Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Escolha do Leitor

Imunocastração

Mesmo resultado das técnicas triviais, sem agredir os bovinos

Fernanda Hoe*

Vale a pena castrar bovinos de corte? Este é um questionamento recorrente entre os pecuaristas. O procedimento proporciona vantagens como ganhos em docilidade e no acabamento da carcaça do animal. Porém, as técnicas tradicionais de castração provocam estresse e podem gerar complicações posteriores. Diante deste cenário, surgiu no Brasil, em maio de 2011, a imunocastração, resultado de 24 estudos clínicos, realizados globalmente em 4.620 animais.

O primeiro país a adotar a técnica foi a Nova Zelândia, em janeiro de 2010. Injetável e com mecanismo de ação similar às vacinas convencionais, a castração imunológica gera a suspensão temporária da fertilidade de machos e fêmeas, permitindo que os pecuaristas obtenham os mesmos benefícios dos métodos tradicionais de castração, sem os prejuízos acarretados por eles.

É importante ressaltar que a imunocastração não tem nenhuma atividade hormonal ou química. Trata-se de uma vacina que estimula o sistema imunológico do animal a produzir anticorpos contra o Fator de Liberação de Gonadotropinas (GnRF ou GnRH). Desta forma, o produto bloqueia a liberação de dois hormônios e, como consequência, suprime temporariamente a função testicular e a produção de testosterona. Também funciona nas fêmeas.

A neutralização do GnRH leva ainda à interrupção temporária do comportamento sexual e agressivo aliada à uma melhoria da qualidade de carcaça. Traz ainda como benefício a diminuição da perda de performance produtiva associada à castração cirúrgica. Desde seu lançamento, o método tem tido boa demanda de norte a sul do país e tem sido adotado tanto por pecuaristas quanto por frigoríficos.

Outra vantagem da técnica é a preservação do bem-estar animal. É administrada em duas etapas na tábua do pescoço, e pode ser associada a outros manejos de rotina. A primeira dose sensibiliza o sistema imunológico do animal, que responde ao produto 7 a 14 dias após a segunda.

O efeito do produto é temporário. Em média, a ação dura de três a cinco meses após a segunda aplicação. Após esse período, a atividade testicular e ovariana retorna lentamente. Uma terceira dosagem pode ser aplicada para prolongar o efeito. A duração varia conforme o intervalo entre a 1ª e 2ª dose, por isso é recomendado o uso de protocolos diferentes de acordo com o sistema de produção.

Caso seja desejado um período de efeito mais longo, uma terceira dose pode ser aplicada, proporcionando mais cinco meses de efeito.

A segurança alimentar para o consumidor final também é um diferencial da imunocastração. Não exige período de carência para abate do animal, pois é um produto não hormonal, que não deixa resíduos no organismo dos bois. Isto porque o antígeno utilizado é uma proteína e por isso é destruído quando cozido ou no trato gastrintestinal.

Resultados

Estudos de campo demonstram que a imunocastração de bovinos apresenta resultados de carcaça e carne equivalentes àqueles obtidos por meio da castração cirúrgica.

Os parâmetros avaliados nas tabelas 1 e 2 não demonstraram diferença significativa entre os grupos castração cirúrgica e imunocastração, assim como a força de cisalhamento também não demonstrou diferença.

A análise sensorial utilizou o método de escala não estruturada de nove pontos para os atributos intensidade do aroma e sabor, e escala estruturada de nove pontos para as características de sabor estranho, aroma estranho, maciez, suculência e mastigabilidade. Os resultados demonstraram que o processo de imunocastração de bovinos não apresenta efeito nas propriedades sensoriais da carne bovina. Em relação ao perfil de ácidos graxos da carne, a castração imunológica não apresentou modificações relevantes quando comparada à castração cirúrgica.

Vemos, portanto, que o método alternativo à castração cirúrgica é eficaz e proporciona facilidade de manejo e melhor bem-estar animal. É preciso lembrar ainda que os resultados obtidos com a imunocastração estão diretamente relacionados com a duração de efeito do produto. Sendo assim, o protocolo de aplicação da vacina pode variar de acordo com o objetivo da fazenda.

Impacto da castração cirúrgica

A técnica de castração mais utilizada no Brasil ainda é a cirúrgica. Geralmente, este procedimento é realizado por meio de duas incisões laterais na bolsa escrotal do animal ou com a remoção do ápice do escroto. A idade para submeter o bovino ao procedimento varia desde seu nascimento até poucos meses antes do abate, dependendo do planejamento de cada rebanho. Porém, apesar de trazer uma série de benefícios já citados e conhecidos pelos produtores, a técnica não evita prejuízos causados pelas complicações pós-operatórias, perda de peso e risco de morte.

O estudo Impacto da castração cirúrgica no ganho de peso e estado clínico de bovinos de corte, recentemente publicado, revela males que a castração tradicional pode gerar. Foram avaliados 500 bovinos castrados de quatro fazendas – três em Minas Gerais e uma em Goiás –, no período entre março e maio de 2010.

Com o envolvimento de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia, da Gaia Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde Animal e de empresa, o trabalho avaliou os animais nos primeiros 28 dias após o procedimento e quantificou as principais complicações ocorridas. O estudo mostrou que a miíase, conhecida também como bicheira, foi o problema mais observado, com aproximadamente 15% dos registros, enquanto a morte do animal foi o maior prejuízo.

Dentre os principais problemas da castração cirúrgica tradicional, estão ainda as funiculites (inflamação do cordão espermático), hemorragias e a perda de peso do animal. A porcentagem total de complicações foi de 18,4% e a taxa de mortalidade média de 0,4%.

A ocorrência das complicações está relacionada ao manejo realizado em cada fazenda analisada, à assepsia e ao uso de produtos veterinários para evitar distúrbios após o procedimento. Concluiu-se que a higiene e o acompanhamento dos animais pós-castração podem ter influenciado no registro das doenças e nas taxas de mortalidade observadas. A perda de peso também foi observada nos animais castrados cirurgicamente. De cinco propriedades estudadas, 27,96% dos 186 animais de apenas uma fazenda apresentaram queda de peso, que apresentou ganho médio de 0,01kg em 28 dias. O mesmo resultado ocorreu em outro empreendimento estudado, no qual 20,27% dos 148 animais também perderam peso.

Os resultados refletem com precisão a realidade da castração cirúrgica de bovinos em todo o país, trazendo à tona a necessidade do emprego de técnicas alternativas. Além disso, um dos pontos que vem ganhando destaque nesta área é a questão do bem-estar animal: mercados como o Reino Unido já começam a mostrar preocupações neste sentido, banindo totalmente práticas veterinárias sem anestésico nas fazendas.

Terminação de bovino castrado

A cobertura de gordura do animal castrado ou imunocastrado é melhor em comparação a bovinos inteiros criados nas mesmas condições, que ainda apresentam carne de melhor qualidade. Outros fatores que interferem na qualidade de carcaça são genética, nutrição e manejo dos animais na propriedade.

Recentemente, devido ao aumento de demanda por qualidade e ao crescimento de programas de qualidade da carne, os frigoríficos voltaram a oferecer aos pecuaristas uma remuneração maior para os animais castrados ou com escore de acabamento de carcaça entre 3 e 4 (numa escala de 1 a 5).

*Médica-veterinária, mestre em Ciência Animal e gerente de produto - Bopriva, unidade de negócios bovinos da Pfizer Saúde Animal