Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Sustentabilidade

 

GTPS compila informações sobre a pecuária sustentável brasileira

Francisco Beduschi*

A bovinocultura é uma atividade de importância mundial, fonte de alimentos para a população e origem de subsistência para mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). No Brasil, a atividade ocupa 60% da área antropizada, está presente em todos os municípios e responde por um PIB de R$ 400 bilhões (Cepea-Esalq/USP). No entanto, por maior que seja a relevância da atividade para a manutenção de nossa sociedade, ainda há diversos problemas e desafios - nacionais e internacionais - que precisam ser endereçados. Nesse sentido, uma das maiores dificuldades do setor é a escassez de informações relacionadas à atividade. O último censo agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) disponível abrange dados de 2005 e foi divulgado em 2006. Um déficit de dez anos na atualização dos dados prejudica muito a tomada de decisões dos atores da cadeia de valor.

Levando em consideração esse desafio, o Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) redigiu o documento “A Pecuária Sustentável e sua Contribuição para o Desenvolvimento Sustentável”. Construído no formato position paper, o objetivo do material é reunir dados sobre os desafios, divulgar os avanços e promover um debate aberto e construtivo sobre as questões que envolvem a sustentabilidade na atividade. O material foi desenvolvido em parceria com o Agroicone e conta com o apoio da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). No documento há informações sobre temas como desmatamento, emissões de gases de efeito estufa (GEE), pastagens degradadas, desafios da intensificação, uso da água e perda de biodiversidade, entre outros.

A versão em inglês do documento foi apresentada na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática – COP 21, realizada em Paris no final do ano passado. Na ocasião, 195 países comprometeram-se a reduzir as emissões e adaptar e recuperar os ecossistemas. As contribuições do Brasil, por exemplo, envolvem a redução do desmatamento, mas também a restauração de 12 milhões de hectares de florestas e a recuperação de até 15 milhões de hectares de pastagens. O principal ponto do documento é que a pecuária brasileira pode ser parte da solução para mitigação das mudanças climáticas por meio da intensificação sustentável e já tem bons exemplos para isso. Aumentando a produção e utilizando a mesma área, a pecuária poderá contribuir para redução das emissões dos GEEs por quilograma de carne produzida e ainda gerar recursos para recuperação ambiental nas propriedades, quando for o caso. O position paper está disponível no nosso site e pode ser acessado no link: http://goo.gl/5tuNng.

Para Francisco Beduschi, o principal ponto do documento é que a pecuária brasileira possa ser parte da solução para mitigação das mudanças climáticas

Já na COP deste ano, que ocorreu entre os dias 7 e 18 de novembro em Marrakesh, no Marrocos, além do position, o GTPS divulgou mais dois materiais produzidos pelo Grupo: o Manual de Práticas para Pecuária Sustentável e o Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (Gips). O Manual foi lançado em 2015 e sua finalidade é ser uma ferramenta de apoio para produtores e técnicos na tomada de decisão. Ele é um compêndio de tecnologias testadas em diferentes sistemas de produção e classificadas de acordo com cinco critérios: Custo de investimento; Tempo de repagamento; Impacto na produtividade; Tempo de Implantação; e Complexidade tecnológica. O material está disponível gratuitamente no nosso site www.gtps.org.br. O Gips por sua vez, foi lançado em junho deste ano como ferramenta de autoavaliação para que cada elo da cadeia possa medir sua contribuição na busca pela sustentabilidade e assim estabelecer um processo de melhoria contínua. Agora, o Grupo está trabalhando no desenvolvimento de uma plataforma on-line que seja amigável para disseminar o uso do Guia.

Além desse trabalho, o GTPS atua por meio da articulação com os elos da cadeia de valor da pecuária bovina, apoia o desenvolvimento e promove a difusão de tecnologias sustentáveis, dissemina informação e estimula a melhoria contínua no setor. Essa forma de atuação está alinhada com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (SDGs, sigla em inglês), mais particularmente com o décimo sétimo princípio da agenda, chamado de “Parcerias em prol das metas”. Os SDGs foram lançados em 2015 pela Organização das Nações Unidas, e contemplam 17 metas globais para alcançar três objetivos extraordinários nos próximos 15 anos: Erradicar a pobreza extrema; Combater a desigualdade e a injustiça; e Conter as mudanças climáticas.

Entendemos que esses trabalhos demonstram o amadurecimento do GTPS como uma associação que envolve todos os elos da cadeia na busca pelo mesmo objetivo. Às custas de muito trabalho, pesquisa e inovação, o sistema de produção no Brasil tem dado passos importantes para o uso cada vez mais eficiente dos recursos naturais e mostra-se capaz de conciliar produção e conservação. Ao promover a pecuária sustentável no Brasil, queremos contribuir para atender a crescente demanda por carne bovina com uma produção sustentável.

Ao final, o GTPS quer evidenciar que a pecuária tem um vasto leque de oportunidades para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas, e portanto, pode ser parte da solução. É claro que existem ainda muitos desafios, porém, temos a certeza de que, se continuarmos com o trabalho que vem sendo desenvolvido, o Brasil será um líder no setor e um ótimo exemplo para o mundo.

*Francisco é coordenador da Iniciativa de Pecuária Sustentável do Instituto Centro de Vida (ICV), presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) e vice-presidente da Global Roundtable for Sustainable Beef (GRSB)