Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de Bovinos

 

ALTAS PODEM CONTINUAR

Paulo Araribe*

A pecuária de corte brasileira tem vivido dias de excitação quando analisamos os preços nominais da arroba do boi gordo e dos animais de reposição. Toda a cadeia vive um tempo nunca antes registrado, desde que os números começaram a ser tabulados. O ano de 2015, sem dúvida, ficará na história como o ano em que a positividade tomou conta de vez da maioria dos atores da cadeia.

Mesmo as plantas frigoríficas que, em tese, têm margens diminuídas em épocas de preço da arroba em alta, viram-se exportando cada vez mais e para vários mercados antes fechados ou não explorados. É o caso dos mercados norte-americano (carne com osso), chinês, russo e japonês. Já aqui, nas vendas domésticas, nunca se falou tanto em carne de qualidade e em como a indústria teria interesse de receber produtos melhorados como neste ano. Pipocam em todo o Brasil programas de bonificação de carcaças melhoradas, evidenciando que até mesmo o nosso consumidor final começou a ser mais exigente dentro de casa.

Dentro da análise da situação econômica que vivemos, é interessante observar que, principalmente no segundo semestre do ano, os indicadores que balizam os preços pecuários estão sinalizando tendências positivas. Cotação da moeda americana (US$), quantidade total de cabeças abatidas no Brasil, preço da soja e do milho e a relação entre abate de fêmeas e de machos estão em níveis favoráveis à manutenção dos preços de 2016, nos patamares em que se apresentaram em 2015.

Com relação à quantidade total de bovinos abatidos no Brasil, nota- se que o valor vem caindo desde o primeiro semestre de 2014, refletindo a pouca oferta de gado gordo nas pastagens brasileiras ano a ano. O gráfico a seguir demonstra bem isso, pois estamos voltando a patamares de cinco anos atrás, com 7,6 milhões de cabeças. Dentro desse contexto, projetamos um ano de 2016 tão pujante quanto foi o ano de 2015, na ótica do pecuarista, principalmente o invernista ou terminador. Baseado nesse índice, esperamos preços pecuários tão firmes como o atual ou até mesmo em alta novamente.

Junto com esse fenômeno da queda do número de cabeças abatidas aparece um outro bastante interessante que é o peso total de carne que estamos produzindo no ano. Aqui também vemos uma forte tendência de queda, evidenciando que, apesar das tentativas de incentivo à produção de gado mais pesado e com carcaça melhorada, nosso produto continua aproximadamente com o mesmo padrão de 2010.

Esse fator abre ainda mais possibilidades, pois há também o mercado de carnes melhoradas para atingir, dentro e fora do Brasil. Atualmente, o grande mercado de carnes brasileiras é o mercado asiático, que ainda não preza por carnes melhoradas e basicamente compra carne de dianteiro e cabeça. Certamente, esses mercados se aprimorarão no futuro, exigindo de nós uma carcaça melhor e em grande quantidade.

Corroborando os felizes índices de 2015, pensando em preços pecuários nos próximos anos, é necessário tomar ciência do mais impactante índice em toda a cadeia pecuária: a porcentagem do abate de fêmeas em relação ao total. Esse é o termômetro de maior precisão quando o assunto é a projeção de preços pecuários, pois ele regulará a oferta de boi gordo no curto e no médio prazos.

Lembramos que o bezerro que seria gerado pelas fêmeas que foram abatidas seria o boi gordo daqui a, pelo menos, 18/24 meses adiante. Assim, apesar de esse índice demonstrar queda entre o primeiro e o segundo trimestres de 2015, ainda permanece em alta, principalmente se compararmos com os números de 2010 (42% contra 36% - alta de quase 20%). Assim, continuamos com perspectiva bastante positiva de que os preços de bezerro e boi gordo tenham forte pressão de alta no futuro.

Daqui podemos extrair também a seguinte interpretação: como a pecuária brasileira melhorou seus desempenhos produtivos como um todo, as fêmeas que estão indo ao abate são cada vez mais novas. Esse fato é incrementado pelos programas de bonificação de carcaça e carne de qualidade, nos quais a fêmea jovem possui muitas vezes precificação de macho e pode ser abatida com peso muito menor, ciclando mais rápido os recursos financeiros dentro da fazenda. Portanto, temos de considerar que nesse índice de abate de fêmeas não estamos mais nos referindo apenas a matrizes de descartes, que, muitas vezes, nem estavam mais contribuindo para a produção anual de bezerros. Esse índice é, cada vez mais, encorpado de fêmeas que nem chegam à idade reprodutiva, melhorando a perspectiva de pouca oferta de bezerros no curto prazo e de bois gordos no médio.

Assim, se a porcentagem de abate de fêmeas sobre o total se mantiver acima dos 40%, teremos, para 2016 e 2017, o mesmo efeito no preço do boi gordo que a alta porcentagem de 2013 provocou nos preços pecuários de 2014 e 2015. No próximo gráfico evidencia-se esse efeito.

Obviamente que a análise de fatores econômicos, políticos e sociais que o Brasil apresenta na atualidade pode mudar todo esse cenário apresentado, da positividade no negócio carne. Porém, esse setor agropecuário tem grande peso na balança comercial e possui força suficiente para atravessar a crise econômica mundial, como já fez no passado.

Basta, para tanto, o pecuarista estar preparado para diluir custos em um maior porte e gerenciar investimentos para se estruturar para maiores produtividades. Lembramos que a pecuária brasileira somente mudará a rentabilidade média através da intensificação tecnológica, ficando, assim, cada vez menos dependente do preço nominal da arroba e dos percalços do mercado.

*Paulo Araripe é engenheiro-agrônomo e consultor da Boviplan