Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Na Varanda

A crise além da recessão

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

A história evolui em ciclos. Isso significa que períodos de prosperidade se alternam com anos de estresse. Entre os pontos de virada na linha do tempo ocorrem períodos de ruptura. Esse é o roteiro normal da novela da vida. No entanto, neste preciso momento estamos passando por uma situação mais complexa e profunda. A passagem de 2015 para 2016 nos dá a oportunidade, ou melhor, nos obriga a rever conceitos, cenários, estratégias e planos concretos para o próximo ciclo.

Estamos sim, em uma recessão da economia cuja recuperação, para chegar ao patamar de 2013, deve levar no mínimo cinco anos. Podemos classificar essa circunstância como “crise conjuntural”. Porém, além desse fenômeno bem estudado pelos economistas e com ampla disponibilidade de ferramentas comprovadas, temos dois outros desafios. Trata-se da “crise de identidade” e da “crise estrutural”.

A crise de identidade envolve a visão do cidadão sobre a sociedade e sua representação, que são os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). Teríamos muito a comentar sobre o renascimento de um novo Brasil. Porém, nossa reflexão deve focar no ambiente mais concreto dos desafios e da saída da crise estrutural da economia brasileira e, assim, por tabela, da nossa bovinocultura.

O modelo de negócio da bovinocultura é baseado em três pilares fundamentais. O potencial de demanda, o potencial da oferta e o potencial de transformar oportunidades em resultados concretos. A demanda por alimentos crescerá entre 2 e 4% ao ano. O mercado interno é grande, no entanto, atualmente, menos robusto, mas as perspectivas para a exportação poderão, em parte, substituir a diminuição do consumo nacional. Ou seja, a próxima década está garantida pelo lado da procura.

Do lado do potencial da oferta, repete-se o mesmo perfil positivo. A combinação de 200 milhões de hectares de pasto e 200 milhões de bovinos com o baixo índice de desfrute sugere que será possível produzir mais e melhor com os mesmos recursos de solo, sol e água. Aumentar a atual lotação média de 1 para 2 UA/ha não será difícil. Ou seja, existe o potencial para desenvolver o setor.

Resta, então, avaliar o potencial para transformar essas oportunidades de demanda e oferta em negócio. Aqui a resposta também é positiva. Todavia, o que é positivo para o segmento da bovinocultura em geral não representa garantia para todos que criam, engordam ou confinam boi. Afinal, são 1,2 milhão de pecuaristas de corte que fornecem os 40 milhões de animais abatidos anualmente.

Qual é o grande desafio para o produtor se manter em seu negócio? De um lado observamos exigências crescentes dos consumidores no que diz respeito a qualidade, regularidade de fornecimento, sanidade e preço de cortes muito bem definidos. Isso significa que a atuação dentro de Programas de Fidelidade torna-se cada vez mais um padrão necessário. Por outro lado, temos consciência de que, por enquanto, o campo tornou-se menos atrativo, seja para os filhos dos donos, seja para o funcionário rural em geral. Como vamos poder atender uma demanda cada vez mais sofisticada com cada vez menos gente? O uso de tecnologias avançadas de sistemas e processos, combinado com maior intensidade de máquinas, é a resposta óbvia e que já ocorreu nos principais países concorrentes.

É aí que surge a dúvida sobre a competitividade brasileira no mercado global. Se o aumento da produção e a sofisticação da qualidade da carne bovina dependem de pessoas e se o êxodo rural continuar drenando os talentos do campo, temos apenas a concentração em fazendas cada vez maiores como perspectiva de atender a demanda. O principal gargalo, no entanto, é a qualificação da mão de obra em todos os níveis de produção e gestão. No passado, boa vontade, criatividade e muito trabalho asseguraram o crescimento do setor. Daqui em diante será a incorporação contínua de novas tecnologias e práticas modernas de gestão que manterão o produtor no mercado.

De repente nós nos deparamos com as limitações do já referido potencial da oferta. Os números são claros. Na Europa, dois terços dos jovens que não cursam universidades possuem uma formação profissional sólida e com um diploma de especialidade. Nos Estados Unidos, são mais de 40% com essas características curriculares. E no Brasil? Conforme estatísticas oficiais, apenas 8,3% dos jovens entre 15 e 25 anos que não frequentam uma faculdade estão envolvidos em programas de formação do sistema S (em nosso caso, o Senar) ou outras escolas técnicas relevantes. Ou seja, de um lado, o setor precisa de mais profissionais com aptidões para executar processos cada vez mais complexos e, do outro, temos a migração do campo para a cidade e um número quase irrisório de trabalhadores com uma formação adequada para a pecuária moderna. Temos sol, pasto e água (e muita gente boa). O que precisamos são trabalhadores e técnicos capacitados e motivados. Esses nós não temos, e a isso se pode chamar o grande desafio da crise estrutural, além da atual recessão.