Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Genética

Marcadores avançam, segurança nos resultados também

Cintia Rocha

Mais do que uma ferramenta de seleção genética, os marcadores moleculares têm mostrado importância também como uma nova forma de marketing, auxiliando a identificar animais superiores. A tecnologia, introduzida no Brasil há cerca de quatro anos, continua despertando interesse dos pecuaristas, o que sinaliza, de acordo com as empresas atuantes no segmento, que este mercado deve continuar expandindo nos próximos anos.

Para Guilherme Gallerani, gerente Igenity Brasil – marca pertencente a Merial Saúde Animal e que atua no mercado de marcadores moleculares no Brasil comercialmente desde o final de 2007 –, o ano de 2011 foi interessante no que se refere à difusão da tecnologia. Não necessariamente ao aumento do uso dela, mas, sim, ao entendimento e aceitação por parte dos técnicos e selecionadores. Segundo ele, como toda inovação, os marcadores moleculares também necessitam de um tempo de maturação, entendimento e aplicabilidade.

“Tivemos uma discussão muito mais ampla das melhores formas de utilização da tecnologia. Por termos iniciado este mercado no território nacional, nos sentimos bastante confortáveis e otimistas pelo rumo que está tomando, bastante coincidente com o que acreditávamos desde o começo”, considera.

De acordo com ele, características de qualidade de carne e carcaça, assim como as reprodutivas e maternas, têm ganhado atenção e preferência do produtor. “As características avaliadas pelos programas de melhoramento animal, predominantemente de performance, sofrerão impacto positivo com a incorporação do dado molecular, proporcionando aumento na acurácia dos dados, em especial nos animais jovens”, conta. Neste quesito, o lançamento das primeiras Diferenças Esperadas nas Progênies (DEP’se) Assistidas por Marcadores Moleculares foi a novidade do Igenity, no meio do ano, em uma parceria da Merial com a Agropecuária CFM e o Grupo de Melhoramento Animal e Biotecnologia da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP.

A Merial não comercializa marcadores individualmente, mas sim painéis compostos por características relevantes que são avaliadas pela leitura de dezenas de marcadores no teste de DNA. “E é a composição desse conjunto, associado à determinada característica, que irá nos informar o Valor Genético Molecular (VGM) do animal para a referida característica. Neste ano, durante a ExpoGenética, inauguramos o Nelore V3, um painel mais explicativo e com a inclusão de duas novas características, totalizando 13 para a raça”, explica o gerente.

Sobre perspectiva para 2012, a Merial estuda a ampliação das características nos painéis já existentes. “Esta é uma ferramenta em constante inovação e, consequentemente, sempre temos novidades para lançar”, adianta.

Com o pé direito

De olho no potencial dos marcadores, a MSD Saúde Animal (novo nome da Intervet Schering Plough Animal Health) – em parceria com a Genoa Biotecnologia – e a Pfizer Saúde Animal ingressaram, comercialmente, no mercado brasileiro em 2010 e já contabilizam bons resultados. A MSD e a Genoa desenvolveram o G-Tag e lançaram em junho de 2011 o GTag Completo, teste molecular do Nelore que mapeia marcadores específicos para cinco características produtivas.

Alexandre Zadra, gerente técnico Genômica do G-Tag, destaca que em 150 dias já contabilizam 100 clientes e 3.000 animais genotipados. Tolerância ao Estresse, que é a capacidade do animal se adaptar a mudanças, foi a característica mais procurada do painel pelos pecuaristas em 2011. Entretanto, sempre é entregue junto aos demais marcadores: Tolerância ao Estresse, Peso aos 550 dias, Perímetro Escrotal aos 550 dias, Área de Olho de Lombo aos 550 dias e Espessura de Gordura de Carcaça aos 550 dias.

Referente à tecnologia, Zadra considera que um dos principais momentos da empresa em 2011 foi quando o G-Tag avaliou os principais touros Nelore e constatou alta correlação existente entre as DEP’s e os valores moleculares. Para 2012, a perspectiva é a validação do Gtag em outras raças Zebuínas. “Considero que os marcadores são eficientes ferramentas para desempatar, comercialmente, alguma decisão de escolha na seleção de matrizes, touros, irmãos e irmãs próprias de FIV nos leilões e na seleção de bezerros superiores para as provas de desempenho”, explica.

A Pfizer também iniciou na tecnologia com a raça Nelore. O Clarifide analisa Idade ao Primeiro Parto (IPP), Probabilidade de Parto Precoce, Stayability (longevidade), Produtividade Acumulada, Peso aos 120 dias, Peso as 365 dias, Peso aos 450 dias, Circunferência Escrotal aos 365 dias, Circunferência Escrotal aos 450 dias, Área de Olho de Lombo e Cobertura de Gordura. O relatório de avaliação do Clarifide é produzido a partir de uma amostra de pelos, sangue ou sêmen dos animais enviada à empresa.

No Brasil, a Pfizer tem mantido parcerias com grandes selecionadores, considerados pilares para o desenvolvimento do serviço, menciona Pablo Paiva, gerente de Vendas e Marketing da linha de Genética da Unidade de Negócios Bovinos da Pfizer Saúde Animal. “Graças a todos os envolvidos, contamos com um painel que traz características de alta relevância econômica para o pecuarista nacional e também o primeiro índice de seleção baseados em dados genômicos”, diz ele.

Para o gerente, este primeiro ano comercial no Brasil mostra um futuro promissor. “Neste momento, ela ainda abre caminho na seleção. No entanto, já notamos boa receptividade e interesse maior pelos criadores. É ferramenta de seleção que também está sendo utilizada como marketing. Quanto mais cedo é usada, mais cedo o produtor conhece o potencial do animal para as características avaliadas. Com as informações em mãos, ele pode estabelecer um perfil genético dos bovinos ainda bastante jovens, muito antes de eles reproduzirem”.

Junto à Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP), a Pfizer fez durante a ExpoGenética o lançamento da DEP Auxiliada pelo Genoma (DEP-AG). “Este foi um dos momentos mais importantes para nós em 2011. Com essa parceria, cujo objetivo é o aumento da acurácia, conseguimos com que os nossos marcadores fossem incorporados nas avaliações tradicionais”, comemora Paiva, que, sem revelar detalhes, afirma que a empresa continuará investindo em novidades no próximo ano.

Popularização e o Genoma do Zebu

O advento da técnica resultou na inserção do teste de DNA nos testes de paternidade das associações de raça e o mesmo já ocorre em propriedades com grandes rebanhos, uma vez que auxilia a identificar os filhos de cada touro solto na vacada simultaneamente. O uso se torna viável no momento de um acasalamento direcionado, muito importante nos plantéis leiteiros, nos quais há pouca informação das mães e muita sobre os pais.

Uma novidade em especial deve otimizar ainda mais a expansão dos marcadores moleculares: a descoberta do Genoma do Zebu pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É consenso entre os especialistas do setor que, apesar de recente, o fato deve impactar nas possibilidades futuras de utilização desta informação. “Acreditamos que novos serviços proporcionados pela publicação do genoma do Zebu poderão estar no mercado já no final de 2012”, acrescenta Gallerani.

José Garcia coordenou o projeto do Genoma do Zebu, que pode impulsionar o mercado dos marcadores

Para José Fernando Garcia, coordenador do estudo, é importante deixar claro que projetos como esse possuem a função de gerar, organizar e disponibilizar conhecimento. “O sequenciamento, montagem e interpretação de um genoma complexo é um processo sem fim. O próprio genoma humano, ‘concluído’ há cerca de 10 anos, ainda hoje recebe correções”, resume Garcia. Reforça a descoberta a realização, com a Conexão Delta G Norte, de um projeto para comprovação de dados gerados pela seleção genômica do Nelore ainda em 2012. Algo já conseguido para o Holandês nos Estados Unidos.

Vale lembrar que o primeiro genoma sequenciado de um animal Nelore foi o do touro 7308 da Perdizes, lançado em 2010, pela MSD/Genoa em parceria com a Universidade de Alberta, no Canadá. “Fomos a primeira empresa a lançar o Genoma do Nelore. Descobrimos mais de 3 milhões de Polimorfismos de Nucleotídeo Único (SNP’s) no DNA do Nelore”, finaliza Zadra. Os SNPs são o ponto-chave para descobrir a quais características um gene responde.