Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Exportação

Brasil fatura mais com carne bovina

Exportações caíram em volume, mas aumentaram no valor agregado

Nadia Alcântara*

A s exportações brasileiras somaram no acumulado de janeiro a outubro US$ 212 bilhões de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Na comparação com a média diária do mesmo período de 2010 (US$ 785,1 milhões), as exportações cresceram 29,3%.

Em relação às carnes, na soma das três principais proteínas, foram exportados US$ 10,9 bilhões no período de janeiro a outubro deste ano, enquanto no ano anterior, nesse mesmo período, haviam sido exportados US$ 9,6 bilhões. O aumento percentual foi de 13,6% em termos de valor.

Em termos de volume, no período de janeiro a outubro de 2011 os embarques de carne bovina, suína e de frango totalizaram 4,2 milhões de toneladas, e estiveram quase 10% abaixo do volume registrado para o mesmo período em 2010, quando haviam sido embarcados 4,7 milhões de toneladas.

O destaque das exportações foi para a carne de frango, com faturamento entre US$ 5,7 bilhões entre carcaças e partes da ave, 21,4% acima do registrado no mesmo período de 2010. Em termos de volume embarcado, em 2011 foram exportadas no período de janeiro a outubro 2,9 milhões de toneladas entre carcaça e partes, 1,3% superior ao volume de 2010.

Em relação à carne suína, as exportações renderam US$ 1,2 bilhão, aumento de 5,3% sobre o US$ 1,1 bilhão do mesmo período de 2010. Os volumes embarcados no acumulado de janeiro a outubro de 2011 foram de 426 mil toneladas, retração de 5% no comparativo com o mesmo período de 2010. Em grande parte, essa retração é efeito do embargo russo a plantas frigoríficas brasileiras.

Carne bovina

Para a carne bovina, as exportações renderam US$ 3,98 bilhões no acumulado de janeiro a outubro de 2011, superando em 6,1% o valor arrecadado no mesmo período de 2010. Em termos de preço por tonelada, o valor médio em 2011 está em US$ 3.906, 23,9% acima de 2010, que, na média acumulada do período, esteve em US$ 3.152.

Os volumes exportados de carne bovina brasileira apresentaram retração de 35% em relação ao ano de 2010. O volume embarcado entre janeiro e outubro daquele ano havia sido de 1.366 mil toneladas em equivalente-carcaça (“in natura” somado à carne industrializada), e caiu para 888,9 mil toneladas em equivalente-carcaça no mesmo período de 2011.

O principal cliente da carne brasileira no período de janeiro a setembro de 2011 foi a Rússia, cujo valor importado no período foi de US$ 860 milhões. Em segundo lugar, vem o Irã, que importou do Brasil cerca de US$ 572 milhões em igual período de 2011. As importações do Irã ganharam destaque no mês de agosto, quando os volumes embarcados superaram aqueles embarcados para a Rússia, que desde julho aplica restrições à importação de carne de mais de 85 plantas frigoríficas brasileiras.

Além do embargo russo, as indústrias brasileiras enfrentam uma questão grave relacionada à detecção de resíduos de vermífugo na carne bovina. Em agosto, órgãos de controle americanos proibiram a entrada de lotes do produto industrializado no país, por conta da detecção de ivermectina acima dos limites permitidos pela legislação local.

No caso da carne industrializada, principal produto comprado pelos norteamericanos, no acumulado do ano, houve retração em termos de volume de 23%, quando comparado ao mesmo período de 2010. O total embarcado até outubro de 2011 foi de 213 mil toneladas de carne industrializada, cujos principais destinos são Reino Unido e Estados Unidos.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC) calcula que os frigoríficos exportadores de carne bovina já acumulam prejuízo, no ano, da ordem de US$ 100 milhões, decorrente da rejeição de cargas por parte dos Estados Unidos devido à presença de resíduos de medicamentos à base de avermectinas.

Perspectivas

Para 2012, as perspectivas da evolução, diga-se agravamento, da crise econômica global deixam o cenário um tanto incerto para as exportações de carne brasileira. O colapso na zona do euro, que ainda pode se agravar caso países como Portugal, Espanha, Irlanda e Itália venham a entrar em processo de insolvência, a exemplo da Grécia, poderá ser um fator de decréscimo ainda mais acentuado dos volumes importados de carne bovina brasileira pelo bloco econômico.

Dois fatores determinam essa situação: o primeiro, pela própria redução da renda da população europeia e a consequente desaceleração do consumo; o outro, pela imposição de medidas protecionistas para proteger os produtores e sustentar em certo grau a economia interna dos países.

Além da situação europeia, os Estados Unidos também tendem a ampliar medidas protecionistas para proteger o mercado interno, face também à fragilidade da economia desse país.

A China também pode entrar em processo de desaceleração econômica. Apesar disso, o contingente populacional deve seguir crescendo, e mesmo com uma provável imposição de medidas restritivas à importação, elas devem ser menos pronunciadas para o caso das commodities, uma vez que a produção interna não deve ser suficiente para abastecer o mercado sem causar um processo inflacionário importante.

No caso da Rússia, as restrições à importação das carnes brasileiras, devem continuar, apesar dos esforços do governo brasileiro em negociar a suspensão do embargo sanitário. Isso porque há políticas internas naquele país de estímulo à suinocultura e à avicultura, até por questão de segurança alimentar. No caso da carne bovina, a situação é um pouco diferente, uma vez que as condições para bovinocultura são um pouco mais restritivas, devido ao clima e à restrição de pastagens com alta capacidade de suporte.

Já no caso dos países árabes, uma possível redução dos níveis de conflito político na região poderá ser favorável à estabilização da economia, e poderá levar a uma consequente melhora de consumo da população. Isso poderá favorecer as exportações de carne bovina para aqueles países, em especial pelo fato de as indústrias frigoríficas brasileiras atenderem bem esse mercado, inclusive desenvolvendo abates religiosos, tipo Halal e Kosher.

No entanto, um fator que pode desfavorecer as exportações brasileiras de carne bovina é a relação cambial. Com a moeda brasileira mantendo-se valorizada frente ao dólar, a competitividade do produto no mercado internacional fica prejudicada, abrindo espaço para outros produtores, como Austrália e Estados Unidos.

Ainda no caso da carne bovina, com as perspectivas de preços elevados para o produtor também para 2012, a atratividade do mercado externo diminui, em especial quando é possível colocar o produto a preços interessantes no mercado interno.

*Analista de mercado Informa Economics FNP