Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Tendências

Boi em terra boa é TURISTA

Deve-se pensar na fazenda como uma empresa, cujo objetivo é obter lucro

Argeu Silveira*

Nos próximos trinta anos, a população mundial praticamente irá dobrar enquanto que as áreas em produção no mundo terão aumento em torno de 1 a 2% apenas. Este fato é de fácil constatação pela forte pressão por parte dos ambientalistas e pela contribuição de novos satélites no monitoramento da região Amazônica, que conseguem fotografias mesmo no período das chuvas e, com isto, promovem uma fiscalização durante todo o ano. Soma-se, ainda, o fato de o próprio estoque de áreas a serem abertas já estar no limite.

Futuro da pecuária pode depender das áreas agrícolas

Com isto, o que já ocorre em São Paulo – a competição pelo espaço físico de produção entre soja, cana, boi, entre outros exemplos – tende a se espalhar por todo o País e pelo mundo. De um lado, é positivo, pois levará à valorização dos produtos e a maiores alternativas de atividades aos produtores. Por outro, aumentará o desafio de tornar a criação de bovinos rentável. Começam aí os problemas.

Ressalto mais uma vez o peso da concorrência, seja pelo espaço no mercado de carnes com o porco e o frango, seja pelo espaço físico de produção com a agricultura, florestas e cana de açúcar, que são atividades altamente tecnificadas e cujo objetivo principal é o retorno econômico do investimento. Neste caso, podemos tomar como exemplo a soja transgênica, as marcas comerciais de suínos e aves e as florestas de eucalipto, o que evidencia o longo caminho que a bovinocultura brasileira tem a percorrer em termos de utilização de tecnologias.

Se focarmos a criação de bovinos como um empreendimento comercial, visando ao lucro, os dois fatores de maior rentabilidade são a fertilidade e o rendimento frigorífico, no caso de quem trabalha com a terminação de bovinos. E entre o discurso e as ações práticas, é possível enxergar claramente o grande paradigma atual da pecuária brasileira e as dificuldades que aguardam a atividade. No quadro da página a seguir, podemos ver isso com muita clareza. São apresentados dois touros, o A e o B, da raça Nelore, no momento em que são analisadas suas DEP´s (Diferenças Esperadas na Progênie) para rendimento e acabamento de carcaça.

DAOL - DEP para área de olho de lombo (AOL), relacionada à medida do contra-filé, diretamente li gado ao rendimento frigorífico.

DACAB - DEP para espessura de gordura (EG), relacionada ao acabamento de carcaça. Em animais sem gordura externa, a carne fica escura após o congelamento, e o principal efeito é que, nas fêmeas, é preciso depositar gordura para produção de hormônios para entrar em reprodução. Portanto, é uma característica importante nos dois itens de maior impacto econômico: fertilidade e rendimento frigorífico.

TOP – O percentil indica o posicionamento da característica dentro da raça. Exemplo: Top 1% indica que o animal é o melhor em cada 100. Top 100% indica que o animal está entre os piores da raça.

As medidas expressas em DEPS são reais e obtidas a partir de dados públicos (www.ancp.org.br) e o nome dos touros foi ocultado para que a discussão seja apenas conceitual.

Se tivéssemos de fazer uma escolha entre touros A e B pensando em retorno econômico, a decisão seria “fácil” em favor do touro A, pois o mesmo está entre os melhores da raça para rendimento frigorífico. Enquanto que o touro B está entre os “piores” da base avaliada para a característica.

No entanto, quando verificamos a quantidade de filhos do animal B dentro da raça Nelore, observamos que ele está entre os touros mais utilizados, mesmo apresentando características negativas para rendimento frigorífico.

O grande desafio da pecuária é romper com paradigmas, focar a seleção de bovinos em animais com características comprovadas de retorno econômico (DEPs). Deve-se pensar na fazenda como uma empresa, cujo objetivo é obter lucro, daí a necessidade em se utilizar tecnologia no sistema produtivo, de modo a aumentar a eficiência para garantir o sucesso da cadeia produtiva da carne, tornando-a competitiva perante a concorrência.

*Médico veterinário, responsável
técnico pelo Programa Genética Aditiva