Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Corte

 

Balanço é positivo para a cadeia pecuária

Em relação aos custos de produção, alta dos preços do milho arrefeceu poder de compra do criador

O segmento pecuário, ao contrário da grande maioria dos outros setores da economia brasileira, não sentiu tanto a instabilidade econômica e política do País e manteve-se sólido no decorrer de 2016.

De modo geral, o ano foi positivo para a cadeia pecuária que acabou ajudando a sustentar o PIB brasileiro nesse momento delicado em que se encontra o País. Alguns acontecimentos no decorrer do ano influenciaram as tomadas de decisão dos pecuaristas, que foram obrigados a se manter antenados nas informações.

Os preços firmes da arroba praticados ao longo do ano, decorrentes da falta de animais terminados e com a ajuda das exportações, sustentaram o mercado, apesar da queda contínua da reposição ao longo do ano, que prejudicou os criadores.

Os frutos colhidos nas exportações deste ano foram consequência da reabertura de novos nichos de mercado e da retomada de algumas praças internacionais antes embargadas e hoje reconquistadas, como China e Estados Unidos. A expectativa era que esses acontecimentos, juntamente com a desvalorização do real frente ao dólar, fizessem com que as exportações se elevassem no decorrer de 2016 e que, consequentemente, ajudassem no escoamento da produção interna. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carnes (Abiec), no acumulado de janeiro a outubro deste ano, as exportações de carne bovina tiveram um aumento de 4% em volume frente a 2015, totalizando 1,187 milhão de toneladas embarcadas com um faturamento de US$ 4,637 bilhões.

Já o mês de outubro fechou com as exportações de carne bovina em mais de 107 mil toneladas negociadas, resultando em US$ 449 milhões de faturamento, ainda segundo dados da entidade. A China tomou a primeira colocação de Hong Kong entre os maiores importadores e fechou com aumento de 38% em faturamento e em 35% em volume frente ao mês anterior. Dentre os primeiros colocados, depois dos dois países supracitados, estão a União Europeia e a Rússia.

Entre as categorias de carnes mais exportadas, a carne in natura manteve-se na liderança, seguida da industrializada, dos miúdos, das tripas e das salgadas

A tabela Boi Gordo no Mundo mostra os valores praticados pela arroba em alguns países no mercado internacional, da segunda quinzena de outubro até a primeira quinzena de novembro. Como pode ser observado, o preço da carne nacional continua vantajosa quando comparada às outras praças listadas. Porém, é interessante ressaltar que, ao longo dos meses, a arroba brasileira vem apresentando sucessivos aumentos. Do final de 2015 até o período apresentado pela tabela, a arroba brasileira saltou de US$ 37,28 para US$ 47,60, ou seja, um aumento de 21,7% decorrente, provavelmente, da recuperação do real frente ao dólar.

No mercado interno, o ano foi marcado por fortes pressões baixistas na tentativa de se reduzir os preços pagos pela arroba em busca da retomada da margem por parte das indústrias. Uma das manobras mais evidentes ocorreu no começo de março, quando os frigoríficos de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás reduziram drasticamente a oferta de compra para derrubar os preços. Essa estratégia também foi adotada em 2015. Entre as três possíveis táticas para se tentar recuperar a margem estão: aumentar o preço de venda, reduzir os custos operacionais da indústria e abaixar o preço de compra. Evidentemente, a terceira alternativa foi adotada; porém, com um resultado não tão satisfatório, pois gerou uma retração de 1,4% no valor da arroba no curto prazo e, posteriormente, uma estabilização por um período e retomada de preço nos patamares anteriores à manobra.

As principais razões foram a falta de oferta de animais terminados, além da resistência do pecuarista em entregar seu produto a preços abaixo do previsto, favorecidos pelas pastagens que ainda estavam em boas condições.

As indústrias frigoríficas sofreram durante todo o ano. As suas margens se mantiveram abaixo da média histórica por um longo período, onde as tentativas de retração de preços esbarravam na falta de matéria-prima aliadas ao baixo escoamento interno da produção, influenciado pela situação política e econômica nacional que afetou o poder de compra da população. Somente em meados de outubro as indústrias começaram a recuperar suas margens e, embora houvesse a possibilidade de repasse ao pecuarista, houve resistência por parte dos frigoríficos que precisavam retomar os lucros objetivados.

Outro acontecimento marcante em 2016 foi a alta do milho que afetou diretamente os pecuaristas que o adotam como tecnologia. No Rio Grande do Sul, em maio do ano passado, era possível comprar com uma arroba de boi gordo, em média, 6,4 sacos de milho, enquanto que, em maio de 2016, foi possível comprar apenas 3,6 sacos, ou seja, uma redução no poder de compra de 43,8%. Já no Mato Grosso era possível comprar, com uma arroba, 8,5 sacos de milho em maio de 2015 contra 3,9 sacos no mesmo período deste ano, o que acarretou em uma redução brutal do poder de compra da ordem de 54,1%.

Esse fato fez os confinadores repensarem na atividade neste ano, pois a margem seria muito pequena caso optassem pelo milho e qualquer erro poderia culminar em grandes prejuízos. Portanto, diante desse cenário, a solução foi estudar minuciosamente a viabilidade da utilização desse insumo nos suplementos e nas rações e também buscar utilizar outras fontes energéticas mais baratas, tais como casquinha de soja, polpa cítrica, sorgo ou milheto, entre outras. Assim, a saída foi não ficar preso somente no milho.

Embora houvesse alternativas interessantes, a insegurança influenciou na decisão dos pecuaristas a não fecharem seus bois no confinamento. Sendo assim, a Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon) estima que o número de cabeças confinadas no Brasil no ano de 2016 deve ter tido redução, em volume, de 11 a 15% frente a 2015, passando de 5,2 milhões de animais confinados para 4,6 milhões.

Segundo dados divulgados em setembro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil fechou o ano de 2015 com o recorde de número de bovinos já possuídos pelo País. O rebanho contabilizado foi de 215,2 milhões de animais. Fica a expectativa para a mensuração do rebanho para os próximos anos, que tende a aumentar com a evolução do setor e com uma maior adoção de tecnologias.

O gráfico sobre a Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF apresenta os valores praticados de 17/10 a 16/11/2016. De maneira geral, a maioria das praças manteve-se constante evidenciando que o mercado andou de lado nesse período. Os estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul tiveram retração da ordem de 0,3%, 1,3% e 0,2%, respectivamente, quando comparados aos 30 dias anteriores ao período apresentado pelo gráfico.

Como foi no decorrer do ano todo, a oferta restrita de animais terminados tem sustentado os preços, embora o escoamento da produção interna ainda seja lento. Com o recebimento do décimo terceiro salário por grande parte da população nesses próximos meses, aliado às festividades de final de ano, a tendência é que o mercado se aqueça, porém, sem grandes perspectivas de aumento significativo no valor da arroba.

Já o preço da desmama seguiu a mesma trajetória que já vinha seguindo ao longo de 2016 e fechou em nova queda. O gráfico da Média do preço da desmama de 17/10 a 16/11 mostra os preços médios praticados no período. Somente os estados de Goiás, Pará e Paraná tiveram ligeiro aumento de 1,0%, 1,7% e 0,1%, respectivamente, frente aos 30 dias anteriores ao analisado. Enquanto isso, os estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rio Grande do Sul tiveram retração de preços da ordem de 3,1%, 2,5%, 1,2%, 0,5% e 2,2%, respectivamente. A média de todas as praças analisadas fechou em queda da ordem de 0,9%.

No que se refere à relação de troca do boi gordo com a desmama e do boi gordo com o boi magro durante o ano, houve melhoras contínuas que favoreceram os invernistas, que haviam sofrido em 2015 com as relações desfavoráveis. O gráfico sobre a Relação de Troca média apresenta os indicadores obtidos de 17/10 a 16/11. Quando se comparam esses valores com os obtidos nos 30 dias anteriores ao analisado, observam-se aumentos na maioria das praças acompanhadas, conforme já vinha acontecendo no decorrer de 2016.

A melhora mais significativa foi do Estado de Minas Gerais, que obteve aumento da relação do boi gordo com o bezerro de 8,3% e do boi gordo com o boi magro de 3,83%. Logo atrás vêm os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, que tiveram aumentos da relação do boi gordo com o bezerro da ordem de 5,6% e 4,7%, respectivamente. Somente o Estado do Mato Grosso do Sul teve uma ligeira queda de 0,12% na relação do boi gordo com a desmama.

Fazendo uma análise holística do período de um ano corrido, de novembro de 2015 até outubro de 2016 em termos nominais, o boi gordo teve mais oscilações de preços do que a desmama, conforme pode ser observado no gráfico da Evolução dos preços médios nominais da arroba e da desmama de todas as praças estudadas nesta coluna no período citado.

De modo geral, a alta na arroba ocorrida no começo de 2016 foi devido à oferta restrita de animais terminados no período, fato que também ajudou a segurar os preços no decorrer do ano todo. As quedas mais abruptas ocorreram no começo da estação seca, quando os animais a pasto foram para o abate, e no final do mesmo período, em que os animais do confinamento começaram a ser abatidos, aliados àqueles que por falta de pasto também acabaram indo para o gancho. As recuperações dos preços da arroba em junho e em outubro são decorrentes da restrição de animais ofertados aos frigoríficos posteriormente às ofertas que geraram essas quedas.

Essas oscilações pontuais da arroba não estão fora do comportamento previsto anualmente; porém, a queda sutil mensal presenciada até outubro é a somatória da resistência dos frigoríficos a pagarem mais pelo produto com o baixo escoamento interno da produção, favorecidos pela instabilidade econômica e política nacional que o Brasil atravessou em 2016. Já a desmama sofreu queda constante no período, influenciado pela oferta de animais e pela resistência dos invernistas em pagar os preços pedidos.

É interessante ressaltar que quanto mais próximas as duas linhas do gráfico estão, ou até mesmo quando a linha da arroba é superior à linha da desmama, melhor é a relação de troca. Portanto, como observado e relatado mensalmente nos artigos de 2016, a relação de troca do boi gordo com a desmama aumentou e favoreceu o invernista nesse ano quando comparado a 2015. Isso é evidenciado no gráfico. No final de 2015, as linhas estavam distantes, ao contrário do que ocorreu neste ano, quando ficaram mais próximas, apontando melhora na relação de troca.

Já quando deflacionamos os preços no mesmo período, como apresentado pelo gráfico da Evolução dos preços médios deflacionados, podemos observar que o valor da desmama acompanhou o preço da arroba, sendo que ambas tiveram quedas reais no período. Nominalmente, essas retrações foram mascaradas pela inflação, que girou em torno de 8% no período analisado.

Comparando outubro de 2016 com novembro de 2015, as variações reais da arroba e da desmama foram de -5% e -14%, respectivamente, enquanto que as variações nominais foram de +1,6% e -6,8%, respectivamente. Diante disso, é importante frisar que, com a desvalorização da mercadoria, é preciso ficar atento ao custo de produção e ter o controle do mesmo para que seja possível mensurar e tomar decisões que mantenham ou até mesmo melhorem a rentabilidade do negócio.

Por fim, o ano de 2016 foi positivo como um todo para o setor pecuário. Apesar de algumas oscilações, o mercado manteve-se sólido no período e foi possível realizar bons negócios.

Agora, fica a expectativa quanto ao próximo ano. Até o final do período chuvoso de 2017, a tendência é que o mercado siga o comportamento do final de 2016, com a arroba estável e o preço da reposição em queda. Não há indícios de reviravolta no mercado até a entrada do período seco, e pode vir a ocorrer alguma mudança mais significativa que impacte o setor de fato.

Antony Sewell e Arthur G. S. Cezar
Boviplan Consultoria