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Suplementação

 

Reduza custos com mineralização

Pesquisadores comparam suplementação mineral seletiva com a suplementação mineral convencional

José Diomedes Barbosa, Francisberto B. Barbosa e Pedro Malafaia*

De uma maneira geral, pode-se considerar que existe um sólido conhecimento sobre as deficiências minerais e suas consequências para a produtividade do rebanho bovino brasileiro. É paradoxal, porém, que esses conhecimentos, na maioria das vezes, não sejam “adotados” por técnicos que persistem em formular e estimular o uso generalizado de suplementos minerais com diversos elementos, cuja deficiência em bovinos criados em pastagens não ocorre sob condições naturais ou só existe em situações muito particulares e raras. Há décadas, sempre com base na experimentação, nosso grupo de pesquisa tem proposto a denominada suplementação mineral seletiva, prática baseada no prévio diagnóstico clínico-nutricional dos rebanhos e do fornecimento exclusivo do(s) mineral(is) deficiente(s) e na(s) quantidade(s) necessária(s). Esse método pode permitir uma economia expressiva em relação à suplementação mineral comercial normalmente utilizada.

A alegação de que não vale a pena economizar com a suplementação mineral dos bovinos não procede, pois existem estimativas de que a suplementação mineral pode constituir 20 até 30 % dos custos totais de produção de bovinos de corte. No Brasil, estima-se que depois da amortização do capital, os custos com a suplementação mineral constituem o 2º ou 3º maior componente dos custos totais de produção dos bovinos de corte. Do ponto de vista prático, verifica-se que a suplementação com altas concentrações de fósforo (P), se feita à revelia do diagnóstico clínico-nutricional dos rebanhos, representa um custo desnecessário para os pecuaristas, pois o excesso de P ingerido não exerce efeito benéfico nos bovinos. O fósforo é um recurso mineral finito, maior impactante nos custos das misturas minerais, e o Brasil tem menos de 1% das reservas mundiais. Sendo assim, toda racionalidade em seu uso é recomendada.

Com base no exposto, experimentos foram realizados com o objetivo de comparar, em várias regiões do Brasil, o desempenho ponderal e os custos com a suplementação mineral de bovinos de corte que receberam um suplemento mineral seletivo com outros que tiveram acesso a um suplemento mineral comercial.

A tabela 1 contém, de forma resumida, as informações sobre os delineamentos experimentais. Em cada fazenda, um lote de bovinos teve acesso a um suplemento mineral comercial (SMC) e, outro lote, a um sal mineral seletivo (SMS), durante boa parte do período chuvoso das suas respectivas regiões.

Os animais foram pesados no início do estudo, para a formação dos lotes experimentais e, depois, a intervalos de 30-40 dias até a última pesagem. Todos os animais foram pesados sempre em jejum sólido e hídrico de, no mínimo, 12 horas. Após a pesagem inicial, os animais foram tratados contra ecto e endoparasitas. Os grupos foram formados com animais de peso similar, mesmo sexo e grau de sangue. Após a formação dos lotes, eles eram mantidos em piquetes separados, porém, com composição botânica e topografia similares. Os animais sempre foram manejados sob pastejo contínuo e, após cada pesagem, o grupo que recebia o SMS ia para o piquete pastejado pelo grupo que havia ingerido o SMC, e vice- versa; esse manejo objetivou minimizar o efeito do local de pastejo. A lotação foi de aproximadamente 500 kg de peso vivo por hectare, o que permitiu uma excelente disponibilidade de forragem para os animais.

Quatro dos cinco experimentos realizados favoreceram o SMS

Os SMS foram propostos após o prévio levantamento sobre os aspectos clínicos e nutricionais dos rebanhos e foram feitos contendo apenas fontes de P, sódio (sal branco), cobre (Cu), cobalto (Co) e selênio (Se). Para efeito de comparação, só foram consideradas as concentrações desses mesmos minerais nos distintos SMC (tabela 1). Exceto nos experimentos 2 e 5, no qual os proprietários tinham adquirido o fosfato bicálcico, os demais utilizaram superfosfato simples como a única fonte de P. Em todos os experimentos, os SMC utilizados foram aqueles rotineiramente fornecidos aos bovinos das distintas fazendas. Para os dois lotes de cada experimento, os suplementos minerais eram regularmente colocados em cochos cobertos e com espaço de 3 a 4 cm linear por animal; quando as sobras estavam em torno de 5 a 10%, um novo reabastecimento era feito e a data e a quantidade restante eram anotadas. No experimento 3, não foi possível determinar o consumo médio diário do lote que recebeu o SMC, pois os animais desse grupo permaneceram juntos ao restante do rebanho.

RESULTADOS
O ganho médio diário de peso dos bovinos que tiveram acesso ao SMS foi maior nos experimentos 1, 3, 4 e 5 (tabela 2). No experimento 2, o ganho médio diário de peso foi maior para o grupo de animais que ingeriram o suplemento mineral comercial (tabela 2).

Os animais que receberam o SMS sempre ingeriram menos suplemento mineral do que os que tiveram acesso aos SMC (tabela 2). Houve nítida relação inversa entre o teor de sódio (%Na) de um suplemento mineral e o seu consumo médio diário, em que os SMC, por terem menos %Na, foram os mais ingeridos diariamente.

As despesas com os SMS foram 3,05 (exp. 1), 7,56 (exp. 2), 3,40 (exp. 4) e 2,27 (exp. 5) vezes menores do que aquelas verificadas com os SMC (Tabela 3). Em consequência do manejo adotado no experimento 3, no qual os animais do grupo SMC ficaram juntos com o restante do rebanho, não foi possível estimar a economia oriunda da utilização da suplementação mineral seletiva.

Se, em condições ideais de criação, o adequado desempenho ponderal de bovinos dependesse da suplementação com os mais diversos minerais contidos nos SMC, seria de se esperar que os animais que os ingeriram, neste estudo, tivessem um ganho diário de peso significativamente maior em relação aos que consumiram o sal mineral seletivo, uma vez que os lotes eram formados por animais similares em peso, grau de sangue e sexo e estavam em pastos muito uniformes e com boa oferta de forragem. Não houve, no entanto, esse maior ganho de peso nos animais que consumiram os SMC nos experimentos 1, 3, 4 e 5. Pelo contrário, o que se observou foi um maior desenvolvimento dos lotes que ingeriram o suplemento mineral seletivo nesses quatro experimentos. Esses dados reforçam a ideia de que não há relação tipo causa-efeito entre o consumo de misturas minerais comerciais e o adequado desempenho ponderal dos animais

Nos experimentos 1, 2, 4 e 5 houve uma considerável redução nos gastos com a suplementação dos animais que tiveram acesso aos SMS, uma vez que estes eram mais baratos e foram menos ingeridos. Os maiores consumos diários dos SMC, em especial aquele verificado no experimento 2, só podem ser atribuídos aos baixos teores de sódio dessas misturas comerciais.

É comum pressupor-se, equivocadamente, que os problemas determinados por carência mineral aparecem tardiamente. Os problemas decorrentes das deficiências minerais, todavia, tornam-se evidentes ou detectáveis dentro de algumas semanas ou poucos meses. Dessa forma, a possibilidade de que os animais que ingeriram os SMS viessem a apresentar distúrbios tardios, oriundos de deficiência(s) mineral(is), torna-se absolutamente remota, pois esses não apresentaram quaisquer sinais clínicos diretos ou indiretos de deficiência mineral durante os longos períodos experimentais a que foram submetidos.

Testes similares aos realizados neste estudo, no qual um grupo de animais recebe um SMC e outro grupo, o suplemento mineral seletivo (SMS), são a melhor opção para discriminar os efeitos (positivos ou negativos) entre dois esquemas de suplementação mineral para uma específica fazenda. Por esses testes pode-se investigar racionalmente e por um longo período os efeitos de duas opções de suplementação mineral, com mínimas possibilidades de perdas econômicas. Na ausência de efeitos negativos sobre o desempenho e a saúde dos animais, o pecuarista deverá adotar a opção mais barata.

CONCLUSÃO
Os resultados desses experimentos comprovam que a suplementação mineral seletiva, corretamente implementada e acompanhada, é uma estratégia nutricional que implica em expressiva redução nos custos com a suplementação mineral de bovinos de corte. A economia derivada dessa estratégia deve ser empregada, desde que possível, na correção e adubação dos solos tais ações permitem elevar a oferta de forragem para o rebanho e a lotação animal nas fazendas. Dois aspectos podem ser considerados como fundamentais no que diz respeito à suplementação mineral dos bovinos. O mais importante é estabelecer, com base no histórico e no exame clínico, se há ou não deficiência mineral em determinada fazenda. Uma vez comprovada, deve-se suplementar somente aquele mineral cuja deficiência seja diagnosticada. De forma geral, o suplemento mineral pode ser preparado na própria fazenda, em cooperativas ou empresas idôneas. A assistência técnica contínua, feita por profissional capacitado, é a forma correta de se avaliar, propor alterações e implantar um esquema de suplementação mineral seletiva em uma fazenda.

* José Diomedes é professor do Instituto de Medicina Veterinária da UFPA, Pedro Malafaia é professor do Instituto de Zootecnia da UFRRJ e Francisberto Barbosa é médico-veterinário da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Tocantins