Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de fêmeas

Indicador sobe em 2011

Hyberville Paulo D’Athayde Neto

Na cria, as vacas são o meio de produção da atividade. Também são um ativo de alta liquidez, ou seja, pode ser convertido em dinheiro, ao serem mandadas para o gancho. Quando o criador vê a rentabilidade encurtar em função da redução nos preços dos bezerros, ele vende parte das fêmeas para compor caixa.

Os resultados dos abates nos dois primeiros trimestres deste ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram de aumento na participação de fêmeas. Elas compuseram, respectivamente, 42,0% e 41,4% dos abates nos dois primeiros trimestres. Aumentos de 4,3 e 6,4 pontos percentuais, em relação aos mesmos períodos de 2010. Figura 2.

Houve uma inversão na tendência de retenção de fêmeas que começou em 2007, pelo menos em relação aos primeiros semestres.

De 1997 a 2010, a correlação entre as participações de fêmeas nos abates nos primeiros semestres e nos totais anuais foi de 0,97. Valores mais próximos a 1 indicam forte correlação entre as séries.

Ou seja, se a participação aumentou nos primeiros seis meses, a tendência é que encerre o ano com situação semelhante.

EM VALORES ABSOLUTOS

Segundo o IBGE, os abates de bovinos de janeiro a junho deste ano somaram 14,16 milhões de cabeças, volume 3,4% menor que no mesmo período de 2010 (figura 1).

De maneira geral, os abates neste ano estão em ritmo mais lento. O único mês em que o volume total abatido foi maior que no último ano foi em fevereiro. Vale destacar que foi o mês em que as quantidades de vacas e novilhas tiveram maior aumento.

Isto provavelmente ocorreu devido ao descarte das fêmeas que não emprenharam na última estação e aumentaram a participação destas no primeiro trimestre.

No segundo, o aumento do abate de fêmeas já não pode ser exclusivamente creditado ao descarte. Também não houve recuo importante nas cotações do bezerro ou do boi gordo. Desta vez, o aumento de participação deve estar conectado aos preços atrativos das fêmeas e a sua utilização, na falta de bois.

Um ponto que merece destaque é o volume menor de machos abatidos no primeiro semestre. Foram 7,15 milhões de bois abatidos sob algum tipo de inspeção, ante 8,04 milhões nos primeiros seis meses de 2010, recuo de 11,1%. Isto colabora com o aumento na participação relativa das vacas nos abates.

Os novilhos abatidos foram 876,1 mil, queda de 20,3% em relação ao mesmo período de 2010. Houve crescimento nos abates de vitelos e vitelas. A quantidade pequena deixa a categoria susceptível a alterações percentuais mais bruscas.

No primeiro semestre, os abates de vacas aumentaram 11,7%, chegando aos 5,1 milhões de cabeças. Comportamento semelhante para as novilhas. Foram 1,0 milhão de fêmeas desta categoria para o gancho, aumento de 7,6% em relação ao mesmo período de 2010.

ABATE E AUMENTO DO REBANHO

Na figura 3, está a evolução da participação de fêmeas nos abates e o crescimento do rebanho. Observe que o aumento da participação de fêmeas nos abates, iniciada em 2003, apenas refletiu no tamanho do rebanho em 2005, quando o crescimento perdeu força.

Entre 2001 e 2004, o rebanho aumentou a uma taxa média de 5,1% ao ano. Em 2005, o acréscimo foi de 1,3%, em relação a 2004.

Isto ocorre porque boa parte da produção das fêmeas abatidas só chegaria ao mercado nos anos seguintes. Até porque, se foram para o gancho, é porque não emprenharam naquela estação.

Em termos absolutos, o abate de vacas observado no primeiro semestre de 2011 foi de 5,11 milhões de cabeças, de acordo com o IBGE, inferior a anos anteriores, quando o rebanho aumentou.

Em 2007 e 2008, por exemplo, foram abatidas 5,96 e 5,54 milhões de vacas. Ainda assim, em 2008 e 2009 o rebanho cresceu 1,3% e 1,5%, respectivamente.

Se o aumento na participação de fêmeas nos abates se confirmar no fechamento deste ano, o que tende a ocorrer, teremos um cenário semelhante ao observado em 2003, quando houve inversão na participação de fêmeas nos abates.

Observe na figura 4 como a evolução do abate de fêmeas em 2005 e 2006 afetou intensamente os rebanhos das regiões Centro- Oeste e Norte, notavelmente em 2007.

A isto pode ser atribuída a composição do rebanho no norte do país. Nessa região, a cria é mais expressiva que na região Sudeste, por exemplo.

Em regiões onde a pecuária é mais recente, os pioneiros fazem cria ou ciclo completo, pelo simples fato de que não há de quem comprar animais de reposição.

Com a maior participação de vacas no rebanho da região Norte, o aumento do abate de matrizes, devido à fase de preços baixos, causou maior diminuição no rebanho nesses estados, em comparação com o restante do país.

EXPECTATIVAS

Apesar do sinal de atenção enviado pelos abates de fêmeas, o mercado do boi gordo não dá sinais de excesso de oferta. Pelo contrário, subiu fortemente em novembro. No mercado de sêmen, tourinhos e insumos para reprodução, o bom volume de vendas indica que está havendo investimento na cria.

Mesmo com a maior participação de fêmeas nos abates do primeiro semestre, o volume disponível para reprodução é grande, fato confirmado também pelo crescimento do rebanho nos últimos anos. De toda forma, o planejamento de médio prazo da propriedade deve ser feito considerando a possibilidade de um mercado menos firme nos próximos anos.

*Médico-veterinário consultor da Scot Consultoria.
Colaborou Alex Lopes Zootecnista