Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado do Leite

Inversão

O atípico ano de 2010 e as perspectivas para 2011

O ano de 2010 foi um ano atípico para a atividade leiteira nacional, devido, principalmente, à antecipação do pico de preços e queda desses durante a entressafra.

A explicação para esse comportamento inicia-se com a oferta. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tivemos 9,9% a mais de leite no 1o semestre de 2010 sobre o ano anterior, com um total de 10,143 bilhões de litros (produção inspecionada). Apesar da base de 2009 ser baixa, não deixa de ser um aumento considerável. Além disso, assim como em 2009, a balança comercial não ajudou, pois houve entrada de leite superior à quantidade que saiu, elevando a oferta já em excesso. Por fim, devido a um forte crescimento da produção no segun- do semestre de 2009, possivelmente entramos no ano de 2010 com relativo volume estocado e elevado patamar de disponibilidade per capita de leite, como podemos observar no gráfico 1.

Aliado ao aumento da oferta, um outro aspecto contribuiu para a prematura queda nos preços. Apostando na repetição do que havia ocorrido em 2009, a indústria de laticínios, principalmente a de UHT, elevou preços ao produtor no início do ano, sem que o mercado apresentasse os fundamentos para tal. O objetivo seria garantir leite para a entressafra, obtendo expressivos ganhos. Como a oferta aumentou muito, a estratégia não funcionou, e os preços mais altos no atacado e varejo só serviram para piorar a situação.

No segundo semestre, entre setembro e outubro, o mercado se ajustou. A queda dos preços desde maio reduziu os investimentos na produção; a alta dos insumos e preços baixos piorou a antes favorável relação da troca; e as intempéries climáticas causadas pelo La Niña causaram severa estiagem e atrasaram a safra do Sudeste. Os preços pagos aos produtores desde setembro têm tido certa estabilidade e/ou leve alta.

Nesse sentido, e considerando uma contínua alta dos insumos e uma possível migração de gado de leite para abate – o preço da @ bovina atingiu níveis históricos nas últimas semanas –, a curva de produção do segundo semestre deve se aproximar da curva do mesmo período do ano passado (gráfico 2) e finalizaremos o ano com um mercado mais ajustado. Segundo nossas estimativas, a produção inspecionada do segundo semestre será próxima dos 10,6 bilhões de litros, o que daria 4,2% a mais que os primeiros seis meses de 2010 e 2% acima da segunda metade de 2009. Assim fecharíamos 2010 com cerca de 5,7% a mais de leite do que em 2009, totalizando cerca de 20,7 bilhões de litros.

Em termos de demanda, temos de considerar a força do nosso mercado interno: a elevação de renda da população, a disponibilidade de crédito e o aumento do número de empregos. A previsão para 2010 é que nosso PIB cresça 7,3% e, segundo dados da FGV, a estimativa para 2011 é de 4,6%. Em outras palavras, o mercado doméstico em ascensão, ainda mais com o dólar nesses patamares, deve continuar a ser o grande foco das atenções.

 

Queda dos preços desde maio reduziu os investimentos na produção

Atualmente, e desde meados de outubro, com a oferta restrita e os indicadores de demanda ainda fortes, o mercado se equilibrou. As vendas voltaram a ocorrer em bons volumes e os preços se reajustaram. O leite longa vida apontou leve alta nos preços e significativa melhora nas vendas; o leite em pó, ainda sem a possibilidade de exportação, começou a equilibrar seus estoques e a girar seu produto no mercado; e os queijos se encontraram em ótima situação, com alta de preços, aumento das vendas e falta de estoques.

Para o restante do ano, a tendência é de que esse cenário permaneça. A safra no Sudeste tem respondido bem ao início das chuvas, mesmo assim não tem fundamento para vir muito forte – preços ao produtor devem permanecer estáveis e os insumos seguem em alta -, e logo mais para o final do ano entraremos em período de férias escolares, o que reduz o consumo.

Em relação ao panorama externo, no atual momento, o mercado segue firme. Os leilões da Fonterra, que tem se tornado um importante indicador de preços internacionais, e os preços médios de exportação da Oceania e Oeste da Europa indicam uma relativa estabilidade nos últimos meses. Os fundamentos são favoráveis: o dólar vem sofrendo desvalorização frente a diversas moedas locais, ocasionando aumento das importações e possibilitando uma margem para aumento de preços; os custos de produção também estão mais altos, já que a alta das commodities é um fenômeno mundial; e a China tem tido um importante peso por parte da demanda.

Entretanto, o ambiente econômico mundial é pior do que há 6 meses. A crise na zona do Euro é mais grave do que se pensava, e a economia norte-americana tem tido dificuldades para se aquecer. Outro importante fator é o crescimento da oferta de leite em diversos países (ver tabela abaixo). A oferta da Nova Zelândia, principal exportadora mundial, que havia iniciado em baixa, se recuperou.

A expectativa é de que o mercado permaneça sob os níveis de preços atuais e historicamente altos, apesar do mercado de lácteos ser mais volátil do que o de outros alimentos, propiciando algumas oscilações pelo caminho. As perspectivas para o panorama externo devem ser observadas pela ótica das importações da Rússia, China e Índia, caso continuem fortes o mercado deve se manter. Caso contrário, a tendência é de baixa. Ou seja, há certa fragilidade no mercado.

No âmbito nacional para 2011, a perspectiva é de que iniciaremos o ano com um mercado mais equilibrado e com menores estoques de passagem se comparados a 2009- 2010. O atraso da safra devido às adversidades climáticas e a alta dos insumos – que deve perdurar por mais um bom tempo – são fatores que tendem a ajustar a oferta com relação à demanda.

A balança comercial deve permanecer deficitária, à medida que a situação cambial não deva se alterar em curto prazo, propiciando entrada de leite no mercado e dificultando sua retirada. Contudo, nada indica que o saldo ultrapassará os valores apresentados desde meados de 2009, que apesar de negativo não exerce significativa influência na oferta.

 

Preço para o produtor deve seguir inflação com aumento de 4 a 5%

No lado da demanda, os fundamentos econômicos para o mercado interno seguem positivos. A expectativa é de que o consumo de leite e derivados siga uma tendência de crescimento com a ascensão de novas classes sociais e elevação da renda, acompanhando a curva de oferta. Em outras palavras, não esperamos um disparidade como ocorreu em 2010, principalmente no que se refere ao 1º semestre do ano.

Em termos de preço ao produtor, a expectativa é de que acompanhe a evolução da inflação de 4 a 5% para o próximo ano. Mas que, diferente de 2010, em que houve queda na entressafra, tenha um comportamento historicamente normal.