Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Bezerro

Resposta na taxa de REPOSIÇÃO

Rogério Goulart*

É honroso respeitar os mais velhos.“Filho”, dizem, “Na pecuária duas coisas são escritas em pedra. Uma dessas coisas é o ciclo pecuário. A outra é a taxa de reposição entre o boi gordo e o bezerro. Não se esqueça disso”. Abaixo a cabeça e respeito. Pode-se dizer que o bezerro e a vaca que o pariu são o início da pecuária? Sim. Nesse mesmo raciocínio, pode-se dizer também que boi gordo é o final dessa história. Mas qual a razão da quantidade de bezerros não ser igual todos os anos? Porque temos anos de maior oferta e outros de menor oferta? Isso tem tudo a ver com o ciclo pecuário.

Pensando bastante sobre o ciclo pecuário. O que ele significa para nós? Qual a sua importância? Algumas vezes tenho essa necessidade de voltar ao básico, de olhar novamente os fundamentos, os pilares da nossa atividade. Sem conhecer os fundamentos que guiam o nosso negócio, como ter segurança em se precaver e se preparar para o futuro?

Obviamente muito do que a gente toca em passagem pelo ciclo do boi, sempre para complementar algum outro argumento que na hora estamos formulando. Mas ciclo pecuário? Já tinha escrito algo sobre isso, e lembrei! Curiosamente escrevi o texto há um ano. Já tinha feito a pesquisa para embasar a teoria que gira ao redor das expectativas de oscilação do ciclo pecuário. Todos nós já sabemos que o ciclo é o acompanhamento do mercado de fêmeas, em primeiro lugar; do bezerro, em segundo lugar; e do boi, por último. Quem manda no boi é a vaca, costumo dizer.

Mas não acredite no que digo. Vamos a três definições do que é o ciclo pecuário feita pelos americanos. Primeiro a definição do professor James Mintert, da Universidade do Kansas. “A história do negócio de gado tem sido uma de ciclos de produtores de bezerro ampliando estoques em resposta aos lucros e, em última análise, a contração do tamanho do seu rebanho em resposta a perdas. Enquanto na história não há dois ciclos exatamente os mesmos, há um número de padrões repetitivos que ocorrem em ciclos que podem ser usados para julgar onde estamos e para onde estamos caminhando”.

Uma segunda opinião? Essa é do Serviço de Pesquisa Econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). “O ciclo de gado dura cerca de dez a 12 anos. É constituído por cerca de seis a sete anos de expansão do efetivo bovino, geralmente seguido por um a dois anos em que os números bovinos são consolidados. E em seguida, três a quatro anos de declínio do número antes da nova expansão começar. Flutuações cíclicas do número de cabeças nos Estados Unidos têm sido observadas desde pelo menos 1867”.

Esta terceira definição vem até nós da Universidade de Chicago, do Serviço Nacional de Pesquisa Econômica. “Estoques de gado bovino dos Estados Unidos estão entre os mais periódicos da série temporal em economia. A teoria dos ciclos pecuários é calculada, com base em decisões racionais de inventário de matrizes, na presença de gestação e retardamento da maturação entre produção e consumo. As baixas taxas de fertilidade das vacas e as substanciais defasagens entre a fertilidade e as decisões de consumo fazem com que a estrutura demográfica da população do rebanho responda a choques externos na demanda por carne bovina e aos custos de produção”.

Então veja você, caro leitor, como são as coisas. Passados dois mil e dez anos desde a morte e ressurreição de Cristo, cá estamos, negociando, apartando, refugando, comprando e vendendo gado como os romanos faziam. A gente negocia gado da mesma forma que os egípcios faziam mil anos antes dos romanos! Desde lá, no Império Romano ou no Egito, ou na época do descobrimento do Brasil ou tão próximo quanto 50 anos atrás, gado era moeda. Era tal como hoje, moeda forte.

O ciclo pecuário é o acompanhamento do abate e retenção de fêmeas. Essas duas ondas geram choques distintos na cadeia pecuária. Quando a onda é de retenção, o choque é a diminuição na oferta de bezerros e vacas gordas e consequentemente valorização da arroba do boi. Quando a onda é de aumento no abate de fêmeas, o choque se dá via aumento na oferta de bezerros e vacas gordas de descarte e uma queda na valorização da arroba.

Buscar entender onde estamos nessas forças opostas, onde nos localizamos no tempo do abate ou da retenção é buscar saber o que poderá ocorrer para frente com os preços e com a quantidade de animais, bezerros, vacas e bois. É esse tipo de raciocínio, esse tipo de mentalidade que tento mostrar. Os preços do boi sobem e descem mediante a evolução dessas forças.

Saindo um pouco desse raciocínio, isso me leva a pensar em outra coisa paralela. Produtividade é hoje em dia não mais uma atitude de bom-senso ou de necessidade que o produtor naturalmente faz dentro de sua propriedade, mas um produto empacotado para ser vendido.

Tal qual qualquer produto, ele precisa ser anunciado e o pessoal tem que acreditar que ele é importante. É mais ou menos nessa linha que enquadro como se tenta explicar a teoria pela qual essas forças de preço de longoprazo são definidas pela produtividade do abate dos animais gordos ou pela velocidade do abate. Só estou falando de abate aqui, como se o abate fosse a parte mais importante da pecuária. Sabemos que não é. O poder de oferta de animais novos em escala geométrica de um ciclo de retenção de fêmeas como esse que tivemos nesses últimos anos encobre qualquer aumento linear de produtividade em qualquer fazenda de engorda.

Então, a minha visão de pecuária e do ciclo do boi é a mesma dessas universidades americanas. Não é a produtividade quem define o ciclo pecuário, nem os preços da arroba do boi ou da vaca e nem consequentemente a taxa de reposição entre o boi e o bezerro. Isso daí está muito mais ligado ao abate de fêmeas e à oferta de bezerros daquele momento específico e, friso, especialmente ao momento econômico no qual o país está vivendo naqueles anos. Lembre-se do que disse antes: boi é moeda. A taxa de reposição, por exemplo, sobe em períodos inflacionários. Em períodos sem inflação (como o atual), a taxa média cai. Então, onde estamos no ciclo pecuário atual? A melhor forma é olhar para os gráficos. Vamos lá.

No Gráfico 1, temos o principal medidor do ciclo, o abate de fêmeas. Observe que ainda está havendo retenção de fêmeas - seu abate anual está próximo a zero e está vindo de dois anos de diminuição pura e simples.

A principal consequência dessa retenção de fêmeas é a diminuição temporária de sua importância nos abates, como a gente pode ver no Gráfico 02.

Isso é que gera a grande valorização da arroba dos machos no longo prazo e isso é mais importante que o aquecimento da economia para fazer subir a arroba. A economia dá as cartas no curto-prazo, mas é a oscilação do abate de fêmeas quem muda o patamar de preço. É o que os frigoríficos já sabem. O balizador da pecuária é a oferta, não a demanda. Estamos sentindo isso na pele agora, com a expressiva alta na arroba do boi paga pelos frigoríficos.

A arroba subiu forte, sim. Tanto é, que os preços hoje, ajustados pela inflação, estão em um momento historicamente excelente. Observe no Gráfico 03.

Hoje, consegue-se trabalhar animais nos melhores patamares de preço desde o início do plano real. Isso não é pouca coisa. É hora de aproveitar a oportunidade, tanto para 2010, quanto, se possível, para 2011.

Porque falo de 2011 aqui? Primeiro por que 2010 já está acabando, se você aproveitou os preços para vender animais. Em segundo lugar que para 2011 também a bolsa está mostrando bons preços. A razão desse raciocínio é simples. Já que estamos passando pelo final do período de retenção de fêmeas, o abate delas já começou a aumentar (elas não cabem mais nos pastos!).

Só que tem muita vaca por aí, e esse estoque está gerando uma maior quantidade de bezerros desde 2007. É só fazer as contas. Mais três ou quatro anos para a bezerra virar novilha, entourar e desmamar a cria, e chegamos em 2010 e 2011. Esses bezerros estão começando a chegar ao mercado. Esse ano já deu para sentir um pouquinho dessa nova oferta, mas como essas coisas tomam tempo é a partir de 2011 que a situação será mais nítida sob o ponto de vista do invernista.

Sou otimista para 2010, mas para 2011 já quero jogar um jogo mais seguro. Escrevi sobre 2011 porque senti ultimamente entre o pessoal com quem converso a ideia que em 2011 seremos melhores do que em 2010. Em bom português, dizem que no próximo ano a arroba vai explodir baseado no que temos hoje de mercado.

Será? Não sei. Penso que muito do que será 2011 depende do que acontecerá com o mercado até este final de 2010. Até agora estamos passando por uma entressafra típica, com preços um pouco acima dos esperados historicamente, ou seja, o mercado está dentro da oscilação que ele deveria estar.

Será 2011 um ano fora da curva, atípico, para cima? Posso estar errado, mas ainda não focalizei o próximo ano assim. Com base no que foi discutido sobre ciclo pecuário, não consigo enxergar esse otimismo todo, principalmente, se a inflação voltar a acelerar, como parece que está ocorrendo ultimamente.

Meu raciocínio me leva a pensar desse jeito, por ter impacto direto na taxa de reposição. A partir de 2011 a retenção de matrizes de 2007 para cá está produzindo um mar de novos bezerros, e eles já estão começando a entrar no mercado. Mas o que é a taxa de reposição e porque ela importa?

Existe uma forma de enxergarmos essa evolução do bezerro aos poucos virando boi? Não seria ótimo se conseguíssemos enxergar toda essa história em poucas linhas? Melhor ainda, enxergarmos isso tudo em apenas um número? Se existisse um número mágico que explicasse de forma simples como anda as coisas na pecuária, como está a situação do criador e do invernista?

Esse número mágico existe. Ele é a taxa de reposição entre o boi gordo e o bezerro. A taxa de reposição mostra quantos bezerros o pecuarista consegue comprar vendendo um boi gordo. Ela é uma fotografia do estado geral das coisas na pecuária naquele momento específico.

No Brasil temos essa fotografia da taxa de reposição desde 1955. Nesse período, passamos pelos mais variados ciclos econômicos, várias moedas, crises financeiras e períodos inflacionários. São 55 anos de acompanhamento da taxa de reposição. Como ela se comportou durante o acréscimo de produtividade em nossos pastos, a expansão da fronteira pecuária nessas últimas décadas e, ultimamente, a expansão dos confinamentos? Observe o Gráfico 04.

Notamos que lentamente o bezerro tem se valorizado em relação ao boi. Quando a taxa de reposição cai significa que o bezerro está ficando proporcionalmente mais caro. Em média podemos dizer que a reposição caiu de 4 bezerros/boi para 2,5 hoje.

Isso é uma coisa boa para o criador. Mostra que seu produto foi ficando cada vez mais valorizado com o passar dos anos. Mostra que o bezerro e a bezerra são produtos altamente demandados e consumidos no Brasil, cada ano mais que o ano anterior, em média.

Isso poderia não ser uma notícia boa para o invernista, afinal o bezerro é seu principal custo. Mas não chega a ser um problema. Como a reposição oscila lentamente ao longo dos anos, há tempo suficiente para se adaptar a esses animais mais caros.

Ou seja, até nisso a pecuária é uma atividade segura. Não tem uma lucratividade exuberante, mas é segura ao longo dos anos. O pessoal mais velho já sabia disso, também. É por isso que a maioria deles está aí hoje, firme e forte, junto com seus netos, na atividade. Tem famílias com mais de cem anos na pecuária. Você conhece algum frigorífico com 100 anos?

*Editor da Carta Pecuária/www. cartapecuaria.com.br