Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Touros

 

Após recuo, valores podem se manter

O ano de 2012 mostrou um pecuarista pouco disposto a pagar mais pelos tourinhos, mas a oferta de qualidade nos pregões está em alta

Luiz H.Pitombo

Dentre três importantes leiloeiras consultadas – Programa, Central e Estância Bahia –, o volume de vendas de reprodutores para trabalho a campo deve fechar 2012 com total perto de 36 mil animais comercializados, ou 14% a mais que 2011. Mas, em termos de médias gerais, as estimativas mostram valores entre R$ 5 mil a R$ 5,9 mil, com quedas de 9% a 15%, a depender da leiloeira. Para o próximo ano, análises realizadas em novembro apontam para a possível estabilidade nos preços e algum crescimento das vendas em leilões.

Mais do que um aumento em si da atividade de cria e de uma pecuária estimulada em 2012, as maiores vendas de tourinhos nesses leilões refletem um esforço de ampliação desse mercado e a oferta de melhores condições atraindo novos compradores. As menores médias parecem refletir melhor o que aconteceu na pecuária como um todo, ou seja, um ano “morno”.

“Em conversas com fornecedores de insumos, temos percebido que o pecuarista não está investindo, tirou o pé do acelerador, e com o mercado de tourinhos deve estar ocorrendo o mesmo”, avalia o engenheiro- agrônomo José Vicente Ferraz, da consultoria Informa economics-FNP, de São Paulo/SP. No entanto, é um contrassenso, pois enfatiza que a rentabilidade média dos setores de engorda e reposição, por exemplo, está acima da média nos últimos 12 meses, findando em novembro. Se normalmente essa fica entre 3% e 4% sobre o capital investido, sem considerar o valor da terra, no período enfocado, calcula que atingiu 4,5%. “Este retorno para a atividade de pecuária de corte não é ruim”, salienta.

Mas, então, por que o pecuarista não está investindo com maior ímpeto? Ferraz, experiente analista do setor, aponta como elemento determinante o fato de a atividade perder espaço para a agricultura, que com preços em forte evolução traz retornos de 8,5% a 9%, o dobro da pecuária. Assim, diz que o produtor prefere arrendar a terra para a produção de grãos, comercializa áreas ou ele mesmo decide partir para o cultivo.

O analista comenta que pecuária de corte é bem heterogênea no País em termos de nível tecnológico e que, embora a demanda por reprodutores de qualidade cresça, existe uma base que precisa revolver problemas sérios, como o de alimentação do rebanho, para aí poder investir em uma genética mais evoluída.

Considerando o retorno econômico do produtor de tourinhos, numa avaliação ampla comenta que este mercado não é “commoditizado” como o do boi gordo e o da reposição e fica muito na dependência de cada produtor e da qualidade que tem para ofertar. Aqueles que possuem uma “grife”, como aponta, conseguem retorno apreciável, enquanto os menos conhecidos trabalham com margens apertadas. “Os custos dos dois são os mesmos, mas os valores de venda não”, explica.

Para 2013, Ferraz diz que não antevê fatores que possam trazer mudanças significativas para a pecuária de corte, refletindo no mercado de touros. Os patamares de preços da agricultura, como avalia, devem se manter elevados e convidativos, enquanto que os da pecuária não têm espaço para crescer, porque estima que ainda há estoque de gado a liquidar, impedindo no curto prazo uma crise na oferta.

OPORTUNIDADE DE BONS NEGÓCIOS

Até outubro, a Programa comercializou cerca de 17.200 tourinhos das raças de corte pela média geral de R$ 5.900. A previsão é de que até o fim do ano a média não se altere, com as vendas podendo atingir 18 mil animais. Isto significa uma quantidade 16% maior que a do ano anterior, porém, com média 15% menor. “Mas o valor não é ruim e equivale a cerca de oito bezerros”, pondera Carlos Nunes, coordenador da leiloeira.

Fugindo à regra estão raças taurinas como Angus Preta e Vermelha, Simental e Charolesa, cujos valores. apesar de representarem parcela pequena das vendas, têm se mantido estáveis e em patamares mais elevados, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Isso acontece, como explica o coordenador, porque a procura é maior que a oferta, particularmente para animais Angus adaptados às condições da Região Centro-Oeste.

Para justificar as médias gerais menores, Nunes diz que houve influência de um mercado de reposição frouxo, o elevado abate de matrizes e um preço da arroba abaixo do desejado. Também aponta a seca prolongada que afetou regiões de Minas Gerais, Mato Grosso e o Nordeste, além de um aumento na própria oferta de reprodutores em momento do ano não propício. Nunes afirma que tem mais gente produzindo tourinhos e que grandes projetos aumentam a oferta. Ele reconhece que a produção de genética se mostra mais vantajosa que a engorda.

Destacam-se nos remates, com preços até o dobro da média geral, criadores que apresentam animais integrantes de programas de melhoramento e que estejam bem avaliados. A isso, o coordenador acrescenta o fato de mostrarem boa condição corporal e contarem com trabalho consistente de divulgação. Devido ao uso da inseminação artificial em tempo fixo (IATF), aponta que os pecuaristas precisam de menos tourinhos e que por isso podem gastar relativamente mais com reprodutores de maior qualidade.

O aumento nas vendas, como avalia o coordenador, ocorreu em função do crescimento no número de novos clientes por condições favoráveis ofertadas dos remates. Ele não considera que o mercado como um todo tenha apresentado melhora e sim que houve migração da comercialização das fazendas, “que deve estar diminuindo”, avalia. Dentre os atrativos aponta descontos de 15% para pagamentos à vista ou de 8% para pagamentos em 10 parcelas, bem como o frete grátis e a boa qualidade dos animais ofertados.

Para 2013, Nunes vê a perspectiva de manutenção no aumento da oferta de tourinhos e da migração de compradores para os remates, estimulando as vendas da leiloeira que devem continuar a subir. Quanto à média geral, considera que não exista margem para novas quedas.

MAIOR ESFORÇO DE VENDAS

A Central Leilões também deve apresentar neste ano crescimento na comercialização com média geral menor. Até outubro foram 9 mil tourinhos das raças de corte, com média de R$ 6.000, mas a expectativa é de finalizar 2012 com a venda total de 10 mil animais, 20% a mais que o ano anterior, e valor médio de R$ 5.800, uma redução de 17%. Não foram identificadas diferenças no comportamento entre as raças zebuínas, que predominam, diante das taurinas. As condições de pagamento dos pregões, como nas demais leiloeiras, foram de 24 parcelas (2+2+20), uma fórmula que parece ter se fixado em boa parte deste setor.

Lourenço Campo, diretor da empresa leiloeira, reconhece que esperava um ano pior do que realmente foi, diante da seca, valores menores da arroba e uma economia no geral em ritmo mais lento. “Isso faz com que pecuarista fique com receio de investir”, comenta. A maior quantidade comercializada se deve a uma grande liquidação de plantel que realizou, além de um esforço de crescimento da leiloeira, que inclui a atuação com mais raças e a aplicação de recursos em estúdio próprio para a transmissão de eventos. Campo admite que foi um ano de muito trabalho e esforço.

Segundo Maurício Tonhá, os preços dos reprodutores foram menores em virtude do próprio mercado de pecuária de corte

Neste contexto, é preciso lembrar que pela primeira vez realizou seu próprio leilão, em outubro, ofertando 56 tourinhos Braford e 25 Nelore.

Mesmo abaixo, Lourenço Campo esperava um ano pior do que foi

Ele integra os programas de melhoramento Conexão Delta G e ANCP- USP e aponta este tipo de atividade como fundamental para se ter bons animais para o mercado, como também utilizar genética comprovadamente superior e sem aventuras. “Os criadores estão mais atentos aos programas de avaliação genética e estes animais valem 30% a mais; chegará um momento em que não vai haver espaço para outro tipo de reprodutor”, diz.

No próximo ano, Campo acredita que possa começar a faltar bezerro no mercado, o que resultaria numa valorização da categoria. Assim, vê a possibilidade de um ano melhor para a comercialização de tourinhos e com maior liquidez. Quanto aos preços, acredita que não há espaço para elevações, o que não chega a ser um problema, pois comenta que os produtores destes animais não reclamam dos resultados. A Central deve aumentar o volume de vendas em função de um projeto de crescimento.

VOLUME ESTÁVEL

A Estância Bahia promoveu, em sua maioria, remates presenciais, embora Maurício Tonhá, sócio-proprietário da empresa, reconheça que os virtuais devam predominar com o passar do tempo, o que já acontece, por exemplo, com as promoções da Central Leilões.

A comercialização de tourinhos da Estância, até outubro, tinha somado 7.750 animais, com média de R$ 5.070,00, com Tonhá prevendo no ano o total de 8 mil reprodutores, o que mostra estabilidade sobre 2011, e média próxima a R$ 5 mil, ou 9% menor.

Este resultado, segundo o sócioproprietário, se fundamenta na situação da pecuária de corte, que tem apresentado custos mais elevados e preços em queda, além da pressão da cultura de grãos, como identifica no Mato Grosso. Especialmente em relação aos tourinhos Nelore, acredita que igualmente esteja pressionando seus valores a maior oferta de animais registrados, fruto da intensificação da IATF e fecundação in vitro (FIV). Se existe este impacto nos preços, para a pecuária é bem positivo pela democratização de genética de melhor qualidade.

O leiloeiro enfatiza que o mercado busca hoje um reprodutor que irá impulsionar a produção de carne e a precocidade de acabamento, o que também implica em filhas sexualmente precoces.

Maurício Tonhá considera a possibilidade de 2013 ainda começar pressionado com maior venda de matrizes. Com otimismo, acredita numa provável melhora da economia mundial, embora em ritmo lento. Isso poderá impactar positivamente as exportações, beneficiando os preços da arroba e dos bezerros, estimulando também o mercado de tourinhos.