Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

ILP

 

Biologia do solo

Controle do pastejo na integração protege micro-organismos responsáveis por diminuir a demanda por fertilizantes e produtos para correção

Rodrigo J. S. Jacques1, Ângela D. H. Neufeld2, Hazael S. de Almeida3,
Joice A. Freiberg4, Paulo C. de F. Carvalho5, Ibanor Anghinon6

O solo possui a maior quantidade e diversidade de seres vivos do planeta. Nele habitam muitos organismos, alguns tão pequenos que não conseguimos enxergar sem o uso de microscópios. Principalmente as bactérias, os fungos, os protozoários e as algas. No solo também vive uma grande quantidade de organismos de maior tamanho, são animais como as minhocas, os besouros, as aranhas, as centopéias, os gafanhotos, etc., os quais são denominamos de fauna do solo.,

Todos esses organismos realizam várias atividades de grande importância para o crescimento das plantas, incluindo o pasto, e para o funcionamento do solo. Os micro-organismos degradam os resíduos cultivegetais, devolvendo para o solo os nutrientes que serão novamente reabsorvidos pelas plantas; atuam na formação da matéria orgânica do solo; fazem o controle biológico, reduzindo as pragas e doenças; contribuem para a agregação do solo, o que aumenta a infiltração de água, a aeração e reduz a erosão; degradam os agrotóxicos, reduzindo a contaminação do solo; produzem hormônios e outras substâncias que estimulam o crescimento das plantas, etc. Já a fauna atua na fragmentação dos resíduos vegetais e animais; no transporte desses resíduos vegetais para as camadas mais profundas, fazendo uma “aração” natural; abrem poros de grande tamanho, que são fundamentais para a infiltração de água e a aeração; alimentam-se de outros organismos, fazendo o controle biológico, etc.

Porém, esses organismos são muito afetados pelas alterações que ocorrem nas propriedades químicas e físicas do solo, na vegetação e na quantidade e diversidade de resíduos depositados na superfície. As práticas agrícolas que resultam na redução da cobertura viva ou morta, na redução do teor de matéria orgânica, na compactação da camada superficial, na redução da infiltração de água, na exposição do solo à radiação solar, no aumento da temperatura do solo, na erosão e na aplicação de agrotóxicos reduzem a quantidade e a atividade dos micro- organismos e da fauna do solo. Com isso, todos os processos benéficos realizados por estes organismos no solo deixam de ocorrer ou ocorrem em menor magnitude.

Dessa maneira, se o agropecuarista manejar de forma adequada o seu solo, estará ajudando a aumentar a quantidade e a atividade dos organismos. Com isso, todos esses processos benéficos ocorrerão mais intensamente, o que aumentará a produtividade das plantas. Por outro lado, se for realizado um manejo inadequado, há redução dos organismos e dos processos por eles realizados, perda da qualidade do solo e prejuízos ao crescimento das plantas.

Placa de esterco atacada por besouros coprófagos na área de integração lavoura-pecuária onde o experimento foi conduzido

A integração lavoura-pecuária (ILP), quando bem manejada, melhora a qualidade do solo. Estudos têm demonstrado que esse sistema adiciona ao solo maior quantidade e diversidade de resíduos orgânicos, devido à introdução da pastagem na rotação de culturas e à adição dos dejetos de animais; as plantas pastejadas apresentam maior atividade radicular, o que contribui para aumentar a agregação e o teor de matéria orgânica; a velocidade da ciclagem nitrogênio, fósforo e potássio é maior, reduzindo a necessidade de fertilizantes; a taxa de acidificação do solo diminui e a correção da acidez em profundidade é maior, etc.

Entretanto, nas propriedades rurais frequentemente é observado o mau manejo da ILP devido ao aumento da intensidade do pastejo. A utilização de quantidade excessiva de animais na pastagem reduz a altura do pasto e isso pode suplantar os benefícios da ILP. A alta carga animal reduz a cobertura viva e morta do solo, altera os regimes de temperatura e umidade, reduz o teor de matéria orgânica, aumenta a compactação superficial, reduz a porosidade, a infiltração de água e a aeração e aumenta a erosão. Todos esses prejuízos também afetam de forma direta ou indireta a quantidade e a atividade dos organismos do solo.

Apesar da grande importância da biologia para a sustentabilidade da ILP, poucos estudos foram realizados até o momento para avaliar os efeitos do aumento da intensidade do pastejo na quantidade e na diversidade dos organismos do solo. Por isso, foi realizada uma série de avaliações visando conhecer os efeitos de 15 anos de intensificação do pastejo sobre a quantidade e a diversidade de organismos do solo de uma área de ILP.

O estudo foi realizado em um experimento conduzido desde 2001 pelo Grupo de Pesquisa em Sistema Integrado de Produção Agropecuária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em uma área de aproximadamente 23 hectares, localizada no município de São Miguel das Missões/RS (29°03’10”S, 53°50’44”W). O solo é argiloso (540 g kg-1 de argila) e classificado como Latossolo Vermelho Distroférrico típico.

Desde o início do experimento (2001), a área experimental é cultivegetais vada anualmente em plantio direto com soja para a produção de grãos no verão (novembro a abril) e aveia- -preta + azevém para o pastejo dos bovinos no inverno (maio a outubro). A área experimental é dividida em parcelas com tamanhos variáveis de 0,9 a 3,6 ha, de forma que o pastejo contínuo de três bovinos (com peso vivo médio inicial de 200 kg) em cada parcela resulta nas alturas da pastagem de 10, 20, 30 ou 40 cm. Além disso, há parcelas sem pastejo como testemunhas. A adubação e o manejo da soja seguem as recomendações técnicas atuais.

Local de amostragem da fauna do solo

As análises da biologia do solo foram realizadas em quatro épocas: duas imediatamente após a saída dos bovinos da pastagem (início de novembro de 2014 e 2015) e duas imediatamente após a colheita da soja (início de maio de 2015 e 2016). Foram feitas avaliações da respiração do solo, da atividade das enzimas fosfatase ácida e urease, da quantidade de carbono e nitrogênio na biomassa microbiana, do quociente metabólico, da quantidade e da diversidade de organismos que habitam a superfície do solo (epiedáficos), da camada de 0 a 20 cm (hemiedáficos) e dos ácaros da camada de 0-5 cm do solo. Também foram avaliadas a biomassa de plantas vivas e mortas (serrapilheira) e as propriedades físicas (porosidade total, macroporosidade, microporosidade, densidade do solo e umidade gravimétrica) e químicas (pH, P, K, Ca, Mg, Al) do solo para relacioná- -las com a quantidade e a atividade dos organismos.

Dessas avaliações foi obtida uma grande quantidade de dados, muitos dos quais ainda não puderam ser analisados. Dos dados disponíveis até o momento, é possível afirmar que a maior quantidade e atividade dos micro-organismos do solo ocorre nas maiores alturas do pasto (30 e 40 cm). A menor atividade, avaliada pela respiração do solo, foi quantificada na menor altura da pastagem (10 cm). A atividade microbiana no pastejo a 10 cm foi reduzida em 16, 19, 26 e 30% em comparação com as alturas de pasto de 20, 30, 40 cm e sem pastejo, respectivamente. De forma semelhante, a biomassa de micro-organismos no solo, avaliada pelo conteúdo de carbono na biomassa microbiana (CBM), também foi menor na menor altura da pastagem. O pastejo realizado a 10 cm reduziu em 2, 4, 9 e 18% o CBM em comparação com as alturas de pastejo de 20, 30, 40 cm e sem pastejo, respectivamente.

Professor Rodrigo Jacques e o pós-doutorando Marcelo A. Sulzbacher realizando coleta de solo e plantas

Nas quatro avaliações da fauna do solo, foram coletados 119.946 organismos da superfície do solo (epiedáficos), pertencentes principalmente a ácaros, aranhas, besouros, colêmbolos, formigas, percevejos, gafanhotos/grilos, tesourinhas (Dermaptera) e larvas. Ainda que uma infinidade de outros grupos de organismos também tenha sido coletada (pilhos-de-cobra, centopeias, cupins, lesmas, etc.). As minhocas foram quantificadas nas coletas de organismos hemiedáficos (camada de 0-20 cm) e os resultados não estão disponíveis até o momento. Assim como ocorreu com os micro- -organismos, a intensidade do pastejo dos bovinos reduziu a quantidade dos organismos epiedáficos. Quanto maior a intensidade do pastejo, menor é a quantidade desses organismos. No pastejo intenso, a quantidade foi reduzida em aproximadamente 30% em relação à altura de pastejo de 40 cm. A diversidade de organismos epiedáficos foi maior nas áreas com pastejo de 30 e 40 cm de altura e no sem pastejo. Nos pastejos realizados com maiores intensidades (10 e 20 cm) houve prejuízos ao equilíbrio ecológico do solo, o que resultou em menor biodiversidade.

As relações com as análises químicas e físicas indicaram que a umidade do solo foi o fator que mais influenciou a quantidade e a atividade dos organismos. A umidade foi maior nas maiores alturas da pastagem. Nessas parcelas, há maior quantidade de plantas vivas e resíduos depositados na superfície, o que resulta em menor compactação, pois o solo está protegido do pisoteio, em maior porosidade e maior capacidade de infiltração e armazenamento da água. Além disso, quanto mais protegido o solo, menos radiação solar atinge a superfície, menor a temperatura e menor a evaporação da água. Tudo isso resulta em maior umidade do solo, o que propicia um melhor ambiente para os organismos do solo. Além disso, nas maiores alturas de pasto há maior disponibilidade de alimentos e abrigos para os organismos.

CONSIDERAÇÕES

Nas maiores alturas de pastagem há maior biomassa vegetal viva ou morta, o que proporciona melhores condições físicas do solo. Isso resulta em maior umidade do solo e, por consequência, maior atividade, quantidade e diversidade dos organismos. Esses resultados reforçam a necessidade de um ajuste adequado da carga animal na pastagem para que não ocorra comprometimento à sustentabilidade da integração lavoura-pecuária.

1 Rodrigo é professor do
Departamento de Solos - Universidade
Federal de Santa Maria
2 Ângela é doutoranda do Programa
de Pós-Graduação em Ciência do Solo
- Universidade Federal de Santa Maria
3 Hazael é doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em
Ciência do Solo - Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
4 Joice é mestranda do Programa
de Pós-Graduação em Ciência do Solo
- Universidade Federal de Santa Maria
5 Paulo é professor do
Departamento de Plantas Forrageiras
e Agrometeorologia - Universidade
Federal do Rio Grande do Sul
6 Ibanor é professor do
Departamento de Solos - Universidade
Federal do Rio Grande do Sul