Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Ovinocultura

 

Desafios do campo à mesa

Cadeia de ovinos e caprinos apresenta avanços nos últimos anos, mas ainda precisa de fortalecimento em aspectos que vão desde o manejo nas propriedades até a colocação dos produtos no mercado

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

A caracterização da caprinovinocultura no Brasil é tão diversa quanto os seus desafios. Presente em todo o País, a atividade tem perfil variado de acordo com as particularidades regionais. A pluralidade é percebida desde o grande número de raças existentes entre os rebanhos até os produtos derivados que chegam ao consumidor.

Essa diversidade ajudou a motivar o desenvolvimento ocorrido nos últimos anos e que pode ser percebido pela introdução da atividade em áreas novas e pelo aumento de investimentos nas cadeias. Políticas públicas a partir de linhas específicas do Pronaf e a inclusão de produtos no Plano Nacional de Alimentação Escolar são exemplos de iniciativas que favorecem especialmente a carne originada na agricultura familiar. “São ações que ajudam a incrementar a renda e a ampliar a rede de parcerias e a visão negocial dos produtores”, conclui o pesquisador Klinger Magalhães, da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Rebanho de caprinos teve incremento de 9,6% em 2015, chegando a 9,6 milhões de cabeças. Mercado é tradicional para a carne principalmente no Nordeste do País

O apoio político também vem de parlamentares que defendem a atividade no Congresso Nacional. No mês passado, por exemplo, o deputado Afonso Hamm (PP/RS) apresentou à Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Ovinos e Caprinos do Ministério da Agricultura, o Projeto de Lei nº 6.048/2016, que cria a Política Nacional de Incentivo à Ovinocaprinocultura. As principais propostas são aumentar a escala de produção, intensificar o manejo e garantir a regularização do abate.

Pesquisadores da Embrapa Klinger Magalhães (à esquerda) e Espedito Cezário: continuidade do aumento da demanda pode atrair mais investidores e ampliar a formalização na cadeia

Paralelamente às políticas que ajudam a fortalecer os diferentes elos da cadeia, a caprinovinocultura vem se destacando pelo empreendedorismo de criadores dispostos a trabalhar com o melhoramento genético e fornecimento de matrizes e reprodutores voltados à produção de carne. Esse fato é comprovado pelos inúmeros leilões e exposições que todos os anos são realizados de Norte a Sul do País e que movimentam cifras milionárias.

Outro movimento interessante é percebido em parcerias estabelecidas entre criadores e empresários do varejo para garantir o fornecimento de carne o ano todo. Consequentemente, são estimuladas melhorias na produção, como maiores padronização e constância na oferta. “Os avanços acontecem tanto em mercados tradicionais como as Regiões Sul e Nordeste, com a otimização dos sistemas para qualificar e ampliar a oferta de carne, quanto em regiões não tradicionais, com o surgimento e a consolidação dos mercados dispostos a consumir carne ovina”, constata Juan Ferelli, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Demanda mantém preço do cordeiro em alta

O consumidor, principalmente da carne de cordeiro, reconhece o diferencial do produto pelo paladar e está disposto a pagar mais por ele, considera o assessor técnico da Comissão Nacional de Ovinos e Caprinos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rafael Linhares. “Acredito que a carne, o leite, a lã e até mesmo a pele terão um mercado promissor com remuneração satisfatória à medida que a oferta se aproximar da alta demanda”, declara

A valorização da carne de cordeiro é expressa pelos bons preços pagos pelo produto. Em praças do Rio Grande do Sul e de São Paulo, as cotações do quilo vivo vêm se mantendo entre R$ 5 e R$ 7. De forma geral, acrescenta Linhares, tanto o setor público quanto a iniciativa privada percebem o potencial da cadeia e se empenham em projetos locais para fomento. “Os próximos anos poderão ser de aumento de rebanho, crescimento da produção formal e disposição de produtos nobres aos consumidores”, observa.

Os pesquisadores da Embrapa têm perspectivas semelhantes, já que o aumento da demanda pode atrair empreendedores e, consequentemente, ampliar a formalização. “Isso não significa que somente os grandes investidores teriam espaço. Ao mesmo tempo, outros arranjos e oportunidades surgem, como a possibilidade de integração da agricultura familiar com a indústria nos moldes de outras cadeias”, analisa Klinger Magalhães.

Incremento no rebanho

Os números do IBGE indicam que o rebanho ovino do País alcançou 18,4 milhões de cabeças em 2015, o que representa um crescimento de 4,5% em relação ao ano anterior. O incremento é resultado principalmente da ampliação de 10,1% no plantel da Região Nordeste, onde está concentrado o maior número de animais.

Entre os caprinos, o cenário é semelhante. O rebanho de 9,6 milhões de cabeças somou aumento de 9,6% em 2015. No Nordeste, a alta foi de 9,9%, enquanto no Sudeste e no Sul houve redução de 8,2% e de 6,3%, respectivamente.

Rafael Linhares, assessor técnico da CNA: “O consumidor, principalmente da carne de cordeiro, reconhece o diferencial do produto e está disposto a pagar mais por ele”

Como avanço qualitativo, produtores vêm se beneficiando de tecnologias voltadas à segurança nutricional dos rebanhos com o desenvolvimento de alimentos adaptados à realidade local. “Também percebemos um crescimento do uso de manejos sanitários preventivos, o que deverá ser aprimorado com a conclusão da caracterização zoosanitária dos rebanhos que está em andamento”, relata o pesquisador Espedito Cezário, da Embrapa Caprinos e Ovinos.

A sustentabilidade econômica, no entanto, depende da superação de uma série de gargalos importantes. A CNA promoveu encontros em oito localidades de grande relevância para a atividade para realizar um diagnóstico da cadeia no Brasil, e identificou, por exemplo, descontinuidade e falta de qualificação da assistência técnica prestada aos produtores. “A mão de obra despreparada e insuficiente para lidar com o manejo dos animais também atrapalha o desenvolvimento do setor no campo”, pontua Rafael Linhares. Segundo o assessor, junto ao mercado, os problemas são o comércio e a indústria informais. “Esse cenário inibe investimentos, atrapalha a mensuração estatística da cadeia e coloca em risco a qualidade sanitária dos produtos”, ressalta. “Acreditamos que a produção ovina e caprina, sendo comercial ou de subsistência, poderá ser melhorada à medida que o Plano Agrícola e Pecuário contemplar linhas específicas de crédito para melhor aporte sanitário, genético e nutricional dos rebanhos”, complementa.

Linhares cita que entre as iniciativas desenvolvidas pela CNA em prol da caprinovinocultura está o Projeto Campo Futuro, que envolve ações de capacitação e o levantamento do custo de produção. Ao mesmo tempo, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) contabiliza mais de 600 propriedades assistidas pela área de assistência técnica e gerencial.

Desafio da regionalidade para os caprinocultores

O acesso dos produtores a soluções de tecnologia e inovação podem ajudar a direcionar a cadeia para a solução do principal entrave, que é a informalidade. O pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos Vinícius Guimarães alerta que as instituições de pesquisa e apoio ao setor devem investir no entendimento desse desafio para buscar a organização da base de fornecimento de animais para atender a crescente demanda pela carne.

Especificamente entre os caprinocultores, o fortalecimento dos Arranjos Produtivos Locais vem ajudando a estruturar novos mercados e a estimular o crescimento dos que são tradicionais, ou seja, Nordeste e Sudeste para o leite, e Nordeste para a carne. “Ao mesmo tempo, no Sudeste existe um crescente mercado para queijos e produtos de maior valor agregado”, lembra Guimarães.

Com gargalos bem parecidos aos da ovinocultura, a criação de caprinos ainda soma o desafio da expansão geográfica para alcançar um maior dinamismo e ampliação do consumo, já que mais de 90% do rebanho estão concentrados nos estados do Nordeste. “A caprinocultura tem um grande potencial que inclui a produção de lácteos finos e enriquecidos com probióticos, assim como a carne com baixo teor de gordura. O consumo também deverá ser estimulado com campanhas de marketing que apresentem tais características”, salienta o pesquisador. Da mesma forma, o crescimento da renda média da população, associado ao maior nível de educação, pode levar a um aumento do consumo de alimentos de melhor qualidade.