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IATF,
Produtividade + Lucros

Pietro Sampaio Baruselli*, Manoel Francisco de Sá Filho*, Lais Mendes Vieira* e Márcio de Oliveira Marques**

Os programas de inseminação artificial em tempo fixo (IATF) atingiram estágio satisfatório de desenvolvimento. Tal tecnologia está disponível e vem sendo rotineiramente aplicada nas fazendas comerciais em todo o Brasil. Atualmente, a incorporação dos programas de IATF no sistema de produção de bovinos tem aumentado o desempenho produtivo e reprodutivo dos rebanhos.

Em relação aos aspectos comerciais, os programas de IATF permitem aos produtores alcançarem diferentes oportunidades de mercado. Torna possível utilizar a inseminação artificial (IA) em larga escala e programar a ocorrência dos partos para as melhores épocas do ano. Além disso, pode-se aumentar o número de bezerros oriundos de touros de alto mérito genético, promovendo o melhoramento e viabilizando a obtenção de animais híbridos (cruzamento industrial), que têm melhor desempenho produtivo e maior valor comercial. Por fim, com o uso da IATF em larga escala em rebanhos comerciais, a produção de bezerros pode se tornar mais consistente e previsível.

Durante os últimos anos, diversas estratégias de manejo reprodutivo foram desenvolvidas. Dentre tais tecnologias, destacam-se o uso de estação de monta apenas com monta natural (MN, somente uso de touros); a inseminação artificial convencional, ou seja, após observação de cio (OE); a IATF (seguida de repasse com touros ou de observação de estro e IA) e, mais recentemente, os programas de ressincronização para emprego de outra IATF nas vacas que não emprenharam. Essas ferramentas de manejo reprodutivo estão sendo incorporadas na rotina das fazendas comerciais visando melhorar a eficiência reprodutiva e produtiva dos rebanhos de corte.

IATF EM VACAS PARIDAS

No Brasil é comum o uso de estação de monta para bovinos de corte durante os meses de primavera e verão, devido à maior disponibilidade de forragem. Nessa condição, é imprescindível alcançar alta taxa de prenhez no início da EM para manter elevada a eficiência reprodutiva do rebanho. Vacas que se tornam gestantes mais cedo irão parir no início da próxima estação de parição e, consequentemente, terão mais tempo para se tornar gestantes, melhorando as chances para conceber novamente e reduzindo o risco de descarte. Além disso, os bezerros nascidos no início da estação de parição são os mais pesados ao desmame, gerando renda adicional ao produtor.

Para avaliar o impacto do uso da IATF no início da estação reprodutiva, um estudo foi desenvolvido pelo Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Comparou-se o desempenho de diferentes manejos reprodutivos (MN, IA após OE e IATF) em uma estação de monta de 90 dias. Foram utilizadas 594 vacas Nelore com bezerro ao pé que receberam quatro diferentes estratégias de manejo. As vacas do grupo IATF + MN (n = 150) foram sincronizadas para IATF. Nesse lote, os touros (1 touro para 30 vacas) foram colocados com as vacas 10 dias após a IATF e permaneceram juntos até o final da EM. As vacas do grupo IATF+OE+MN (n=148) foram submetidas à IATF, então, foram inseminadas após observação do estro por 45 dias e, em seguida, foram submetidas a MN (1 touro para 30 vacas) durante os últimos 45 dias da EM. As vacas do grupo OE+MN (n=147) foram inseminadas artificialmente após a detecção do estro (2x ao dia), durante os primeiros 45 dias da EM, e, depois, submetidas a MN (1 touro para 30 vacas), durante os últimos 45 dias da EM. As vacas do grupo MN (n=149) foram mantidas na presença de touros (MN; 1 touro para 30 vacas) durante todos os 90 dias da EM. As vacas do grupo OE+MN e MN apresentaram menor chance de prenhez do que as vacas dos grupos que foram submetidos à IATF no início da EM. Além disso, as vacas que receberam IATF apresentaram maior taxa de prenhez no final da EM do que as vacas que não receberam IATF (Figura 1).

Explicação Figura 1
1) IATF + MN: Vacas receberam uma inseminação artificial em tempo fixo (IATF) no dia 11 da EM seguido de monta natural (MN) até o final da EM; 2) IATF + OE + MN: Vacas receberam IATF no dia 11, observadas em cio duas vezes por dia e inseminadas 12h após a detecção de cio durante os primeiros 45 dias da EM, seguido de MN até o final da EM; 3) OE + MN: Vacas foram inseminadas após a detecção de cio durante os primeiros 45 dias da EM, seguido de MN até o final da EM; 4) MN: Vacas receberam somente MN durante toda a EM. [Penteado et al., Anais da Reunião da Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE) 2005]

Os resultados demonstram claramente o impacto positivo da IATF no desempenho reprodutivo de vacas de corte com bezerro ao pé. Também, ficou evidenciado que os programas de IA baseados na observação de estro apresentam falhas, principalmente ligadas à detecção de cio. Tais falhas determinam menor eficiência reprodutiva da inseminação convencional (menor taxa de serviço) quando comparada a programas de IATF em vacas com bezerro ao pé.

Apesar de todas as vantagens relacionadas ao uso de programas de IATF no início da estação de reprodutiva, a utilização de touros de repasse após a IATF pode não contemplar todos os objetivos específicos de algumas fazendas. Um dos entraves da utilização desse tipo de manejo reprodutivo (IATF seguido de MN) é a necessidade de elevado número de touros para a realização do primeiro repasse, visto que as fêmeas não gestantes retornam ao cio de maneira bastante sincronizada (19 a 23 dias após a IATF). Portanto, apesar do investimento para a realização da IATF e da obtenção de 50% das vacas gestantes, a técnica normalmente não permite redução da quantidade de touros nas fazendas (programas de IATF seguidos de MN empregam quantidades semelhantes de touros que programas de MN). Outro ponto importante é que, dependendo do objetivo da fazenda, 50% de bezerros oriundos de IA podem não atender a demanda comercial do sistema de produção.

Dessa forma, diversos programas têm utilizado a ressincronização das fêmeas não gestantes após a primeira IATF. Essa tecnologia consiste no diagnóstico precoce de vacas não gestantes pelo emprego da ultrassonografia (US), de 28 a 32 dias após a primeira IATF. No mesmo momento, as vacas vazias iniciam novamente o tratamento de sincronização para receberem a segunda IATF.

Esse tipo de manejo elimina a necessidade de observação de cio, reduz o número de touros necessários para o repasse e, principalmente, aumenta o número de produtos oriundos de IA que podem determinar maior valor agregado ao produtor.

Os primeiros resultados do uso da ressincronização em larga escala em vacas de corte criadas no Brasil Central apresentaram 56,1% de taxa de concepção à primeira IATF e 49,3% à segunda IATF (ressincronização), totalizando 77,8% de vacas prenhas com duas inseminações nos primeiros 40 dias de EM. Tais taxas podem apresentar alterações conforme a categoria das fêmeas inseminadas. Observa-se queda na taxa de prenhez à ressincronização (2ª IATF) de vacas primíparas/ secundíparas (53,1% e 34,9%; 1a IATF e ressincronização, respectivamente). Esse efeito não é evidente em vacas pluríparas (56,3% e 52,7%) e novilhas (58,4% e 52,6%), como pode ser observado na Figura 2. Portanto, os dados de campo indicam que, quando a ressincronização é utilizada corretamente e em condições propícias (nutrição, sanidade e manejo adequados), é possível obter aproximadamente 75% de taxa de prenhez, com duas IATF nos primeiros 40 dias de EM (incluindo todas as categorias animais), mantendo o intervalo entre partos do rebanho próximo a 12 meses (produção de 1 bezerro por matriz/ano). A citada figura 2 resulta da adaptação de um estudo de Márcio de Oliveira Marques (2012), que avaliou 9.717 fêmeas de corte inseminadas durante as EM de 2009/2010 e 2011/2012. Intervalo entre IATFs de 40 dias.

Outra possibilidade de manejo que pode ser empregada em algumas situações é a realização da 3ª IATF, utilizando também a técnica de ressincronização. Com esse programa reprodutivo é possível a obtenção de a p r o x ima d ame n t e 90% de taxa de prenhez por inseminação artificial, eliminando a necessidade de touros para repasse. Os dados da eficiência reprodutiva de uma propriedade que utilizou essa tecnologia encontramse na Figura 3.

Portanto, a utilização da IATF como ferramenta de manejo reprodutivo em gado corte aumenta a proporção de animais prenhes na primeira metade da EM, além de aumentar o número de bezerros oriundos de IA (indivíduos com elevado mérito genético). Dessa forma, a intensificação desse programa reprodutivo favorece o ganho de peso, o emprego do cruzamento industrial, a reposição de matrizes diferenciadas e a redução da quantidade de touros necessários para o repasse. Assim, a IATF viabiliza o emprego da inseminação artificial, agregando todos os benefícios relacionados à técnica. Além disso, os dados das pesquisas evidenciam melhora nos índices reprodutivos e produtivos e aumento na lucratividade da atividade de cria.

*Pietro, Lais e Manoel são do Departamento de Reprodução Animal da FMVZ/USP **Márcio é da Geraembryo (Londrina/PR)

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