Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

 

Em 2017, talvez se recupere um ano perdido

Bruno de Jesus Andrade*

O ano iniciou e foi conduzido sem surpresas. Desde janeiro, previa-se um ano ruim, de baixa rentabilidade para a pecuária. Foi o que ocorreu: ao longo dos meses, as expectativas sobre uma maior produção intensiva foi se esfriando, o custo de produção, elevando-se, e o consumo interno, estagnado-se.

O primeiro levantamento sobre a produção em confinamento, realizado pela Assocon no 1º trimestre de 2016, chegou a apontar leve crescimento da produção de animais confinados, na ordem de 2%. Entretanto, os dados não expressavam confiança, por alguns motivos:

– houve grande oscilação entre os entrevistados. Enquanto alguns diziam ter intenção de produzir mais animais outros estavam 100% decididos em confinar menos;

– em geral, foi encontrado maior otimismo em pequenos e médios confinamentos, que terminam animais próprios, mas que não interferem de forma relevante no valor total produzido no grupo entrevistado;

– grandes confinamentos entrevistados apresentaram intenção de reduzir em até 60% sua produção em 2016. Alguns boitéis entrevistados sequer haviam aberto suas portas para a safra de 2016;

– evidenciou-se certo descompasso entre planejamento e execução em algumas unidades, deixando claro que muitas vezes o valor projetado não condizia com a realidade de mercado colocada naquele momento;

– por outro lado, identificou-se crescimento na produção em unidades de confinamento localizadas em estados não muito tradicionais no uso desse sistema, como Pará, Tocantins e Maranhão. Além de ter sido possível identificar novas unidades na Bahia e Minas Gerais;

– adicionou-se à conta um maior custo de produção no confinamento, pelos cálculos da Assocon, 23% superior em relação a 2015 (utilizando março como mês de referência).

Os meses foram passando e a neblina que impedia o pecuarista de entender melhor o ano de 2016 também, assim como as oportunidades que o mercado criou. Um exemplo é o contrato futuro de outubro do boi gordo na BMF Bovespa. Sua cotação nos meses de maio e junho foram interessantes, atingindo valores ao redor de R$ 167,00/@, em uma época considerada de entrada de animais no confinamento, quando o produtor já deveria ter seu orçamento pronto e, portanto, consciente de seus custos gerais, podendo travar sua rentabilidade ou, ao menos, garantir parte dela.

Esse seguro e proteção contra o risco não foi observado e executado por muitos confinadores. Com o passar dos meses, outros levantamentos da Assocon e de outras empresas e entidades foram sendo divulgados. Por fim, nosso último levantamento apontou 18,8% de queda na produção de animais confinados em relação a 2015. Outras pesquisas indicaram mesmo potencial de retração.

Pecuarista que confinou no semi-intensivo teve melhor faturamento

Os resultados econômicos da atividade de confinamento em 2016 foram menos atrativos que em 2015. O quadro 1 simula um confinamento típico no Estado de Goiás e seus resultados.

Embora na conta simulada acima o resultado tenha se mostrado positivo, na prática, ele indica um risco elevadíssimo de produção. Comparado aos números de 2015, observamos redução pela metade do retorno por animal. Neste ano, foi necessário ser mais produtivo no confinamento, colocar mais de 1,2 kg de ganho na carcaça para justificar a realização de um sistema mais intensivo de produção.

A sensibilidade do sistema de confinamento às oscilações de preço dos insumos e boi magro também foi maior. Propriedades que pagaram muito caro pelo animal de reposição, acima de R$ 155/@, provavelmente tiveram problemas e sua rentabilidade foi comprometida em Goiás, por exemplo.

É importante considerar que esse volume de animais confinados que deixaram de ser produzidos está sendo engordado de outra maneira, sob outros sistemas de terminação, estão sendo abatidos ou ainda serão comercializados nos próximos meses. Esses animais não sumiram, devido a que informações do Serviço de Inspeção Federal apontam queda de apenas 3% no volume de animais abatidos entre janeiro- -setembro de 2016 em relação ao mesmo período de 2015.

Dessa forma, com o início das chuvas, é de se esperar um pouco mais de animais prontos no começo de 2017, que poderiam ser um fator de queda do preço da arroba do boi gordo, mas o produtor terá a seu favor conseguir segurar esses animais nas suas áreas de pastagem por mais algum tempo e, assim, ir exercendo sua influência no mercado.

E 2017?

No cenário macroeconômico espera- -se um Brasil melhor no próximo ano. Analistas de instituições financeiras apontam projeção de crescimento para a economia brasileira, de aproximadamente 2%, contra uma queda em 2016 de mais de 3%. Esse ritmo poderá se manter e ultrapassar a barreira de 4% de crescimento do PIB em 2018, com a aprovação das reformas fiscais.

Esse crescimento maior do País, não baseado somente em consumo, mas em investimento e redução de despesas, pode dar substancial suporte para o aumento de renda das famílias brasileiras. Com uma taxa de desemprego atual na ordem 11%, além do medo dos brasileiros de perderem seus empregos, existe, sim, um impacto direto no consumo de produtos de maior valor agregado.

Bruno Andrade espera, com o início das chuvas, um pouco mais de animais prontos para abate no início de 2017

Embora os alimentos não sejam itens que serão cortados da cesta básica de um consumidor, ele pode variar, em termos de qualidade, volume e, por vezes, ter itens substituídos por outros de menor valor, como é o caso da carne bovina, substituída pela carne de frango. O aumento ou a queda da renda do brasileiro traz impactos significativos para o consumo de carne bovina de primeira, por exemplo.

Adicionando um certo otimismo, o Ministério da Agricultura, Pecuáriar e Abastecimento (Mapa) projeta crescimento do consumo de carne bovina no mercado interno de 4,6% enquanto a produção crescerá 1%. Aquecendo o consumo interno, é possível ter um pouco de fôlego para o que aparenta ser uma mudança no ciclo pecuário. Em relação às exportações, o Mapa projeta crescimento de pouco mais de 3,7%.

Por outro lado, observamos uma maior oferta de animais para 2017. Estudo do Imea projeta uma maior disponibilidade de machos acima de 24 meses para o próximo ano e já é possível observar valores mais atrativos em animais mais jovens. Embora esse movimento de maior oferta de animais em 2017 possa se refletir em uma desvalorização do boi gordo, o pecuarista tem a possibilidade de produzir uma arroba mais barata que em 2016, considerando a inflação.

Já a produção de grãos, em especial o milho, a Conab projeta produção de 83 a 84,6 milhões de toneladas, o que corresponderia a um crescimento de 25 a 27% em relação à safra atual total. A segunda safra de milho, importante para o confinamento, teria maior crescimento percentual, de 37%. Segundo o Usda fecharíamos a safra 2016/17 com estoques maiores, em torno de 11% superior ao da safra 2015/16. A produção mundial é estimada com 7,4% de crescimento para a próxima safra e também aumento dos estoques mundiais em 4,2%.

O cenário inicial, portanto, aparenta ser interessante ao produtor, pensando que a oferta poderá ser maior de animais de reposição e vislumbra-se uma melhoria da economia brasileira, o que incrementaria o consumo. Porém, é importante lembrar que na demanda ainda reside incerteza devido à situação econômica brasileira e mais recentemente quais seriam os impactos das eleições norte-americanas no fluxo internacional de produtos e mercadorias.

O Brasil recentemente teve acesso para exportar carne bovina in natura aos EUA, os volumes ainda são baixos, mas uma eventual revisão de posicionamento norte-americano frente aos seus parceiros comerciais atuais e acordos que foram desenvolvidos na época do presidente Obama poderiam ajudar o Brasil a conquistar um espaço não aproveitado no passado. Enquanto os EUA acertavam o Tratado Trans-Pacífico, ficamos quase sem acordos bilaterais. E o potencial brasileiro para evoluir em commodities é enorme e pode gerar resultados positivos ao segmento de produção de carne bovina.

Entretanto o Brasil ainda é uma economia de grande potencial de consumo. É na população brasileira que reside grande potencial de crescimento para a pecuária e ao confinamento. As exportações poderão ter uma importância crucial para absorver o excesso de produção, no entanto, é no mercado interno que conseguiremos consolidar posição e estimular a produção de carne bovina.

Para 2017, portanto, é esperado um ambiente mais atrativo para a produção de carne bovina, que poderá ser percebido no segundo semestre de 2017, caso se consolidem os índices macroeconômicos nacionais e maior produção de grãos. Existe um interesse maior do Governo Federal no segmento rural e isso pode auxiliar bastante as tratativas para melhoria do setor, principalmente do que se refere a infraestrutura e segurança jurídica. Entretanto, ainda que a agropecuária tenha conseguido imprimir ganhos de produtividade mais que outros setores da economia, temos observado perda de fôlego nos últimos anos.

Adicionalmente enxerga-se um cenário de estímulo à produção de maior valor agregado. Mesmo que ainda seja um nicho no segmento de produção de carne bovina, poderá dar fôlego e sobrevida a inúmeros projetos que investiram em genética, nutrição e melhoria de gestão nos últimos anos. Observa-se uma mudança de hábitos de uma parte considerável da população brasileira, que passa a valorizar mais a qualidade à quantidade.

Para o produtor fica a mensagem de aprimoramento de sua produção, sempre investir no sentido de produzir mais R$/ hectare. Toda tecnologia que for utilizada em uma propriedade tem como objetivo final remunerar melhor o produtor. A busca por apenas melhores índices zootécnicos pode não ser sustentável. Embora exista uma grande relação entre bons índices técnicos e resultado financeiro, esse último sempre deve ser observado com atenção e harmonizado com um planejamento estratégico.

*Bruno Andrade é zootecnista da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon).