Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Touros

 

Para o alto e avante

Fatores mercadológicos impactam positivamente os leilões de touros, que viram a média de preço saltar aos olhos

Roberto Nunes

O mercado brasileiro de leilões comportou- se de maneira muito positiva ao longo de 2015 e mostrou-se comprador em todos os períodos do ano. Essa é a avaliação de cinco renomadas leiloeiras, cujas receitas movimentadas saltaram em relação ao exercício anterior.

No caso da Central Leilões, por exemplo, a média dos animais comercializados registrou alta de 26% em 2015, passando de R$ 7,3 mil para R$ 9,2 mil. A empresa vendeu até o momento 14 mil touros para 23 estados (dois mil a mais do que em 2014) e estima que essa lista avance para 14,5 mil animais até o fim de dezembro, de acordo com Lourenço Campo, proprietário da leiloeira.

A mesma média por animal também foi alcançada pela Estância Bahia Leilões, presidida por Maurício Tonhá, que até aqui já comercializou cerca de 10 mil cabeças. Segundo o leiloeiro, o principal fator por trás dessa valorização foi a alta no preço dos bezerros, que passou de R$ 700 no início do ano passado para R$ 1,3 mil no início do ano. “Esse salto proporcionou melhorias nas condições financeiras dos criadores e, juntamente com as expectativas positivas em torno da pecuária, refletiram nos arremates mais altos”, avalia Tonhá. “Em geral, este foi um bom ano para o mercado de reprodutores, especialmente para aqueles que possuem boas avaliações.”

Bons resultados também por parte da Parceria Leilões, de Fábio Crespo. Por lá, os dois mil touros vendidos em 2015 tiveram uma variação de preços entre R$ 8 mil e R$ 12 mil, o que corresponde a um acréscimo de 20% na média registrada no ano anterior. Já na Programa Leilões, a média foi R$ 10 mil, alta de 31% sobre o período anterior. De acordo com o proprietário Paulo Horto, alguns remates bateram recorde de receita gerada, como o Leilão Mega Touros Matinha, realizado em agosto, que obteve um crescimento de 70% na média dos animais, e o Leilão Nelore Mocho CV, realizado em julho, que apresentou crescimento de 36% na média dos reprodutores. A Programa já vendeu neste ano 38 mil touros - três mil a mais do que em 2014.

“Fatores como a alta do dólar, a abertura de novos mercados para a carne brasileira e, especialmente, a alta da arroba do boi influenciaram positivamente o mercado de leilões neste ano”, avalia Horto. “A arroba do boi teve um grande peso nessa dinâmica, pois entre os primeiros dias de 2014 e o final de 2015, o aumento médio da arroba foi de 30%, passando de R$ 114 para R$ 148. Além desses quesitos, vale destacar também a entrada de novos criadores no mercado de corte, motivados pelo bom momento vivenciado pela pecuária.”

A lista de fatores atribuída ao crescimento do mercado de leilões não para por aí. O leiloeiro Marcelo Silva, da Trajano Silva, destaca a busca dos criadores por melhorias genéticas como um dos pontos que fizeram a maior diferença na hora dos arremates. “O que influenciou bastante este ano foi a qualidade genética exibida pelos animais. A busca por carne Premium no Brasil e no mundo está crescendo e os pecuaristas estão cientes dessa demanda e dedicados em bem atendê-la, utilizando, para isso, animais de melhor qualidade em seus rebanhos. Observamos, portanto, maior evidência em raças como a Angus e Hereford e as sintéticas Brangus e Braford”, avalia Silva.

Em 2015, a Trajano Silva realizou 17 leilões de genética bovina e comercializou quase seis mil animais, resultado que supera em 20% a quantidade vendida no ano passado. De acordo com Silva, a média geral dos machos foi de R$ 14 mil e das fêmeas, chegou a R$ 6 mil, com respectivas valorizações de 28% e 31% nos preços médios. “Neste ano, vendemos animais para 14 estados e, pela primeira vez, vendemos para criadores de Tocantins, Bahia, Pernambuco e Pará”, revela o leiloeiro.

AVALIAÇÃO GENÉTICA

Quando o assunto é genética, há um consenso entre os leiloeiros consultados pela Revista AG de que os testes de progênie estão impactando o preço dos touros. Conforme aponta Marcelo Silva, os criadores que trabalham com genética avaliada estão obtendo uma valorização em torno de 20% na comercialização dos touros, uma vez que esses trazem grande potencial de alavancar a produção de carne nas fazendas. Em complemento a esse dado, Fábio Crespo destaca que 90% dos estabelecimentos já estão vendendo touros melhorados.

“Avaliação genética é um item obrigatório para a venda de reprodutores. Hoje, praticamente todo catálogo de leilão leilão já vem com a régua de DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) dos touros à venda”, lembra Lourenço Campo. “Está havendo um forte movimento de criadores de elite que estão acasalando matrizes com touros de altas DEPs, com vistas à produção de reprodutores”.

A cada dia o mercado tem procurado por animais diferenciados e com as avaliações genéticas ficou mais fácil identificar os animais melhoradores. Cada DEP avaliada destaca o que o touro tem de melhor e, com isso, os criadores têm direcionado melhor as aquisições. A consequência tem sido uma valorização muito maior dos animais geneticamente avaliados.

“O pecuarista que trabalha com o mercado de elite, em grande parte, também produz touros para o mercado e tem cada dia mais se preocupado com a avaliação dos animais ofertados”, reconhece Paulo Horto. “Os assessores técnicos têm direcionado os acasalamentos das matrizes para que os produtos nascidos tenham avaliação genética positiva. A eles, o grande desafio da atualidade é garantir uma avaliação genética positiva com caracterização racial, beleza, aprumos corretos e funcionalidade.”

PERSPECTIVAS

Apesar das incertezas econômicas vivenciadas por muitos setores, a pecuária brasileira tem pela frente boas oportunidades para crescer, o que tende a refletir positivamente no mercado de leilões. Os produtores, logicamente, precisam fazer a sua parte para usufruir desse momento, apostando, principalmente, na qualidade do plantel.

“A demanda internacional por carne está satisfatória e vários mercados estão se abrindo ao produto brasileiro. Além disso, o nosso estoque interno continua baixo. Portanto, se em 2016 o preço do boi se mantiver nos patamares atuais, é provável que tenhamos um ano muito positivo para a venda de touros”, acredita Lourenço Campo.

Na visão dos leiloeiros, o mercado de leilões tende a registrar crescimento no próximo ano. Na Estância Bahia Leilões, por exemplo, a expectativa é superar em 20% o faturamento obtido em 2015. Uma das apostas da companhia em 2016, conforme revela Maurício Tonhá, será expandir a atuação para novas praças, como Roraima, Acre e Pará.

Paulo Horto também prevê anos vindouros. “Com a valorização da arroba do boi, muitos fazendeiros que haviam arrendado terras para outras atividades voltaram a criar gado e, em pouco tempo, estarão ofertando animais novamente. O grande desafio, no entanto, será produzir, em grande escala, reprodutores de qualidade super ior e conscientizar os criadores de que o famoso “boi de boiada” traz atraso genético e financeiro às propriedades.

Fazendas em que os touros utilizados são animais registrados e avaliados geram ganho financeiro no abate e na reposição de matrizes”, esclarece o leiloeiro.

Os mercados interno e externo estão ficando mais exigentes, afinal, todos querem consumir um produto de qualidade. A chave para a pecuária brasileira se manter forte e competitiva é investir no melhoramento genético, na reprodução e na profissionalização de todo o sistema de produção.

COMPRA CERTEIRA

Do lado do produtor, comprar um touro é uma tarefa que exige bastante atenção e planejamento. Afinal, todo investimento deve trazer retorno à propriedade. Essa empreitada, portanto, passa por fundamentos técnicos e de estratégias de negócios.

Com relação ao primeiro quesito, é sempre válido lembrar a importância de observar pontos como peso, perímetro escrotal e avaliações genéticas. Outro atributo bastante procurado pelos pecuaristas é a precocidade do animal. “Machos mais precoces engordam e terminam antes da média, ou seja, antecipam o retorno financeiro aos pecuaristas”, avalia Paulo Horto. “Já no caso das fêmeas, as sexualmente precoces emprenham mais cedo e têm a vida reprodutiva adiantada”, complementa o proprietário da Programa Leilões.

No que compete à estratégia de negócios, os especialistas consultados são unânimes: para o criador comprar um bom touro, é preciso que ele conheça muito bem o plantel de origem e defina os objetivos que deseja atingir. “Quem conhece o próprio gado sabe o touro que precisa comprar para completar ou corrigir qualquer deficiência”, explica Horto.

“Escolher um touro que se encaixe bem ao sistema de seleção planejado é o grande desafio do pecuarista, adiciona Campo, da Central Leilões. “Se, por exemplo, o pecuarista tem a intenção de fazer cruzamento industrial, vale checar se a raça escolhida tem boa adaptabilidade ao clima e à pastagem da sua propriedade”, finaliza o leiloeiro. “Já se o foco é vender bezerros na desmama, o ideal é comprar reprodutores com características genéticas que proporcionem bezerrada pesada nessa fase”, complementa Maurício Tonhá. Lembrando também a importância de que atinja bons índices zootécnicos até o abate.