtenção de leite em pó e óleo de manteiga. Já a Embaré aposta no potencial de Sarandi/RS e deve iniciar, em 2007, a construção de unidade orçada em R$ 237 milhões.

Um bom resultado desse esforço em busca do mercado externo foi evidenciado em 2005, quando o Brasil conquistou balança comercial superavitária com embarque de 492 milhões de litros de leite e aquisição de 480 milhões de litros. Todavia, tudo indica que 2006 não deverá manter o índice de embarques. "Já vendemos para o México, Estados Unidos e principalmente para os países árabes, mas 2006 não deve ser tão bom quanto o ano passado", prevê Rubez De acordo com estimativas feitas com base em dados da Secex, em 2006, o Brasil deve exportar 500 milhões de litros, mesmo volume previsto para importações.

O mercado internacional está aberto aos produtos brasileiros. Segundo dados da Food and Agriculture Organization (FAO), a demanda por alimentos no mundo deverá dobrar até 2020, alavancada pelo desenvolvimento de nações como China e Índia. "Hoje, apesar da questão cambial, a demanda externa e o preço valorizado do queijo e do leite em pó são atrativo à exportação de lácteos", acrescenta o pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Mas cair no gosto do consumidor internacional não é tarefa fácil. Passa por um maior controle sobre o fornecimento de matéria-prima, maior exigência quanto à composição do produto, índice de proteína e presença de impurezas de forma a evitar barreiras sanitárias. Se as multinacionais já atuam bem na negociação internacional, resta ao empresário local despertar para esse potencial. "A indústria brasileira precisa se internacionalizar, ser mais agressiva e agregar mais valor à matéria-prima que comercializa", aconselha Oliveira.

Na contramão dos investimentos, os produtores de leite vêm enfrentando dificuldades em obter preços remuneratórios. Apesar dos argumentos de redes varejistas e indústrias de que há excedente de produção no mercado brasileiro, o presidente da Leite Brasil, aponta que o mercado internacional indica exatamente o contrário. Com falta de produção em função da quebra de coleta em países como a Austrália, a previsão é de alta na demanda. Esse cenário deve assegurar estabilidade dos preços do leite em 2007, apesar de haver tendência de alta em função do aumento dos insumos, principalmente dos grãos. O repasse torna-se ainda mais relevante se for considerado que o preço do litro já apresenta defasagem de 16% apenas referente a 2005, informa Rubez.

Procura por produtividade

A promessa de mudança no setor lácteo já leva à busca por animais cada vez mais produtivos. Criadores brasileiros elevam os gastos com matrizes importadas da Argentina e Uruguai. Atualmente, o rebanho de gado leiteiro brasileiro está dividido em 20% de animais puros de alta performance com destaque às raças holandês, jersey e gir leiteiro. Os demais 80% são compostos de cruzas e, em geral, obtêm baixo rendimento. "Nosso desafio hoje é melhorar as raças", diz o pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Um exemplo do que já vem sendo feito nesse sentido é o aumento da procura por exemplares de gir leiteiro, cujo rendimento é alvo de pesquisas da Embrapa. Segundo Oliveira, há 20 anos, a raça obtinha média de 1,8 mil quilos de leite por lactação. Hoje, através de cruzamentos, chega a 3,4 mil quilos. "Isso representa o resultado de um trabalho pelo melhoramento que já desperta interesse de países como Venezuela e Índia", acrescenta.