Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado de Leite

 

2012: mais um ano "ATÍPICO"

O ano de 2012 foi marcado por preços ao produtor com pouca variação e comportamento diferente do usual, com queda em plena entressafra e alguma recuperação no final desta. Também, o ano foi marcado por abrupto e intenso aumento dos custos de produção, principalmente em função dos elevados preços do milho e da soja.

Como podemos visualizar no gráfico 1, a curva sazonal de preços apresentou pequena oscilação entre o maior e o menor preço, apresentando- se mais estável do que as curvas dos anos anteriores, além da já comentada redução de preços na entressafra.

Para explicar esse comportamento pouco convencional de queda de preços no meio do ano, precisamos entender o que aconteceu com a produção. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o primeiro trimestre do ano apresentou um aumento considerável, sendo 5% superior ao mesmo período do ano passado, fruto de preços favoráveis durante boa parte do ano de 2011 e relativa estabilidade, encorajando o produtor a investir na produção, com reflexo nos primeiros três meses de 2012. Vale lembrar que, no final do ano passado, os custos de produção ainda estavam razoáveis e, consequentemente, proporcionando uma boa condição ao produtor.

A disponibilidade de leite também foi alavancada pela possibilidade de carregamento de estoques de 2011, que devem ter entrado em boa quantidade no início desse ano (embora não tenhamos dados concretos), além das altas importações de produtos lácteos entre janeiro e março, como pode ser visto no gráfico 2.

Nessa época, os laticínios verificaram margens cada vez mais apertadas por não conseguir repassar preços no atacado e pela deterioração da fatia do preço final captada por este elo, que perdeu, nos últimos anos, espaço significativo para o varejo, conforme mostra o gráfico 3.

O gráfico 4 apresenta os dados divulgados pelo Cepea até setembro de 2012, sendo possível observar que, ao contrário do que ocorreu nos anos anteriores, os preços se mantiveram estáveis tanto para o queijo muçarela quanto para o longa vida e para o leite em pó

Todos esse fatores contribuíram para a queda de preços em plena entressafra, período em que, normalmente, os preços apresentam tendência inversa.

Já no segundo trimestre, a curva de produção inspecionada apresentou crescimento mais tímido (2,8% em relação ao mesmo período de 2011). Tal desaceleração no crescimento foi fruto da elevação dos custos de produção e, em algum grau, da seca que atingiu o Sul do país no início do ano, além do comprometimento da produção no Nordeste, que passa por uma das piores secas da história (Gráfico 5).

A seca que também abateu os Estados Unidos prejudicou a safra de grãos americana e ecoou por todo mundo, inclusive no Brasil, chegando a afetar o preço dessas commodities. A saca de 60 quilos da soja bateu o valor de 42 dólares em outubro e o milho chegou a custar 33 dólares a saca em agosto (Gráficos 6 e 7).

Nesse cenário, a tendência é que o terceiro trimestre tenha tido comportamento semelhante, com pouco aumento em relação a 2011, contribuindo para que o mercado voltasse a ficar ajustado. Essa situação foi agravada pelo atraso nas chuvas ocorrido nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, bem como pelos altos preços do concentrado, que deterioraram as margens dos produtores, uma vez que esses insumos são a base da alimentação do gado leiteiro.

O gráfico 8 traz a informação de como esse aumentos nos valores de milho e soja impactaram na rentabilidade do produtor. Para a construção do gráfico, foi considerada uma vaca hipotética que produz 20 kg de leite por dia, consumindo 7 kg de ração. Em 2009 e 2010, observa-se picos acentuados no meio do ano; já em 2011 esse pico foi bem mais suave, para finalmente ser inexistente em 2012, ainda que os valores do início do ano tenham sido mais altos do que nos anos anteriores. Em agosto de 2012, os patamares registrados foram tão baixos que não se viam valores semelhantes desde 2010.

Essa menor disponibilidade de leite no mercado nos últimos meses puxou os preços no atacado, no varejo e, ainda que timidamente, ao produtor. Agentes de mercado relataram aumentos nos preços de atacado do leite longa vida, passando de R$ 1,90 o litro e, de forma mais acentuada, nos preços da muçarela nos últimos dois meses, acima de R$ 11,50, o que indica reação do mercado e reflete também um comportamento atípico para essa época do ano, quando normalmente os preços se retraem.

No varejo, segundo o levantamento feito mensalmente pelo MilkPoint em Piracicaba - SP, os preços do leite longa vida ao consumidor vem se mantendo com o valor médio de R$ 2,14 com 40 dias de fabricação no mês de outubro.

A recuperação dos preços no atacado e varejo levou, finalmente, à reversão de preços a partir de agosto, consolidando a atipicidade de 2012.