Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Corte

 

A carne bovina em 2013

Fazendo uma retrospectiva geral do ano de 2013, verificamos que o mercado da carne bovina foi atingido por muitas variáveis. Dentre elas podemos citar os embargos, as restrições, as oscilações de preços da arroba, as mudanças climáticas, a variação cambial e os escândalos que afetaram a confiança no produto. Muitos desses fatores certamente comprometeram o desempenho do mercado brasileiro. Em janeiro a Europa foi afetada pelo escândalo que envolveu a presença de carne de cavalo em produtos que deveriam conter apenas carne bovina. Tal escândalo gerou um impacto negativo para o setor, reduzindo o consumo de carne vermelha e impactando negativamente nas exportações do produto brasileiro. Felizmente, a carne no Brasil é produzida dentro dos padrões de qualidade e princípios de confiabilidade, seguindo as normas sanitárias necessárias. Atualmente, o Brasil ocupa o posto de maior exportador de carne bovina e um dos grandes produtores.

Mesmo diante de tamanho rigor, o País não ficou livre dos embargos ao seu produto. Países como China, Japão, África do Sul, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Taiwan, Jordânia, Líbano, Peru e Chile impuseram restrições à carne brasileira devido ao caso atípico descoberto no estado do Paraná em 2010, onde um animal foi detectado com agente causador da Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE), mais conhecido como mal da vaca louca. Felizmente, por se tratar de um caso isolado, a OIE (Organização Mundial de Saúde Animal), em comunicação oficial, manteve a classificação do Brasil como país de risco insignificante para a doença. Apesar da garantia do status sanitário brasileiro, até o momento apenas Egito, Chile e Peru abririam as portas para carne brasileira. Os demais países permanecem com o embargo.

Apesar de esses países representarem apenas 5% da participação nas exportações totais brasileiras, qualquer restrição é prejudicial, até mesmo porque o Brasil procura abrir novos mercados, em especial o da China, e, assim, aumentar as exportações tanto em volume quanto em faturamento.

Em setembro o Brasil sofreu restrições temporárias ao embarque da carne brasileira para o mercado russo. Foram nove frigoríficos impedidos de comercializar carne bovina. A União Aduaneira (UA), composta por Rússia, Belarus e Cazaquistão, é bastante criteriosa quanto à importação de produtos e usa as suas regras de comércio na hora de permitir a entrada desses produtos. A restrição imposta pela Rússia foi consequência do uso da substância ractopamina, que é utilizada com a finalidade de aumentar a massa muscular e fazer com que os animais cresçam com menos gordura; o problema é que o uso deste aditivo é proibido pela Federação Russa.

Atualmente, a Rússia é o terceiro maior importador da carne brasileira, sendo que de janeiro a outubro deste ano o acumulado foi de 266.075,18 t. Hong Kong segue como o principal importador, somando 301.388,49 t no mesmo período. Mas os russos permanecem preocupados com o uso da ractopamina e de antibióticos. O órgão de inspeção da Rússia deverá visitar o Brasil ainda este ano a fim de impor seus critérios à importação da carne brasileira. Serão cobradas análises para resíduos de ractopamina em todos os lotes enviados do Brasil para a Rússia a partir da missão. As exigências sanitárias e técnicas estão mais semelhantes às da UE.

O bloco da União Europeia também é muito criterioso e impõe muitas exigências aos produtos oriundos de outros países. A rastreabilidade individual dos animais é uma das exigências impostas pela UE, assim como a lista de propriedades habilitadas; portanto o Brasil, na busca por novos mercados, deverá atender a todas as exigências impostas por seus importadores. O País precisa provar a sua capacidade de cumprir todos os critérios exigidos.

Analisando o ano de 2013, as especulações foram muitas e o mercado oscilou bastante. Este ano tivemos geadas em algumas regiões do País, como no sul e no sudeste do Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, que comprometeram as condições das pastagens, levando a um adiantamento da oferta de bois no mercado. A variação cambial também foi um dos fatores que interferiu no preço da arroba. Mas, no geral, podemos dizer que a pecuária brasileira vive um bom momento, uma vez que a demanda por carne bovina é crescente e o País tem condições de suprir toda a necessidade.

Percebemos que a pecuária está avançando, tanto no aumento de produção como no investimento em melhoramento genético, adquirindo boas práticas agropecuárias e técnicas mais sustentáveis, como uso da ILP (Integração Lavoura Pecuária), por exemplo. Apesar dos desafios, os produtores vêm buscando eficiência e maiores ganhos na atividade.

Este ano alguns fatores determinaram o volume de animais em confinamento. Dentre esses fatores podemos citar o preço do boi magro, as chuvas e os preços dos grãos, mais precisamente milho e soja, que são componentes importantes na ração dos bovinos. Ainda é cedo para afirmarmos o total de animais confinados em todo o Brasil. De acordo com a pesquisa feita em julho pela ASSOCON (Associação Nacional dos Confinadores) junto aos seus associados, o número de animais confinados em 2013, até o período analisado na pesquisa, teve uma queda de 9% em relação a 2012.

Este ano os preços dos grãos melhoraram, mas isso aconteceu apenas no segundo semestre e muitos já haviam feito o seu planejamento para confinar. Outro ponto impactante foi o valor do boi magro, pois muitos confinadores não conseguiram comprar a um bom preço, resultando na diminuição do volume que pretendiam confinar. Em algumas regiões o confinamento começou tardio, devido às chuvas prolongadas que ocorreram, preservando a qualidade das pastagens e permitindo ao produtor segurar a boiada no pasto. Portanto, o produtor que trabalhou com planejamento, utilizando as ferramentas disponíveis, conseguiu comprar boi magro a bom preço e aproveitar a queda nos insumos, reduzindo os custos e obtendo bons frutos do confinamento.

A expectativa para ano de 2014 é que o volume de animais confinados possa ser maior, devido às condições melhores de preços do boi magro, pois há indícios que haverá maior oferta de animais para engorda.

Com relação à arroba do boi gordo no mundo, de janeiro a 18 de novembro de 2013, o valor médio da arroba se manteve em US$ 50,36, em todos os países normalmente analisados nesta coluna – Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos. Quanto ao período de 21/10 a 18/11/2013, a arroba oscilou na Argentina e na Austrália. Nos Estados Unidos, o valor médio da arroba ficou em US$ 74,42 e, no Brasil, US$ 48,53. Já na Argentina e na Austrália ficou em US$ 54,70 e US$ 44,03, respectivamente.

Observando o gráfico "Boi gordo no mundo", no período analisado entre 21/10 e 18/11/2013, houve desvalorização da arroba em quase todos os países, exceto na Austrália, cuja valorização foi de 1,73%. No Brasil tivemos uma desvalorização de 2,65%, consequência de variação cambial.

O Brasil vive um bom momento no mercado externo e as expectativas são muito boas. Em 2013 o Brasil bateu recorde nas exportações e conquistou a liderança como maior exportador de carne bovina do mundo. Como dissemos, Hong Kong aparece como principal importador da carne brasileira. Outro mercado potencial é o da China, que está com crescente demanda por carne vermelha. As principais motivações do crescimento da demanda chinesa por carnes vermelhas são o aumento da população, a melhora nas condições de vida, o aumento da renda e a mudança de costumes.

As autoridades brasileiras enviaram convite à AQSIQ (órgão chinês responsável pelas análises de riscos para importações) para virem ao Brasil avaliar as condições de reabertura do mercado. A visita dos chineses foi confirmada para o início de dezembro e o objetivo da missão, além de reabertura do mercado, será habilitar novas plantas.

De acordo com balanço feito pela Associação Nacional das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) em outubro, foram vendidas 147,8 mil toneladas de carne. O faturamento obtido com o comércio desse volume também foi histórico, de quase US$ 660 milhões. No acumulado do ano, as vendas brasileiras de carne somam US$ 5,44 bilhões, 12,5% mais do que em igual período do ano passado. O volume enviado ao mercado internacional, de 1,2 milhão de toneladas, é 18,8% maior do que o registrado em 2012.

No mercado interno a segunda quinzena do mês de outubro fechou com a demanda em baixa, como é típico deste período do mês. Apesar da oferta de animais ter permanecido restrita, o consumo não colaborou para um cenário positivo e as indústrias, por sua vez, fizeram pressão baixista para arroba. Já no início de novembro o mercado da carne bovina apresentou um cenário mais positivo e a demanda deu uma aquecida, impulsionada pela chegada do feriado de 15 de novembro e do pagamento de parte do décimo terceiro salário aos trabalhadores.

A oferta de animais terminados permanece restrita e as indústrias forçam Pecuaria de cortepara pagar preços menores, mas os pecuaristas resistem e esperam por ofertas melhores. Nos meses de outubro e novembro tivemos a saída de boa parte de animais confinados, mas com a volta do período chuvoso, o que permite a recuperação das pastagens, a expectativa é que haja oferta expressiva de animais engordados a pasto.

Como pode ser observado no gráfico "Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF", para o período analisado que compreendido entre os dias 21/10 e 18/11/2013, houve oscilação em todas as praças analisadas. Nos estados de SP e MT a arroba começou a ganhar força na primeira quinzena de novembro e se manteve estável. Já nos estados de GO e MT o preço da arroba teve queda e se estabilizou ainda na primeira quinzena de novembro. Em MG a arroba ganhou força no final da primeira quinzena de outubro e depois se estabilizou. No RS podemos observar picos de preços, mas na segunda quinzena de novembro teve uma ligeira queda.

Analisando o gráfico "Deságio do preço do boi gordo por UF", no período de 21/10 a 18/11/2013, a média paga aos pecuaristas entre o preço à vista e a prazo (30 dias) foi de 1,52% acima do valor observado no período anterior pesquisado, que foi de 0,63%. Para todos os nove estados analisados houve aumento dos valores médios pagos pela arroba.

O preço médio do bezerro foi de R$ 701,25/cab para o período de 21/10 a 18/11/2013, acréscimo de 39,74% se comparado ao período de 19/09 a 17/10/2013. Houve desvalorização do bezerro apenas no RS, que foi cotado a R$ 620,00/cab. Nos demais estados o bezerro se valorizou e passou a valer R$ 770,00/cab em SP, R$ 628,50/cab em MG, R$ 692,00/cab em GO, R$ 800,00/cab no MS, R$ 723,50/cab no MT, R$ 620,00/cab no PA e R$ 756,00/cab no estado do PR. Para quem investe em cria a valorização do bezerro estimula maior investimento na atividade, reduzindo então o abate de fêmeas.

O boi magro teve alta em sete das oito praças analisadas, sendo que no RS o preço do boi magro não sofreu alteração, permanecendo a R$ 1.150,00/cab. Já nos estados de SP, MG, GO, MS, MT, PA e PR o preço do boi magro subiu, chegando a R$ 1.300,00/cab, R$ 1.163,00/cab, R$ 1.222,00/cab, R$ 1.256,00/cab, R$ 1.194,00/cab, R$ 1.126,50/cab e R$ 1.260,000/cab, respectivamente.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 2,32 para desmama/boi gordo. Para boi magro/boi gordo ficou em 1,34, não sofrendo alterações. Ambos não sofreram alterações com relação ao período analisado na edição passada, que compreende de 19/09 a 17/10/2013.

O pecuarista está se readequando na atividade e o avanço da agricultura sobre as pastagens vem promovendo a migração da pecuária para agricultura. Este evento se deu em algumas regiões nas áreas de cria extensiva. Essa transformação vem ocorrendo há aproximadamente quatro anos, mas podemos dizer que se intensificou nos últimos dois anos. Em 2012 tivemos um maior abate de fêmeas, refletindo na redução do rebanho, pois as fêmeas abatidas deixaram de gerar animais. Atualmente, de acordo com dados da IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil conta com 211 milhões de cabeças de gado.

Tudo indica que o fechamento do ano de 2013 será positivo. O mercado interno deverá permanecer aquecido devido às festas de fim de ano e as exportações continuarão a render bons resultados. Para o ano de 2014 espera-se que o ciclo seja mais favorável para a pecuária e com a virada do ano a expectativa é de que os preços se mantenham firmes. O crescimento populacional e o aumento da renda são impulsionadores para a crescente demanda por carne bovina.

A pecuária ainda enfrenta muitos desafios, mas observamos os avanços frente a esses desafios, como a introdução da genética no rebanho, visando melhorar a qualidade dos animais. As novas tecnologias estão mais presentes no campo proporcionando resultados mais precisos, melhor desempenho e com menor tempo.

Outro ponto importante é a gestão, que é um dos principais caminhos para transformar a atividade em sucesso. Transformar a fazenda em uma empresa é um dos pontos-chave para obter resultados satisfatórios e ter rentabilidade. Uma boa gestão permite administrar corretamente os recursos disponíveis e lidar com os desafios diários. Portanto, é preciso ficar atento às práticas de gestão, saber a hora de comprar, investir, planejar, saber lidar com as variáveis do negócio. Implantar um modelo de gestão é de suma importância para uma atividade rentável e sustentável.

Rita Marquete
Boviplan Consultoria