Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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NUTRIÇÃO

Qualidade de primeiro mundo

O mercado brasileiro de rações vive um bom momento não por suas projeções financeiras, mas pela conquista recente de maior credibilidade no exterior. O Euro-Retailer Produce Working Group (Eurep), protocolo europeu das melhores práticas agrícolas, já reconhece o programa de Boas Práticas de Fabricação de alimentos para animais (BPF), formulado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações). Trata-se do único programa do mundo em alimentação animal certificado segundo padrão europeu (e o único do Brasil nesse sentido, a englobar toda uma cadeia produtiva: fabricantes de ingrediente, premix, ração, suplemento, aditivo e pet food, entre outros). Em particular, uma novidade a beneficiar sensivelmente produtores de concentrados e suplementos minerais bovinos.

Para este setor, Ricardo Zucas, supervisor técnico do Sindirações, estende certo otimismo registrado no restante da cadeia produtiva de rações, esperançosa pelo acesso a um mercado consumidor de 75 milhões de toneladas do produto. Ele aposta, em médio prazo, no aumento das exportações da área e dos confinamentos suplementados, sem arriscar números. Isso porque a qualidade das rações, para a qual o BPF pretende contribuir, seria ainda a maior preocupação do segmento, a influenciar também a produção de carne e leite. “Temos grande know-how e tecnologia, mas o pecuarista brasileiro não tem a cultura de usá-los. Busca as formulações mais simples, caseiras”, conta Zucas.

Para cortar custos, segundo ele, muitas vezes são usadas receitas inadequadas, de benefícios variantes. Em geral, não se faz o planejamento adequado do uso de suplementação e pode-se colocar em risco a sanidade animal e humana, uma vez que o Ministério da Agricultura não exerce fiscalização adequada da atividade, como explica o supervisor técnico.

O Sindirações e a Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram) orientam sobre a qualidade desses alimentos e recomendam o registro formal de fazendas que produzem rações para uso próprio ou comercialização, além do BPF.

Ponderações importantes

Sérgio Raposo Medeiros, pesquisador em nutrição de ruminantes na Embrapa Gado de Corte, destaca outro entrave do setor de alimentação bovina. “O pecuarista está arredio ao investimento”, afirma, ao acompanhar estatísticas e relatos dos dois lados do balcão. E vê a tecnologia, cujo objetivo é justamente a obtenção de qualidade, com melhor custo-benefício, como um agravante deste quadro. “A ocorrência dos baixos preços da arroba nos últimos tempos foi avaliada como decorrência do excesso de produção de carne, exatamente por causa do uso de mais tecnologia”, relaciona. “Ainda assim, há pecuaristas com sistemas de produção tecnificados, baseados em suplementação em pastagem e até confinamento, que usam bastante concentrado e estão satisfeitos, pois têm bom planejamento e boa produtividade”, contrapõe Medeiros. “Como sabem quanto gastam, têm mais chances de tomar as decisões que os levam para o azul”.

A recomendação para o pecuarista fazer ou não a ração, explica Medeiros, depende de vários fatores, particularmente escala, capacidade operacional e capacidade de gestão da fazenda. “Com uma escala razoável, bem equipado, com boa mão-de-obra e disposto a gerenciar compras e estoques, há boas chances de economia. Falhas em qualquer um desses pontos podem fazer algo que é positivo no papel se transformar em vermelho na prática”, ensina.

Novas oportunidades

“O mercado de rações ainda pode crescer muito, especialmente se conseguirmos utilizar melhores alimentos de ocorrência regional, sub-produtos e até resíduos”, prevê o pesquisador da Embrapa. Um exemplo de alimento de ocorrência regional seria a Mandioca. “A opção de farelos deve aumentar com o uso de produção de óleo vegetal para combustível (biodiesel, uso direto, H-bio, etc). Resíduos agrícolas são mais difíceis de serem trabalhados, mas entre eles pode haver boas oportunidades”, enumera. Mas recomenda cautela. “Há muito marketing, especialmente com aditivos sem nenhuma comprovação de eficácia, lançados a toda hora”.

No Brasil, as empresas que já possuem o selo BPF (ainda sem os itens incorporados na versão reconhecida pelo Eurep) concentram-se em São Paulo. São elas: Agroceres Nutrição Animal, Tortuga Cia. Zootécnica Agrária, Fatec AS, Bellman Nutrição Animal Ltda., Rações Fri-Ribe AS, MCassab Comércio e Indústria Ltda. e Nutron Alimentos. Em outros estados há a Minerthal Produtos Agropecuários Ltda. (GO); Domino Indústria e Comércio Ltda. (MS); Cargill Nutrição Animal Ltda. (PE); Cargill Nutrição Animal Ltda. (PR e GO).