Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Bezerro

 

Luz no fim do túnel

Rogério Goulart*

O preço da arroba do boi subiu para patamares acima de 100 reais. O mercado futuro coloca a curva de acima dos três dígitos até a safra de 2014. O momento atual é um entroncamento importante no ciclo pecuário atual. Ao mesmo tempo em que o abate de fêmeas se mostrou em alta em 2013, o bezerro dá sinais que entrou em nova fase de preços. Somando isso à baixa rentabilidade atual da cria, completamos, ou estamos próximos de completar (nesse aspecto de rentabilidade da cria), um ciclo que voltou ao seu início, em 2006.

O QUE É O CICLO PECUÁRIO?

A definição mais apreciada é a do professor James Mintert, da Universidade do Kansas: "A história do negócio de gado tem sido uma de ciclos de produtores de bezerro ampliando estoques em resposta aos lucros e, em última análise, a contração do tamanho do seu rebanho em resposta às perdas. Enquanto na história não há dois ciclos exatamente iguais, há um número de padrões repetitivos que ocorrem em ciclos que podem ser usados para julgar onde estamos e para onde estamos caminhando dentro de um determinado ciclo de gado".

Inspirado nessa colocação, o ciclo pecuário é visto de forma mais clara acompanhando o abate de fêmeas. É o que significa o termo "ampliando estoques", na colocação do professor Minter. As consequências diretas do abate de fêmeas são a oscilação do preço do bezerro e, posteriormente, a variação do preço do boi gordo.

Mas qual a razão disso? Simples. Quem define o preço da arroba do boi é a vaca. A disponibilidade de fêmeas gordas em dado momento é a principal força que exerce pressão sobre o preço dos machos. Quando falta fêmea, o preço do macho tende a se aquecer. Quando há fêmea em excesso, os preços "deles" esfriam.

Sendo assim, a pecuária se sustenta sobre quatro pilares:

1. Bezerro caro/barato;
2. Retenção/abate de fêmeas;
3. Arroba esfria/aquece;
4. Aumento/diminuição na produção de bezerros.

O trabalho é tentar identificar cada uma dessas etapas e ver onde a pecuária atual se encontra. Para elaboração deste artigo, dois dos pilares citados foram utilizados: o bezerro caro/barato e sobre o aumento/redução na produção de bezerros.

BEZERRO BARATO OU CARO?

A forma mais direta e objetiva para avaliar a situação atual do bezerro é estudar o resultado do negócio de cria. Na figura 1 é apresentado o exemplo de uma fazenda em Goiás.

A figura 2 mostra de forma simplificada a fotografia da venda de machos e fêmeas de forma separada, no mês de outubro de cada ano (em 2013 uso agosto). Temos preço de venda de cada animal, o seu provável custo de produção e o resultado, que é a subtração simples dos dois valores.

Sabendo que 2006 foi o ano da virada para o atual ciclo pecuário, olhemos o resultado da venda de bezerros a partir daí. Repara-se logo de início o prejuízo que dava a atividade nesse primeiro ano.

Atenção à operação da cria nos anos seguintes. O resultado por cabeça melhorou, com destaque para 2008 e 2011, os dois melhores momentos. Entre 2006 e 2012 foi muito interessante voltar a criar bezerros, baseando nesses dados.

Agora, repare o que aconteceu em 2012 e está acontecendo agora, em 2013. O bezerro está gradativamente deixando de ser rentável. Do ano passado para cá, a atividade de cria está trocando a cebola de lugar.

Então, podemos enxergar o seguinte: em algum momento entre 2006 e 2012, o bezerro estava "caro". No presente momento, não mais. O bezerro está "barato". Ressalta-se aqui, novamente, que é barato no sentido de resultado por cabeça, por sua lucratividade estar baixa.

AUMENTO OU REDUÇÃO?

Durante a fase de reconhecimento de que o bezerro está barato e o abate de fêmeas volta a aumentar, um processo vai acontecendo às escondidas. Essa situação é a noção de que não são somente as fêmeas que vão para abate. O que vai para o gancho é todo o seu potencial reprodutivo. Uma vaca abatida faz falta.

A pecuária fica dependendo das demais fêmeas que ficaram no pasto. Acontece que existe uma demanda crescente por carne no País e no mundo. Apesar de o consumo per capita ter se estabilizado (ou até mesmo caído em regiões mais desenvolvidas e/ou envelhecimento do mercado consumidor), um maior número de pessoas estão tendo acesso à carne bovina pelo aumento do poder aquisitivo, especialmente na Ásia, região não tradicional para a proteína.

O abate deve, obrigatoriamente, crescer e, somente no Brasil, serão 400 mil cabeças nos próximos anos, apenas para manter a oferta de carne bovina no supermercado e abastecer as exportações. Então, quando se abate fêmeas e esse é acima de 10% ano a ano, no seu devido tempo, vai se gerar a falta de bezerros. Significa que a diminuição de vacas em processo reprodutivo gera uma consequência não imediata, mas, depois de alguns anos, a falta de bezerros começa a ser sentida. E estamos passando por um período interessante em 2013, nesse sentido.

Observe na figura 1 a barreira dos 800 reais do bezerro, que resistiu desde 2008 e acabou de ser rompida nesse segundo semestre de 2013. A quebra demorou alguns anos para ocorrer, mas é natural: está em linha com o tempo que tomou o rompimento anterior, dos 400 reais. Este processo ocorreu em 2007, um ano depois da virada no ciclo pecuário.

Na pecuária, aumento de preço sempre é um desequilíbrio entre oferta e demanda. A alta do bezerro e o rompimento dos 800 reais são sinais de que algo está diferente no mercado. E o que está diferente aqui é que o bezerro voltou a subir depois de anos com valores estáveis.

Um bezerro em alta, no seu tempo, altera a rentabilidade da cria. O que estamos vendo, hoje, como bezerro barato, eventualmente se tornará caro, no sentido de que o criador verá novamente a cor do dinheiro com a venda dos animais.

É o sinal mencionado no início do texto. Estamos passando por um entroncamento importante no ciclo pecuário atual. Obviamente, como dito, essas coisas tomam muito tempo, mas não há regra que obrigue um ciclo pecuário a durar cinco, seis, oito ou dez anos.

PERSPECTIVAS

Há uma luz no fim do túnel? Parece que sim. Em função disso, espera-se que investimentos em aumento de capacidade de suporte sejam pautados. Como esses investimentos demoram alguns anos para serem feitos, o momento se torna propício. Da mesma forma, o setor de cria parece que vê razão para otimismo. Investimentos em bezerros também devem ser levados em consideração para aproveitar a onda renovada de alta. Essa é a primeira vez, nos últimos dois anos, que se volta a recomendar investimentos no sistema.

*Rogério é editor da Carta Pecuária www.cartapecuaria.com.br