Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Touros

 

Vendas não decolam

Comercialização dos reprodutores desacelera em boa parte do País e setor espera retomada em 2017

Bruno Santos

O ano de 2015 foi excepcional para a pecuária brasileira, em especial, para o mercado de touros. Os pecuaristas foram agraciados por excelentes condições climáticas, forte demanda por carne e grande valorização de preço do boi. Nos remates, as médias dos reprodutores atingiram marcas históricas, com variação entre R$ 10 mil e R$ 12 mil. Assim, a temporada passada terminou com enorme euforia e expectativa de que, se o setor mantivesse a forte demanda, com o mesmo patamar de preço, 2016 seria espetacular.

Com a chegada do novo ano, mesmo com os problemas políticos no Brasil, o cenário, em um primeiro momento, manteve- se promissor. Porém, no decorrer dos primeiros meses, começou a apresentar indícios de queda. Condições climáticas ruins, com longo período de estiagem e baixa demanda por carne, somados aos problemas econômicos do País, impactaram negativamente no campo. Assim, ficou longe o crescimento de 20% em faturamento projetado pelas leiloeiras. “Foi um ano difícil, no qual a pecuária vai terminar com preço mais barato do que começou”, diz Maurício Tonhá, sócio-diretor da Estância Bahia.

Situada no pequeno município de Água Boa, na Região Noroeste de Mato Grosso, onde se realiza anualmente o maior leilão de gado comercial do mundo, a Estância Bahia contabilizou até o mês de outubro uma queda de 15% na quantidade de animais vendidos. Em 2015, a leiloeira comercializou no mesmo período 10 mil cabeças. “A escassez de chuva, em boa parte das regiões produtoras, prejudicou o desempenho do nosso setor”, lembra Tonhá.

Ainda de acordo com o leiloeiro, além da queda no número de touros comercializados, também houve recuo de preço na venda dos reprodutores. Enquanto em 2015 o valor médio foi de R$ 9,2 mil, este ano ficou em R$ 8,2 mil. Apesar do recuo de 10%, o valor ainda está bem acima dos R$ 7 mil de média contabilizados em 2014. “O ano começou bem para a pecuária como um todo, mas no segundo semestre houve essa queda em relação ao ano passado. Foram pouquíssimos os projetos que venderam com preços superiores a 2015”, justificou Tonhá.

Marcelo Silva não espera mudanças no curto prazo

Assim como a Estância Bahia, a Central Leilões, que fica situada em Araçatuba, um dos maiores polos da pecuária de elite do interior paulista, até o momento, também não apresentou crescimento em relação ao último ano, mas manteve o otimismo. De acordo com o proprietário da leiloeira, Lourenço Campo, embora o setor não tenha realizado o mesmo desempenho de 2015, pelo menos, manteve a mesma quantidade de touros (14,5 mil) comercializados. “Não tivemos os mesmos valores do ano passado, mas se levarmos em conta os problemas do País, podemos dizer que foi um ano bom”, afirma.

Até o final do outubro, a Central Leilões comercializou 12,5 mil reprodutores por uma média geral de R$ 9 mil. Uma leve retração de 1,4% em relação a 2015. Os reprodutores de cruzamento industrial tiveram queda de 15% na média, passando de R$ 8,9 mil em 2015, para R$ 7,5 mil, este ano. Já a boa notícia ficou por conta dos touros da raça Nelore, que se destacaram e atingiram valorização de 2,5% em 2016 com R$ 9,4 mil de média, ante R$ 9,2 mil. “Estamos satisfeitos com os resultados da empresa neste ano, pois conseguimos manter o volume de reprodutores comercializados. Além disso, tivemos crescimento dos touros da raça Nelore”, destaca o leiloeiro.

Para Lourenço Campo, o ano ainda não terminou e ele aposta suas fichas nos últimos remates que a Central Leilões tem em sua agenda. Vão as pistas ainda dois mil reprodutores em 13 leilões e seis mil animais de corte, em outros três pregões “No término desses remates, acreditamos que vamos conseguir manter o mesmo nível de faturamento alcançado em 2015”, afirma.

Quem também considera positivo os resultados de 2016 é a paranaense Programa Leilões, do empresário Paulo Horto. A leiloeira andou na contramão da crise e mesmo que timidamente conseguiu superar os números de 2015. Até o momento, a empresa comercializou 25 mil touros, um crescimento de 4% em relação ao ano de 2015. A média dos reprodutores também contou com um leve avanço de 2%, saindo de R$ 9,5 mil para R$ 9,7 mil este ano. “Tivemos um crescimento constante no mercado de touros nos últimos anos e em 2016 nos consolidamos ampliando a oferta e mantendo as médias praticadas nos períodos anteriores”, diz Horto.

LIQUIDEZ GARANTIDA


No Sul do Brasil, embora os preços não tenham avançado como o esperado, houve grande liquidez na maioria dos remates. A Trajano Silva, de Porto Alegre, por exemplo, neste ano, realizou 64 remates de touros, nos quais foram vendidos 961 reprodutores. Os destaques da temporada foram os animais das raças sintéticas Braford e Brangus que tiveram, respectivamente, as melhores médias com R$ 11,5 mil e R$ 11 mil. Os reprodutores Angus e Hereford tiveram a mesma média de R$ 9,1 mil, enquanto os touros Charoleses saíram por R$ 8,5 mil.

Paulo Horto destaca que o uso de tecnologia tem ajudado na comercialização, em especial as DEPs

Para o proprietário da leiloeira, Marcelo Silva, a maior valorização das raças Brangus e Braford mostra que o mercado está em busca de carne de qualidade. “Os pecuaristas estão cientes que os consumidores estão cada vez mais exigentes, e por isso, estão selecionando animais superiores em seus rebanhos”, diz.

Com consumidores mais exigentes, os produtores estão enxergando a necessidade de produzir animais superiores. De acordo com Fábio Crespo, proprietário da Parceria Leilões, também da capital gaúcha, a demanda por touros superiores, principalmente das raças Angus, Hereford, Braford e Brangus, tem sido crescente. “Os produtores estão investindo em animais de elite avaliados, o que significa a produção de futuros touros e ventres de qualidade”, destacou.

Essa demanda por animais superiores segurou as médias dos touros no Sul do País. Segundo Crespo, a Parceria Leilões manteve as médias em patamares iguais a 2015, com a variação entre R$ 8 mil e R$ 13 mil. “Embora tenhamos mantido os mesmos valores do ano passado, o grande acontecimento nesta temporada foi a liquidez. O importante neste momento de crise é que houve a venda quase total da oferta e o produtor que investiu em genética de qualidade será recompensado”, afirmou o leiloeiro.

INVESTIMENTO EM QUALIDADE

Se existe hoje um consenso entre os leiloeiros é exatamente de que as avaliações genéticas são um caminho sem volta na pecuária brasileira. Para o empresário Paulo Horto, o avanço das tecnologias como um todo tem auxiliado muito na comercialização de reprodutores e as DEPs (Diferença Esperada na Progênie) são um grande avanço nesse sentido. Entretanto, ele alerta que, para fazer bom uso das ferramentas disponíveis, é fundamental que o criador conheça bem o gado que tem, assim, ele pode adquirir o touro que vai aumentar sua lucratividade. “Identificar nos animais suas principais características como ganho de peso, precocidade sexual, habilidade materna, entre outras, permite que o comprador tenha uma melhor decisão de compra, adquirindo o produto que vá completar seu plantel”, destaca o leiloeiro.

Para Tonhá, da Estância Bahia, as DEPs têm agregado hoje valor superior a 10% aos animais comercializados nos remates. “As avaliações genéticas têm sido preponderantes para alavancar valores de destaque em um mercado cada dia mais exigente”, diz. Já o titular da Central Leilões vai além. De acordo com Lourenço Campo, estamos chegando ao momento em que a diferença de um touro avaliado com um bom programa de melhoramento para um touro sem avaliação pode chegar até 40% de diferença de preço. “Vai chegar ao ponto que não vai se vender mais touro sem avaliação, é algo irreversível e que não vai demorar muito”, destaca o leiloeiro.

FUTURO INCERTO

Se 2016 não foi o ano dos sonhos para a pecuária brasileira, o setor espera uma recuperação em 2017. Para Paulo Horto, as exportações de carne in natura vão manter a cotação do boi firme e para atender a essa demanda mundial, será preciso continuar investindo em genética. “Para aumentar a produção de bezerros serão necessários mais reprodutores”, diz o leiloeiro.

Outro fator importante que Horto destaca é que as chuvas chegaram bem e já há previsões de uma super safra de grãos no país em 2017. Assim, a expectativa é que a soma desses fatores reflita diretamente na redução do custo de produção da pecuária em geral, proporcionando a entrada de novos criadores e aumento de produção dos criadores já estabelecidos. “Vejo o ano de 2017 com boa perspectiva para o mercado de touros, tanto em volume como nas médias a serem obtidas”, afirma.

Para Lourenço Campo, ainda é cedo para fazer qualquer tipo de previsão, mas ele aposta na força da pecuária, e acredita que não haverá retrocesso na próxima temporada. “Estamos confiantes que vamos manter o nível de faturamento e liquidez de venda dos nossos leilões” diz.

Assim como Lourenço Campo e Paulo Horto, o titular da Parceria Leilões, Fábio Crespo também compartilha a mesma expectativa para 2017. “Será um ano muito melhor com a perspectiva de reaquecimento da economia e a certeza de que a pecuária vai se manter ainda mais forte”, destaca Crespo.

Além desses fatores, a Estância Bahia aposta no aumento do consumo interno de carnes e na recomposição das exportações de modo geral. “Esses pontos serão determinantes para termos um mercado mais ativo, voltando a remunerar o produtor de bezerro, de carne, e consequentemente remunerando também o produtor de genética”, cita Tonhá

Já o leiloeiro Marcelo Silva é o mais cauteloso entre seus pares e acredita que ainda é muito cedo para fazer algum tipo de prognóstico. Segundo ele, o que vai determinar o sucesso do setor é o equilíbrio da política e economia do País. “Neste momento, o cenário econômico não nos deixa fazer muitas previsões. Além disso, temos a concorrência forte da agricultura que pode causar uma retração na pecuária”, finaliza Silva.