Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Caprinovinovultura

O desafio é PRODUZIR MAIS

Aumento da procura pela carne e leite mostram aos produtores a necessidade de ampliar o rebanho e a produtividade

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

O crescimento da demanda pela carne de cordeiro é a grande motivação da ovinocultura nacional. Especialmente em 2010, os preços pagos aos criadores apresentaram um aumento significativo, resultado, também, de movimentos decrescentes em rebanhos importantes como os da Austrália e da Nova Zelândia, e da diminuição das vendas externas realizadas pelo Uruguai.

Principal fornecedor de carne ovina do mercado brasileiro, o país vizinho sofreu quedas na produção e, ao mesmo tempo, ampliou exportações para destinos como União Europeia, Estados Unidos e Canadá. Entre 1º de janeiro e 6 de novembro deste ano, o Uruguai reduziu em 42% o abate de ovinos. As vendas externas apresentaram queda de 37%, somando 15.702 toneladas até 6 de novembro. Para o Brasil, os volumes exportados reduziram de 5.178 toneladas para 4.452 toneladas, segundo o Instituto Nacional de Carnes (Inac).

Para os ovinocultores brasileiros, a consequência foi uma valorização acentuada nos preços da carne. No Rio Grande do Sul, por exemplo, os criadores recebiam R$ 2,50 pelo quilo vivo do cordeiro em novembro de 2009, de acordo com a Emater/RS. Este ano, no mesmo mês, o valor médio foi de R$ 4,30, com as cotações máximas superando os R$ 5/kg.

A praça de São Paulo é outra representante dessa realidade. Em dezembro de 2008, o valor máximo recebido pelos produtores paulistas pelo quilo do cordeiro ficava em torno de R$ 4,20. Em determinadas épocas de 2010, a cotação máxima chegou perto dos R$ 6 para o quilo vivo, segundo o Indicador de Preço do Cordeiro Paulista, levantamento realizado pela Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA/USP).

Em 2011, os preços podem até não apresentar o comportamento surpreendente deste ano, mas devem continuar positivos e remuneradores para os criadores, observa o veterinário Paulo Schwab, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). “Não deve haver uma grande mudança na oferta pela situação que existe nos grandes países produtores. Além disso, há plantas industriais trabalhando com ociosidade no Brasil, o que significa uma demanda continuamente aquecida”, analisa.

O ano que está terminando marca o início de uma fase de ouro para a ovinocultura de corte, define o presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (Aspaco), Arnaldo dos Santos Vieira Filho. Para ele, o crescimento vem sendo construído de maneira sólida e com profissionalismo. “Estamos largando o amadorismo, e aqueles que permanecem na atividade estão investindo para atuar com eficiência. O setor mostra cada vez mais o quanto é importante para a inclusão social e para o agronegócio brasileiro”, declara. Os próximos 12 meses devem apresentar um reflexo ainda maior sobre a organização da cadeia, salienta o dirigente. Ele confia que a expectativa de bons preços também pode ajudar a ampliar os investimentos e a atrair novos criadores.

Mobilização pelo crescimento

Para conseguir atender um mercado ascendente, a ovinocultura nacional tem como grande objetivo conquistar a ampliação do plantel. “Há muitos anos insistimos nessa necessidade. Importamos carne, pele, alguns tipos de lãs finas e derivados do leite, mas reunimos aqui no País as condições propícias de solo e clima para aumentar a oferta de todos esses produtos”, sustenta o presidente da Arco, Paulo Schwab.

O interesse no crescimento sustentável da atividade está presente em todos os agentes da cadeia, garante o dirigente. Produtores, indústrias e instituições públicas e privadas estão em mobilização por ações de trabalho. É necessário, no entanto, colocar em prática as boas intenções. O Brasil precisa solucionar questões básicas, como a diminuição dos índices de mortalidade de cordeiros, o aumento das taxas de natalidade e a transmissão de tecnologias para os criadores por meio da qualificação dos profissionais da área. “Ainda existe muito desconhecimento sobre a atividade. O criador precisa ter a consciência de que a ovelha não pode ser tratada como uma vaca pequenina”, ilustra Schwab.

Números de 2009 do IBGE indicam que o rebanho nacional de ovinos é de 16,8 milhões de cabeças. Entre os animais destinados ao corte, destaque para raças como Texel, Dorper e Santa Inês. Já o consumo da carne ovina é estimado entre 400 e 500 gramas por habitante ao ano. “Se quisermos ampliar para 2,3 ou 2,4 quilos por habitante, precisamos investir para termos um rebanho de 50 milhões de cabeças”, diz o presidente da Arco. Ele acrescenta que, mesmo se o Brasil não registrar um aumento expressivo no consumo interno, poderá contar com a exportação no futuro. “Há uma demanda crescente por proteína animal no mundo. Mercados como a Rússia e o Oriente Médio, por exemplo, são importantes compradores”, cita.

Um dos esforços do setor para ampliar o rebanho está concentrado na diminuição do abate de fêmeas. O pedido de uma linha de crédito para a retenção de matrizes já foi encaminhado no âmbito da Câmara Setorial de Caprinos e Ovinos do Ministério da Agricultura. “A nossa expectativa é de contarmos com essa linha em 2011. É necessário que haja um estímulo aos criadores para que possamos manter o material genético desses ventres”, justifica o presidente da Aspaco, Arnaldo Vieira Filho.

A expansão da produção também deve estar focada no combate à informalidade dos abates, pontua o pesquisador Marco Bomfim, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Caprinos e Ovinos. “Apesar da existência de várias plantas frigoríficas, o percentual de carne comercializada sem inspeção é muito grande. Ações como linhas de crédito, incentivos, fiscalização e estudos de cadeia produtiva identificando sua estrutura e limitações são algumas das iniciativas importantes. Outra vertente é o aumento da produção e produtividade dos rebanhos, investindo em um forte programa de melhoramento genético associado a um plano de capacitação e extensão”, complementa.

Além da carne

A demanda pela carne caprina não cresce na mesma proporção à da carne ovina, sendo comum a procura mais acentuada em regiões tradicionalmente consumidoras, especialmente no Nordeste. No entanto, profissionais da área identificam um grande potencial de desenvolvimento para o produto, em função de suas características nutricionais, como o baixo teor de gordura.

Para o leite caprino, as projeções são mais concretas, uma vez que o alimento faz parte de programas governamentais de distribuição e conta com grandes indústrias beneficiadoras. “Na região Nordeste, há uma forte perspectiva de avanço para a produção de derivados no mercado formal. Ao mesmo tempo, no Sudeste, a cadeia produtiva avança de forma mais rápida com o lançamento de queijos de cabra em escala comercial por empresas especializadas”, explica o pesquisador Marco Bomfim.

As principais raças de caprinos leiteiros presentes nos rebanhos do país são Saanem, Anglo-Nubiana, Parda Alpina, Alpina e Toggenburg. Em média, os produtores recebem R$ 1,20 pelo litro de leite. O principal apelo para o consumo do leite de cabra parte dos seus benefícios nutracêuticos. O alimento contém 20% mais cálcio que o leite de vaca. Pelo tamanho reduzido das partículas de gordura, é mais facilmente digerido. Além disso, causa menos problemas de alergias por ter melhor tolerabilidade.

O leite ovino também envolve iniciativas interessantes no Brasil, principalmente em propriedades localizadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. A produção envolve animais das raças Bergamácia e Lacaune, e é usada, na maioria das vezes, para a fabricação de queijos finos. “Nesse caso, também precisamos aumentar o rebanho, porque ainda importamos reprodutores. É um mercado interessante, porque o criador pode aproveitar, além do leite, a lã para artesanato e o cordeiro para a produção de carne”, ressalta Paulo Schwab.

Outro derivado da ovinocultura e principal fonte de receita dos ovinocultores do Rio Grande do Sul até a década de 80, a lã, ficou em segundo plano devido à valorização da carne. No entanto, o futuro é promissor. Por ser uma commodity, os preços da lã são guiados pela conjuntura internacional e, apesar da desvalorização do dólar, o cenário indica baixos estoques em países com grande tradição na produção, como Austrália e Uruguai. Além do mais, há o apelo pelas fibras naturais em países bastante populosos, como China, Índia e Rússia.