Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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GENÉTICA

Leite de laboratório

Recuperação. Esta é a palavra-chave que retrata a situação do setor de inseminação artificial e transferência de embriões em 2006. Num ano em que os produtores de gado de corte tentam recuperar a credibilidade no mercado externo devido aos focos de febre aftosa registrados no Mato Grosso do Sul e no Paraná ocorridos ainda em 2005, a grande vedete foi o gado de leite.

Somou-se a este quadro o fato de 2006 ser um ano eleitoral, tornando mais evidentes os reflexos da crise no setor agropecuário, agravada com a queda no valor do dólar e com a perda de mercados externos. “O setor está tentando dar a volta por cima no patamar de vendas alcançado em anos anteriores”, coloca o gerente geral da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), Ricardo Reuter Ruas. Para o pesquisador da Embrapa Gado de Leite e presidente da Sociedade Brasileira de Transferência de Embriões (SBTE), João Henrique Moreira Viana, o período foi de cautela. “A crise do setor está causando uma reacomodação, com reflexos nos preços de mercado de genética, na relação oferta e demanda, na produção de embriões e nas projeções futuras para o setor”, destaca.

O fato de o Brasil ter passado a ser exportador de leite foi o fato que mais contribuiu para a aposta do segmento leiteiro em genética. A Instrução Normativa 51 do Ministério da Agricultura, que exige padrões mínimos de qualidade do produto desde o manejo do gado até a venda final do produto também seria outro impulsionador dos investimentos. “Existe a necessidade deste produtor se profissionalizar. Uma tecnologia puxa a outra”, coloca Ruas. Segundo a Asbia, o volume de inseminações em gado de leite vem evoluindo numa curva ascendente, principalmente nos últimos cinco anos. Só em 2005 – com relação a 2004 - a aplicação de doses de sêmen cresceu 10,2%, de 2.581,909 para 2.845,167. Em 2003, o número havia estado em 2.577.055 doses e, em 2002, em 2.372.476. “A tendência é que este número continue crescendo”, projeta Ruas. O Brasil, atualmente, responde por 66% do volume total de leite produzido nos países que compõem o Mercosul, e, segundo a Embrapa Gado de Leite, é o 6º maior produtor de leite do mundo. As campeãs dos investimentos são as raças holandês (que em 2005 respondeu por mais de 50% da preferência) gir e jersey.

A retração no mercado das raças de corte também contribuiu para o crescimento do setor leiteiro. A queda na aplicação de sêmen já foi de 14,61% em 2005. Nesta época, volume de doses no Brasil já havia caído de 4.898,640 para 4.183,141 registrados em 2004. O impacto foi mais representativo para a raça nelore, a mais difundida no Brasil. O recuo chegou a 14,09%, reduzindo o volume de doses de 2.716.648 para 2.333.983 no mesmo período. “O produtor prefere colocar o dinheiro onde seu planejamento não vai fracassar”, aponta Ruas. Contudo, a tendência e a expectativa é de que este ano se encerre nos mesmos patamares de 2005, o que já seria considerado um bom resultado para o setor,que, no gado de corte, vem de resultados negativos. “A tendência é de que o ano de 2006 seja igual ao de 2005, mas 2007 deverá ser melhor. Dependemos de fatores como a política econômica do governo”, aponta Ruas.

As regiões Sul e Sudeste continuam liderando nos investimento em genética, mais do que a região Nordeste, Centro- Oeste e Norte . Aproximadamente 5% das matrizes de corte e 8% das matrizes de leite são inseminadas anualmente no Brasil, 6% do total de fêmeas . Mas os investimentos ainda deixam a desejar. O grande obstáculo ainda é conseguir que as informações sobre as vantagens e simplicidade da inseminação artificial cheguem aos produtores. “Muitas vezes não faltam informações, falta apenas atitude do produtor, em trocar a comodidade da monta natural pelo trabalho com a inseminação artificial, onde se precisa gerenciar o processo”, coloca Ruas. Para Viana, as projeções futuras para a atividade e a incerteza da evolução do mercado têm retraído os investimentos, seja dos pecuaristas, das centrais de sêmen ou dos fornecedores de insumos como os laboratórios farmacêuticos. “Ainda há muito espaço para o aumento no uso da IA, e o principal limitante não é operacional, como no gado de corte, mas sim a falta de estratégias claras para a evolução genética do rebanho”, avalia.

Uma das formas apontadas pelo especialista para alavancar os negócios neste mercado seria de os laboratórios oferecerem novas tecnologias, buscando um diferencial aproveitando a estrutura pré-existente para oferecer novas biotecnologias como biópsia embrionária, bipartição, clonagem e até terapias com células-tronco. Outra estratégia seria expandir a oferta de biotécnicas para outras raças, particularmente eqüinos e pequenos ruminantes. “Agregar serviços é uma importante estratégia de mercado. Desta forma, mais que novas técnicas, o importante será o pacote de serviços oferecido”, diz. Para Ruas, o Brasil tem todas as condições ambientais favoráveis ao melhoramento dos rebanhos e da produção, e pode, em poucos anos, triplicar a produção atual, apenas aplicando conhecimentos existentes onde não existe conhecimento. “Isso tornaria o Brasil o único país no mundo com capacidade de crescimento expressivo na produção de alimentos, garantindo seu lugar no futuro como maior exportador mundial no segmento”, assegura.