Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Bezerro

 

Análises e perspectivas

Ollavo Queiroz Tinoco e Paulo Araripe*

Um dos fenômenos mais recorrentes do mercado pecuário nacional e internacional é o ciclo de preços. O entendimento de suas causas é extremamente importante para visualizarmos o comportamento do mercado e ainda criar projeções futuras sobre a atividade pecuária. O mercado de bezerros, assim como o de carne e matrizes, também é influenciado por esse ciclo, com uma diferença: o impacto do preço do bezerro na cadeia pecuária é muito forte.

Seria muito mais fácil se apenas a lei da oferta e da demanda ditasse as regras do jogo, porém, esse processo é muito mais complexo e ainda envolve outras variáveis que não só apenas o boi (carne) em si. Esse ciclo foi contabilizado no Brasil no final da década de 1970 e fatores como os índices zootécnicos da atividade, o comportamento climático dos maiores centros produtores, a economia nacional e a dupla aptidão das fêmeas (gerar bezerros e produzir carne) podem controlar o comportamento, encurtando ou alongando o ciclo.

De maneira resumida, em época de baixa de preços da arroba de boi gordo, os produtores tendem a aumentar o abate de matrizes na tentativa de amenizar prejuízos e aumentar as receitas. Dentro desse contexto, em um primeiro momento, a tendência dos preços é cair ainda mais, em virtude do maior volume de abate de animais. Passado esse período, como o número de matrizes diminuiu, a quantidade de bezerros produzida também irá cair, levando-nos ao aumento do preço dos bezerros na próxima safra e, no futuro, da arroba do boi gordo. Assim, nesse novo cenário, aumentam-se as chances de retenção de matrizes, o que, no futuro, nos levará a uma maior disponibilidade de animais para abate.

Esse comportamento é apenas registrado em longos períodos. Centros de pesquisa observaram que esse atual ciclo iniciou-se em 2006 e o anterior, em 1996, tendo uma duração total de 10 anos.

No caso dos bezerros de corte, existem diversas variáveis que podem influenciar no preço nominal e na disponibilidade de animais nesse mercado, variando a duração do ciclo de preços do produto.

Mesmo que no Brasil exista uma concentração da disponibilidade de bezerros desmamados na metade final do primeiro semestre do ano, muitos produtores não tiram vantagem dessa oportunidade (maior oferta e preço menor), uma vez que sua infraestrutura não lhes permite absorver um maior número de animais, pois é coincidente com o início do período em que as pastagens cessam seu crescimento, a seca.

Gráfico 1 - Série histórica do preço do bezerro de corte

No Gráfico 1 é possível verificar o comportamento do preço do bezerro nos últimos 10 anos, de acordo com o IEA (Instituto de Economia Agrícola), para a praça do estado de São Paulo. O comportamento de safra e entressafra da produção de bezerros é evidenciado na análise visual da curva de preços do gráfico.

A primeira observação interessante é que realmente os piores preços estão no ano de 2006, confirmando o início deste ciclo, contando que eles são separados por seus fundos, ou seja, as piores situações. A segunda observação é que, de modo geral, o preço do bezerro apresenta uma ascensão continua e real, uma vez que esses valores estão indexados para os dias de hoje.

Outro fator primordial que contribui para a variação do preço do bezerro é a variação do volume de abate de fêmeas (vacas e novilhas em recria/engorda). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE), existe uma maior concentração do abate de fêmeas no primeiro semestre, principalmente pelo descarte de matrizes improdutivas. Apenas em 2014, o abate de fêmeas não aumentou no primeiro trimestre do ano em relação aos anos anteriores, que vinham em uma tendência crescente. No segundo semestre, a queda na proporção deve-se, principalmente, ao fato do abate dos confinamentos, aumentando o número de machos abatidos. Mesmo com essa redução no início de 2014 e a retenção de matrizes no segundo semestre, há um maior equilíbrio na proporção entre o abate de machos e de fêmeas.

Assim, de cinco anos para cá, o abate proporcional de fêmeas vem aumentando substancialmente, quase 10 pontos percentuais. Outro dado interessante e que subsidia a tendência de aumento do preço do bezerro é o da relação de troca entre o boi gordo e o bezerro, ou seja, quantos bezerros é possível adquirir com a venda de um boi gordo.

Ao observarmos que nos últimos 20 anos a relação de troca apresentou brutal queda, saindo de 3,5 em agosto de 1996 para próximo de 2,0 nos dias atuais, algo próximo de 45%. Isso demonstra, além da alta do valor deflacionado no período, que o bezerro valorizou-se em relação ao boi gordo, pois o custo de produção não acompanhou sua valorização; e assim, viabilizou a cria em muitas regiões do País. Outro dado que deve ser considerado, ao verificarmos a linha de tendência linear, é a queda constante da relação de troca, mostrando que mesmo com os atuais bons preços do bezerro, as margens de lucro estão estreitando sobremaneira para o invernista, que está na ponta da cadeia e é o maior cliente dos criadores.

Especialistas dizem que o ponto alto do ciclo está próximo; ideia corroborada pelos picos nos preços da arroba há muito tempo não visualizados. Entre o ano passado e este ano o preço do bezerro somente aumentou e dá indícios de que pode continuar assim para o começo de 2015.

Neste momento em que se inicia um novo período de estação de monta, devemos considerar que o produto gerado nesta safra 2014/2015 só estará disponível para comercialização ao final do primeiro semestre de 2016, época em que a tendência pode ser outra. Com a confirmação do período de duração do ciclo pecuário (10 anos), teremos a inversão da tendência dos preços pecuários a partir do segundo semestre de 2015! Dentro desse contexto ainda temos que considerar a variação cambial do dólar (tendência de desvalorização do real) e o cenário político/ econômico brasileiro que começa no próximo ano em situação de instabilidade. Esses fatores têm grande influência no desempenho econômico da agropecuária brasileira, alterando, inclusive, o fluxo de exportação dos produtos cárneos.

Em qualquer situação, agora é a hora em que o pecuarista deve tentar atingir os melhores índices reprodutivos com as matrizes e programar como quer chegar para a desmama dessa safra, preparando-se para qualquer imprevisto, como a reversão da tendência. É aqui que o conhecimento técnico e econômico encontram-se, gerando dados, questionamentos, identificando problemas, embasando as estratégias produtivas e de comercialização para a realização de uma produção pecuária sustentável e lucrativa.

As tomadas de decisões comerciais e econômicas não devem ser baseadas em intuições e, sim, em dados concretos, considerando históricos e condições pré-existentes. De forma geral, essa é uma característica que diferencia o pecuarista moderno, produtivo e rentável daquele tradicional, que desenvolve pecuária retrógrada, degradante e de baixo rendimento financeiro.

*Ollavo Queiroz e Paulo Araripe são consultores da Boviplan Consultoria