Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Touros

Vai DECOLAR?

Perspectivas para a venda de touros em 2011

Silvia Palhares

E m recente entrevista, o economista e selecionador de Nelore Carlos Viacava enfatizou que “na hora de vender o tourinho, o que o comprador quer é um animal com o umbigo correto, bem arqueado, bons aprumos, costela comprida e precoce”, características que ele e outros pecuaristas definem como essenciais para um bom reprodutor. Ninguém discorda. Mas isso não acontece quando a proposta é analisar o mercado de touros em 2010.

As perspectivas, segundo especialistas do setor, eram de um ano aquecido nas vendas, por conta da maior receita gerada pelo alto preço da reposição e da valorização na cotação do boi gordo. Com isso, os investimentos na compra de reprodutores se mostravam certa. O que, na visão do engenheiro-agrônomo e diretor-técnico da AgraFNP, Vicente Ferraz, não se confirmou. Segundo ele, pelas avaliações da equipe da consultoria, o mercado de touros não decolou, como aconteceu com o boi gordo, por exemplo. “Sentimos que o produtor está passando por uma fase de melhor rendimento e ainda não se decidiu por novos investimentos, especialmente genética. Claro que houve aplicação de recursos, mas não na intensidade esperada”, ressalta.

Para ele, o pecuarista, tradicionalmente cauteloso, está mais escaldado com efeitos do ciclo de 2009, quando as cotações do ano anterior vinham muito altas e, por conta da crise econômica mundial, declinaram, com impacto sentido logo em janeiro. “Foi um ano que decepcionou. Iniciou com preços altos e foi caindo. A entressafra foi muito ruim, cenário que se estendeu até janeiro/ fevereiro de 2010”. A melhora ocorreu somente em junho e julho, destaca o consultor.

Contudo, a expectativa de leiloeiras e produtores é outra. De acordo com Maurício Tonhá, sócio-proprietário da Estância Bahia, somente nos leilões da empresa foram comercializados mais de 10 mil touros, a uma média de R$ 5 mil a R$ 6 mil. Tonhá, promoveu, inclusive, a maior oferta de touros na Bahia, uma praça que começa a se destacar no cenário nacional. Na ocasião, foram vendidos 224 touros. Na Central Leilões, espera- se que até o final do ano sejam leiloados 4,4 mil touros, 30% a mais do que no ano passado, percentual que também traduz o incremento nos preços médios por animal, comercializados por cerca de R$ 8 mil. “Considero dois pontos como determinantes nesta valorização. Primeiro, o mercado de reprodutores, no geral, se mostrou mais aquecido neste ano (fase de recomposição de rebanho). Segundo - e principal fator - os produtores de bezerros estão de fato reconhecendo a importância de se adquirir touros com avaliação genética consistente. Os pecuaristas buscam comprar com segurança, investindo em animais realmente melhoradores, além de procurar cada vez mais gados bem avaliados e que venham de plantéis de seleções reconhecidos.”, esclarece o proprietário da Central, Lourenço Campo.

A visão é compartilhada também por Valdecir Mendes Ferreira, gerente comercial da Fazenda Sant’Anna, e por João Paulo Silva (Kaju), diretor- comercial da GAP Genética. Para Ferreira, o abate indiscriminado de fêmeas nos dois últimos anos, devido ao preço baixo pago pelos frigoríficos na arroba dos animais terminados, e os altos custos de produção fizeram com que o pecuarista se sentisse desestimulado em produzir; consequentemente, hoje há falta de animais para reposição e abate. O reflexo disso se reflete na valorização dos preços dos bezerros e da cotação da arroba, um cenário que reanimou a cria e, com isso, a demanda por touros. Kaju concorda e enfatiza que 2010 está um pouco melhor que o ano passado e o mercado está com bastante liquidez. A perspectiva, em sua opinião, é que haja crescimento por conta da maior retenção de matrizes e da produção de bezerros que se iniciou neste ano.

No que se refere a preços, Ferraz, da AgraFNP, revela que o sentimento é de valorização muito mais modesta do que na reposição e no mercado de boi gordo. Entretanto, ressalta, “se considerarmos o histórico desde 2008, houve sim um incremento real maior do que esse sentimento. Acontece que o mercado de touros não é tão volátil como o de abate e o de reposição e quando acontecem as altas e baixas de preços ele se sustenta com mais firmeza”.

Diferença na Genética

A busca por desempenho superior é um fato concretizado na pecuária nacional. Não só no que se refere ao gado de corte, mas também naquele com características leiteiras. E por isso, a genética pesa tanto nos preços dos touros. De acordo com Tonhá, da Estância Bahia, quanto melhor o animal se sair nas avaliações de Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) mais se consegue por ele nos leilões.

Aliás, Campo, da Central, destaca que é exatamente o valor genético comprovado que define o preço dos lotes leiloados. Isso porque “as DEPs são ferramentas indispensáveis para o comprador”, ressalta Ferreira, completando que o mercado já assimilou esta informação. “O comprador que não conhece como funcionam os índices de avaliação antes do leilão procura saber, faz perguntas e no final acaba comprando animais avaliados”, explica.

 

Leiloeiras apontaram médias entre R$ 4 mil e R$ 8 mil para reprodutores

Como produtor, Kaju explica os motivos de tamanha importância dos programas de melhoramento: “precisamos ter bois que cheguem ao mercado o mais rápido possível e com a melhor qualidade. Nesse sentido, temos de saber quais as características necessárias para se chegar a esse novilho”.

E por “características” devemos entender o mercado para qual o touro será destinado. Quando o foco é a pecuária de corte, o produtor de bezerros tem de avaliar o peso à desmama, mas também não pode deixar de avaliar o peso ao sobreano. Para aquele que faz o ciclo completo, o ideal é escolher um reprodutor com melhores índices tanto para peso à desmama quanto para peso ao nascer, ao sobreano entre outros atributos, como DEPs de carcaça e circunferência escrotal. Já na pecuária de leite, priorizam-se animais com controle de lactação. No caso dos machos, esses dados são obtidos através do PTA (Habilidade de Transmissão Prevista).

A dica, nesse caso, vem de Valdecir Ferreira: “Para se ter um bom touro, é necessário saber escolher um indivíduo que atenda às suas necessidades. Que tenha uma boa avaliação genética, seja de frame médio, com bom arqueamento de costelas, comprido e que possua um bom posterior. Deve-se levar em conta ainda os aprumos corretos e a boa pigmentação. Para quem vai utilizar o touro em sistema extensivo e em condições de pastagens adversas deve procurar indivíduos criados a pasto”.

Olho no futuro

“A gente olha com bastante otimismo para o próximo ano e para 2012”. O parecer de Vicente Ferraz, da Agra- FNP, para 2011 é animador para os produtores de touros e é reforçado por estes e pelas leiloeiras. Todavia, o especialista ressalta a necessidade de estar atento à economia internacional, pois ela está longe de ser sustentável, especialmente na União Europeia, no Japão e nos Estados Unidos. A situação ocorrida em 2009, por conta da crise mundial, é ainda uma preocupação para 2011, principalmente, se não houver a recuperação dos países da Europa. E essa hipótese não pode ser totalmente descartada.