Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

MERCADO DA CARNE

Embarque movimentado

Parágrafo

Um ano após ter vivido uma das piores crises nas exportações de carne decorrente dos focos de aftosa em importantes regiões produtoras, o mercado brasileiro se prepara para fechar 2006 com superávit. Pelas previsões da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), a receita cambial em 2006 deve ficar em torno de US$ 3,8 bilhões. O presidente da entidade, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, vai mais longe.

Segundo ele, caso a projeção se confirme e os resultados dos dois últimos meses se mantenham em alta, a receita cambial poderá chegar aos US$ 3,9 bilhões, registrando um avanço significativo em relação aos US$ 3,1 bilhões alcançados em 2005. “O foco de aftosa em Mato Grosso do Sul, ocorrido em outubro de 2005, foi muito ruim para a imagem do Brasil no exterior. Naquele momento, houve uma expectativa negativa quanto ao desempenho futuro das exportações. Mas como os frigoríficos investiram em novas unidades em todo o Brasil e se equiparam com o que há de mais avançado tecnologicamente, mesmo com os embargos, a receita cambial das exportações de carne bovina cresceu 30,08% em setembro de 2006, comparada ao mesmo período de 2005, mês em que ainda não tinha ocorrido o foco. De janeiro a setembro deste ano, o crescimento com a receita cambial é de 17% em relação ao mesmo período do ano passado”, compara o dirigente.

Com relação ao volume embarcado será um pouco diferente.

Como a Rússia ficou fechada para os principais mercados nos cinco primeiros meses do ano, o Chile ainda não abriu inteiramente as suas fronteiras e a União Européia mantém o embargo para Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo, o aumento em toneladas será menor do que os 18,5% contabilizados de 2004 para 2005. De janeiro a outubro de 2006, o crescimento de volume foi de 6,93% se comparado a 2005. Se as exportações aumentarem nos dois últimos meses do ano pode-se chegar, no máximo, aos 10%. A explicação para essa diferença, conforme a Abiec, é que em 2005 houve a abertura de mercados novos como Argélia e Bulgária e o mundo árabe comprou muito. Considerando-se o tamanho da crise desencadeada pela aftosa, o desempenho, ainda assim, é visto com otimismo.

Por outro lado, o ex-ministro da Agricultura empolga-se com os frutos da parceria entre Abiec e a Agência de Promoção de Exportações e Investimento (Apex-Brasil), iniciada em 2001. “A exportação de carne brasileira é recente. Em 2000, a nossa receita cambial com carne era menos de US$ 1 bilhão. Graças ao esforço dos frigoríficos e à promoção do Brazilian Beef, que tem sido um caso de sucesso entre os convênios setoriais da Apex, a carne brasileira chega hoje a 180 países. Desde que assinamos o convênio com a Apex, as exportações saíram de US$ 800 milhões para US$ 3,1 bilhões em 2005 e se tudo correr bem, US$ 3,8 bilhões em 2006”, comemora.

Dos paises que são tradicionais compradores do Brasil, os únicos que ainda mantém alguma restrição são o Chile (só abriu para Rio Grande do Sul); os da União Européia, que não compram carne proveniente de São Paulo, do Paraná e do Mato Grosso do Sul, e a Rússia, o maior importador, que manteve o embargo para Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. “Para 2007 a estratégia é continuar a busca por aumento de preço, gerando renda para empresários e produtores. No entanto o maior desafio será a abertura de mercados ainda fechados para a carne in natura, como é o caso dos países do Sudeste Asiático e dos Estados Unidos”, afirma Pratini. A Abiec espera que em 2007 os embargos do Chile, União Européia e Rússia cheguem ao fim.

O analista da Agra FNP, Geide Figueiredo Junior, faz a seguinte projeção para o próximo ano: “Do lado da oferta, deve haver diminuição e conseqüente recuperação dos preços para os produtores. Isso é comprovado pelo elevadíssimo abate de fêmeas bovinas nos últimos pelo menos três anos, o que não deixou os preços subirem como se esperava, devido a grande oferta de fêmeas no mercado. Do lado da demanda, as exportações devem crescer. O mercado internacional está demandado por proteína animal, em especial pelo aumento do poder de comprar dos países emergentes. Além de problemas de oferta enfrentados por outros importantes players como: Austrália (seca) e Argentina, Paraguai e Uruguai (limite de produção) e os Estados Unidos que está voltando agora ao mercado”.

Para o coordenador da divisão de mercado pecuário da Scot Consultoria, Fabiano Tito Rosa, a queda dos embargos poderá resultar em um aumento de pelo menos 10% no volume de exportações. “O faturamento já não deverá registrar desempenho muito superior, mas é possível que cresça ainda um pouco mais que o volume, algo em torno de 12% a 15%. Vale destacar que a abertura de grandes mercados, como os EUA, levaria a crescimentos bem maiores que o esperado”, projeta.

Otimismo no mercado interno

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) espera uma produção de 9,93 milhões de toneladas equivalente a carcaça de carne bovina para este ano, um aumento de quase 5% em relação a 2005. Alguns especialistas apostam numa virada ascendente no ciclo pecuário em 2007, outros, mais reticentes, preferem esperar um pouco para arriscar previsões desse tipo. O analista da Scot Consultoria acredita na primeira hipótese. “Nesse segundo semestre, o ciclo começou a se reverter, desde o início do plano real não se via um movimento de alta dos preços tão grande no período da entressafra. Antes do plano real as altas eram maiores porque tínhamos inflação”, observa. E continua: “houve um aumento acima de 25% em varias praças. Foi muito forte, embora o patamar de preço não tenha sido muito remunerador porque partiu de uma base muito baixa”. Para ele, é possível que a produção se estabilize, ou registre um leve recuo, em função da redução do descarte de matrizes (reflexo da virada do ciclo pecuário). “Além do mais, mediante a recuperação dos preços pecuários, os produtores devem voltar a investir, elevando a produção novamente a partir dos anos seguintes”.

Rosa afirma que o mercado está mais otimista. “Ao longo dos próximos anos, a cotação da arroba deve evoluir acima da inflação. E o mercado interno sinaliza que pode adentrar um período de crescimento mais robusto”, prevê.

A Consultoria Estratégica de Longo Prazo (CELP) do Instituto FNP estima para o próximo ano uma produção de 8,53 milhões de toneladas. Mais moderado, Figueiredo, da Agra FNP, acredita que, por enquanto ainda não se pode dizer com certeza que o ciclo pecuário está se revertendo - de uma fase de preços baixos para uma de preços altos.

Eficiência é igual à sobrevivência

Os especialistas podem divergir em algumas questões, mas em um ponto eles concordam em uníssono: “gestão eficiente é a salvação do plantel”. “A gestão, especialmente em custos e controles administrativos, é essencial principalmente em momentos como estes, de baixíssimas margens e/ou prejuízo. “Quem não investe em gestão está fora do mercado”, sentencia Figueiredo.

“Quando se trabalha com comoditie não é possível diferenciar o produto, por isso é preciso ser eficiente na gestão do negócio. E a gestão envolve tudo, processo de pessoas, informações, gestão de risco. A tendência das comodities é de queda ao longo dos anos, por isso o produtor tem de trabalhar com uma escala elevada, aplicando tecnologia, mantendo o mercado mais ofertado. É uma situação delicada porque o pecuarista negocia com mercados concentrados, tanto na venda, quanto na compra. E temos de considerar também os ciclos pecuários”, comenta Rosa.

Para baixar os custos, o analista da Scot aconselha a aplicação em tecnologia, com planejamento e bom critério de escolha, que auxilia no aumento da produção e redução de custos fixos. “O problema é que, inicialmente, isto exige um certo aporte de capital. A gestão de custos também é importante, pois aponta gargalos e, muitas vezes, saídas para uma contenção dos desembolsos que não comprometa resultados”, salienta.

“Custo de produção é trabalho sério de controle e necessita de disciplina e, lógico, melhores preços de venda. Compras em grandes volumes (associados a outros produtores), comparar preços dos insumos e condições de pagamento são itens básicos para arrefecer os custos de produção. Informação precisa e de qualidade e análise de rentabilidade da atividade, feita por especialistas, podem nortear o negócio e são indispensáveis. Na maioria das vezes o produtor corta os custos de modo errado. Começa, por exemplo, pela informação. Esta não deveria ser cortada e sim sempre valorizada”, orienta o profissional da Agra FNP.

Na opinião dos analistas, a cadeia bovina tem muito a aprender com a cadeia de carne suína e de frango, em termos de organização e marketing. “Se os próprios pecuaristas não se unem, fica difícil a briga por preços melhores junto aos frigoríficos. Estes dois elos da cadeia vivem, como se sabe, em ‘pé de guerra’. Se os grandes frigoríficos se organizaram e estão ganhando muito dinheiro com isso, porque os produtores e talvez os frigoríficos menores (de mercado interno) não fazem o mesmo?”, questiona Figueiredo.