Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mundo novo
Como vencer na pecuária competitiva

Francisco Vila
é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira prismapec@gmail.com

A cabamos de entrar na chamada 4ª onda de evolução da civilização humana. Após as revoluções agrícola, industrial e da era da informática, o mundo mergulhou em uma fase de total reorientação dos valores (cultura) e consequentemente das estruturas (instituições) e dos processos (multifuncionalidade). No horizonte político, o período de transição no Brasil, os sinais de desestruturação do bloco Europeu (Brexit) e a manifestação da força do populismo na mais importante democracia do planeta surgem forças novas que, antes de oferecer caminhos alternativos, questionam tudo ao que estamos acostumados em nossas vidas cívicas, familiares e profissionais. Os especialistas chamam esse fenômeno de “destruição criativa”. Porém, o resultado concreto é que uns ganham e muitos perdem com a mudança de paradigmas. Vamos avaliar o que precisamos fazer para manter nossa atividade no campo dos vencedores.

Se tudo muda, e ainda ao mesmo tempo, dificilmente nosso negócio bovino escapará de uma reformulação profunda. Na pecuária, estamos acostumados a pensar no ciclo de boi. Do tradicional ciclo de 7 já passamos para 5 anos e muitos até defendem que, com as novas opções de especialização, o pensamento em ciclos já não se aplica. Seja como for, vamos pensar para nosso exercício de planejamento em um ciclo de hoje até as eleições decisivas sobre o destino do Brasil que ocorrerão em 2022. O que precisamos fazer para repensar e, a seguir, reestruturar os principais alicerces do nosso negócio? Para exercer o chamado planejamento multifuncional 360º da propriedade é preciso desenvolver uma visão do futuro em torno de 2 eixos. O primeiro, o eixo vertical, é construído através de um voo de helicóptero com um zoom que começa no ambiente global das tendências políticas nas maiores economias, uma avaliação de suas consequências para os padrões de consumo e as práticas do comércio internacional. Sendo o Brasil um dos principais atores no mercado mundial de alimentos, esse diagnóstico proporciona o referencial de cenários para nosso planejamento. A seguir, o foco vai para as megatendências no Brasil, com descrição das principais forças de mudança nas políticas públicas, na evolução das instituições democráticas e no comportamento dos atores da economia, sejam eles empresas, sindicatos dos trabalhadores ou entidades de classe. No próximo passo, daremos um olhar crítico ao potencial competitivo da nossa região para finalmente pousar com nosso vôo de reconhecimento na sede de nossa propriedade. Esse zoom do mais abstrato para a realidade concreta é indispensável para, na sequência, construir nosso modelo de negócio na direção oposta, ou seja, da fazenda para o mundo.

O segundo eixo foca na avaliação horizontal que descreve os principais componentes da cadeia da carne com influências mais ou menos diretas para as potencialidades e limitações da nossa situação específica dentro da porteira. Aqui entram componentes de planejamento como os efeitos diretos e indiretos da 4ª revolução industrial que integra bio, nano e tecnologia de informação de uma forma inédita e com impactos em todos os elementos do nosso sistema de produção. Entra a evasão rural com consequências para novas fórmulas de gestão de pessoas. Entra o avanço de formas criativas do relacionamento entre fornecedores, produtores e frigoríficos através de pools de compras ou programas de fidelização. E, finalmente, entra a realidade de que os preços reais da carne chegaram ao limite do poder aquisitivo da maioria dos consumidores nacionais e do mundo.

Identificadas as principais forças de mudança nesses 2 eixos começa o planejamento de adaptação do nosso atual modelo de negócio às exigências da pecuária competitiva do futuro. O que sabemos é que a produção de carne irá expandir em cerca de 3% ao ano. Porém, esse crescimento coincide com a diminuição do número de pecuaristas, a diminuição do uso de pasto por animal e a ampliação de sistemas integrados de lavoura e pecuária. Tudo isso em um ambiente de maior transparência através do CAR, de informações detalhadas via satélite e de uma maior presença virtual da receita federal em nossas transações de compra e venda.

Se essas são as perspectivas de modernização da bovinocultura, como avançar para assegurar um posicionamento competitivo no setor e na região?

A transformação de “pecuarista” para “empresário rural” exige a realização das seguintes etapas: Primeiro, escrever as principais características dos eixos horizontal e vertical em um documento-base que pode ser discutido com os membros da família, consultores e os nossos parceiros fora da porteira. A seguir, chamar um filho ou sobrinho com talento para traduzir palavras em desenhos para criar um mapa da modernização da nossa propriedade. Ao ter uma visão clara das tendências, reformulamos nosso organograma, desenhamos o fluxograma das mudanças e investimentos necessários, preparamos o cronograma de implementação para, finalmente, preparar o orçamento plurianual para avaliar se teremos os meios próprios ou acesso e vontade para contrair financiamentos para o salto qualitativo da pecuária tradicional para a bovinocultura competitiva com os requisitos e certificados necessários para oferecer um produto que o mercado vai comprar. À primeira vista, tudo isso parece bastante complexo. No entanto, não há alternativa e muitas empresas rurais brasileiras já estão bem avançadas nesse novo modelo de negócio que antecipa os impactos do mundo contemporâneo que está surgindo no horizonte.