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Nutrição

 

Instabilidade

Demanda por alimentação sofreu grande revés devido ao aumento significativo nos preços do milho e farelo de soja em 2016

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

O que insinuava ser um ano de crescimento expressivo para o setor de nutrição animal brasileiro ao registrar, de janeiro a junho, um total de 33,3 milhões de toneladas de rações e suplementos, com aumento de 3,2% em comparação ao mesmo período de 2015, pode se encerrar de forma melancólica. O Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) não liberou os dados para a Revista AG na íntegra sobre produção no segundo semestre, pois os mesmos serão divulgados somente em meados de dezembro na capital paulista.

Todavia, no balanço do Sindirações, a indústria foi bastante prejudicada, principalmente na primeira metade do ano, pelo aumento expressivo do milho e do farelo de soja (produtos comercializados internacionalmente), cujos preços são modulados por movimentos cíclicos de expansão/ retração da oferta em resposta ao ritmo da demanda, impulsionada, por sua vez, por fatores econômicos e políticos.

A título de comparação, ainda durante o primeiro semestre de 2015, a generosa disponibilidade vigente e a conjuntura econômica à época, caracterizada por valorização do dólar, queda no preço do petróleo e consecutiva diminuição da adição de etanol à gasolina americana, desaceleração econômica na China, enxugamento monetário e alta dos juros nos Estados Unidos, inverno menos rigoroso no hemisfério Norte, recuperação europeia indefinida e liberação gradual dos estoques argentinos, pressionaram os preços em todo o mundo.

Pois naquele período, a tonelada do milho recuava 5% (US$ 174,00 em janeiro/15 e US$ 166,00 em junho/15) e a do farelo de soja retrocedia quase 7% (US$ 379,00 em janeiro/15 e US$ 354,00 em junho/15), de acordo com o Usda Market News.

''Durante praticamente todo o ano, a oferta de rações e suplementos foi restrita por causa do retrocesso nos abates e da redução no peso das carcaças'', diz Ariovaldo Zani

No entanto, o ambiente doméstico brasileiro seguia na contramão, já que a vigorosa valorização do dólar (R$ 2,63 em janeiro/15 e R$ 3,60 em junho/16), somada ao invejável desempenho exportador do agronegócio durante o exercício comercial de 2015, demandou, além de carnes, café, celulose, entre outros produtos, aproximadamente 30 milhões de toneladas de milho e 15 milhões de toneladas de farelo de soja, elevando a cotação. Basta comparar pontualmente os preços em reais do cereal e do farelo em junho de 2016 (R$ 51,00/saca de 60 kg e R$ 1.526,00/ tonelada) com aqueles praticados em janeiro de 2015, de R$ 28,00/saca de 60 kg e R$ 1.114,00/tonelada.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), houve alta de mais de 80% (milho) e quase 40% (soja), respectivamente. “É importante enfatizar que o câmbio incrementou o custo de diversos insumos/aditivos, já que são importados e indexados ao dólar”, esclarece Ariovaldo Zani, vice-presidente executivo do Sindirações

BOVINOCULTURA DE CORTE
Na avaliação do dirigente, durante praticamente todo o ano, a oferta de rações e suplementos foi restrita por causa do retrocesso nos abates e da redução no peso das carcaças. A arroba permaneceu valorizada e o patamar de preço incomodou bastante o bolso do consumidor, apesar da preferência nacional pela carne bovina.

O alto custo da nutrição para os regimes de confinamento e recria/engorda e a dificuldade da reposição por causa do preço do bezerro frustraram as expectativas da indústria de alimentação animal, apesar de o câmbio bem mais competitivo ter dinamizado as exportações, que avançaram 12% no primeiro semestre.

“É pertinente enfatizar, contudo, que a apertada margem dos frigoríficos continua pressionada pela dificuldade do repasse ao varejo por causa do minguado escoamento interno. A sustentação do preço da arroba, o alívio no preço da reposição e a recente abertura do mercado americano para a carne in natura brasileira parece não ser suficientes para reverter o retrocesso na demanda por rações/concentrados durante 2016”, observa Zani.

GADO LEITEIRO
Mesma situação foi identificada pela entidade sobre o rebanho leiteiro, uma vez que durante o primeiro semestre, os laticínios encontraram grande dificuldade na captação da matéria-prima e enfrentaram forte concorrência, justificada pela oferta bastante enxuta de leite cru, desestimulada, principalmente, por causa do alto custo dos fertilizantes, dos combustíveis e do milho e da soja utilizados na alimentação das vacas em lactação.

Apesar dos preços recordes pagos pelo leite ao produtor, a demanda por rações continuou inibida, muito embora a retomada da rentabilidade passou a favorecer a reintrodução da tecnologia e mitigar o marasmo na demanda por rações/concentrados no segundo semestre.

UM ALÍVIO
Nem todos os caminhos foram tortuosos para o mercado de alimentação bovina, em 2016 porque a produção de sal mineral, que já tinha ido bem em 2015, avançando 2,5%, segundo previsão do Sindirações registrou no último trimestre um crescimento de 10%. Para Zani, tal fato ocorre por causa da maior demanda pelos produtos de alto consumo (proteicos-energéticos) e aumento do rebanho, em decorrência da retenção de matrizes nos últimos três anos.

Nunca é demais reforçar que a suplementação mineral apresenta grande potencial para o aumento da produtividade de animais criados exclusivamente a pasto. Dentre os minerais necessários, o fósforo apresenta-se como o nutriente muito importante, não só pela sua relevância no metabolismo animal como também pelo alto custo que representa no valor final do suplemento.

Além disso, a grande maioria dos solos e das pastagens brasileiras é pobre em fósforo, evidenciando a necessidade de suplementação desse mineral. Os processos de degradação de pastagens aumentam a deficiência de fósforo dos bovinos criados sobre essas condições.

Outros itens da alimentação do gado também registraram uma demanda expressiva, como a ureia, e nem tanto no caso do fosfato bicálcico. Já os farelos, subprodutos e milho provavelmente alcançaram maior adição nos suplementos, mesmo diante do retrocesso no regime de confinamento. Os aditivos zootécnicos do tipo anticoccidianos também aqueceram o mercado consumidor durante o ano.

PREVISÕES
Em 2017, o prognóstico do Sindirações será de maior oferta de animais para terminação, arrefecendo assim os preços da arroba e do bezerro. A recuperação da capacidade de compra do consumidor será crucial, tanto para a carne bovina como para o leite,, uma vez que, nesse último trimestre/2016, a oferta dos produtos já aumentou, muito embora a demanda continue retraída.

Mas, apenas esse fator citado acima, possivelmente, não aquecerá plenamente o setor, pois é necessário levar em consideração a taxa de desemprego de 12%, de acordo com dados do IBGE, até o momento, que assola o Brasil, fazendo com que o produtor não consiga repassar para o consumidor final os custos de produção. Ou seja, horizonte incerto assombra a bovinocultura nacional e a economia, portanto, é imprescindível que o pecuarista faça contas, estude o mercado minuciosamente para não sair no prejuízo.