Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Coma Carne

Carne puxa consumo de alimentos

72% da produção mundial serão consumidos por países em desenvolvimento

Bruno de Jesus Andrade*

O Brasil tem todos os pré-requisitos para tornar-se um grande produtor de alimentos e competidor respeitável no cenário mundial. Entretanto, para melhor posicionamento deve-se explorar a produtividade de nossos solos, o Estado deve investir em melhor infraestrutura e o meio público e privado investir em ações internas e externas que valorizem nossos produtos qualitativamente.

As ações que cabem ao agropecuarista para melhor remuneração da terra, melhor uso do solo e para garantia de uma rentabilidade que promova sobrevivência no longo prazo da atividade está no aumento da produtividade. O pecuarista usa mineralização do rebanho, manejo e adubação de pastagens, investe em genética, intensificação do sistema por meio de técnicas como divisão de pastagens ou confinamento para promover a otimização no uso dos recursos disponíveis na propriedade, assegurando boa rentabilidade.

Segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), que levantou os preços, índic es de produtividade e lucratividade de alguns produtos agropecuários, nas últimas décadas, os preços de mercado dos produtos agropecuários caíram 60%, a produtividade foi dobrada e a lucratividade média foi diminuída em 20%. Seguindo a tendência, a melhor utilização dos recursos naturais e maior produtividade da terra serão fatores preponderantes para rentabilidade econômica.

Com a preocupação econômica sobre a atividade agropecuária caminha uma discussão que hoje se apresenta polarizada, tendo de um lado a produção de alimentos e, de outro, a preservação ambiental. Segundo a Food and Agriculture Organization (FAO), em 2050 o planeta Terra terá 9,3 bilhões de habitantes (hoje tem 7 bilhões), 72% da produção mundial de carne serão consumidos por países em desenvolvimento (atualmente são 58%), como Brasil, México, Índia, África do Sul, Colômbia, entre outros. Nesta realidade, a FAO também estimou quanto mais de área o planeta precisará para produzir alimento: 120 milhões de hectares. Ainda segundo o órgão, os dois principais lugares com terra e água em abundância para a agropecuária são: África Subsaariana e América Latina. Indica também que a agricultura deverá expandir produção dos atuais 2,1 para 3,1 bilhões de toneladas e a pecuária de 270 para 470 milhões de toneladas. A FAO conclui nesse estudo que 70% da demanda por produtos alimentícios em 2050 deverão ser supridas com o uso de tecnologias agropecuárias novas ou já existentes que acarretem em maior produtividade. Os países emergentes se tornaram os principais destinos de produtos exportados por eles próprios.

O Brasil se destaca junto com China e Índia. Para os principais produtos consumidos por países em desenvolvimento, o Brasil possui produção, e em grande quantidade de soja, carnes, minério, aço, combustíveis, automóveis, aviões, entre outros. Mais de 60% da pauta de exportação brasileira é formada por commodities.

Esse montante de consumo e crescimento certamente refletirá no crescimento da renda das famílias e como consequência na cadeia pecuária, que precisará estar preparada para atender as necessidades da sociedade.

Mensbrugghe (FAO 2008) mostrou como funciona a demanda da população em função de sua renda para três categorias de produtos alimentícios (Quadro 1).

A elasticidade – renda para carnes é a que apresenta maior potencial de crescimento para classe de baixa renda que migram para a média alta. No Brasil, é projetado que em 2015 a classe C (família com renda entre R$ 1.395,00 a R$ 4.650,00) representará 45,1% da massa real total em detrimento da migração de famílias das classes D e E. Ainda no país sabe-se que a demanda interna por carne bovina é alterada pelos seguintes fatores: renda da população, preço da carne bovina e preço das demais carnes alternativas. Uma pesquisa mostrou que o aumento de 1% na renda do brasileiro pode acarretar em 0,54% e 0,084% de aumento no consumo de carne bovina de 1ª e 2ª, respectivamente.

Em um contexto geral, no crescimento do consumo de produtos agropecuários pelo mundo, o Brasil também se beneficiará. De 2001 a 2007, segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil vem expandindo participação no comércio mundial agrícola. O agronegócio brasileiro respondia por 4,8% no agronegócio mundial em 2001 e passou para 6,7% em 2007, incremento de US$ 28,3 bilhões em 6 anos. As exportações brasileiras do agronegócio saltaram de US$ 15,5 bilhões em 1998 para US$ 58,4 bilhões em 2008.

No segmento de carne bovina a produção deverá crescer a um ritmo de 2,15% ao ano. O consumo interno também crescerá 1,94% ao ano e as exportações 3,9% ao ano (Quadro 2). Espera-se que em 2019/2020 a relação Exportação Brasil/Comércio mundial para carne bovina deva ser de 42,7% (Assessoria de Gestão Estratégica – AGE/MAPA, 2010 e Food and Agricultural Policy Research Institute – FAPRI, 2009).

O Brasil possui atualmente 193.252.604 habitantes (IBGE), que consomem 6,31 milhões de toneladas de carne bovina (AGE/MAPA), o que é aproximadamente 33kg/ habitante/ ano. Em 2019/2020, a população poderá chegar a 207.143.243 consumindo no período 7,64 milhões de toneladas de carne bovina (AGE / MAPA) ou aproximadamente 37kg/ habitante/ ano, crescimento de 12%. Sobre a produção, o abate deverá atingir aproximadamente 40 milhões de cabeças em 2019/2020, ante 32 milhões de cabeças hoje, 25% de crescimento. O mais interessante é que nesses números não estão incluídos possíveis ganhos em consequência da realização de dois grandes eventos no país (Copa do Mundo em 2014 e Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016).

Esse cenário positivo carrega incertezas: recessão mundial, mudanças climáticas e protecionismo. A recessão mundial de 2008, com reflexos em 2009, e ainda presente em diversos países desenvolvidos, é um fator de desaquecimento da economia mundial, pois esses países ainda são grandes consumidores. Quanto ao protecionismo, com a recessão, foi uma ferramenta econômica amplamente utilizada.

O tema das mudanças climáticas, aparentemente para o Brasil, será mais sentido no setor agropecuário. Entretanto, existe para o país uma enorme possibilidade de sucesso. O avanço técnico promovido por competentes profissionais, órgãos de pesquisas e universidades espalhadas pelo Brasil dão subsídio para uma tomada de decisão correta acerca da produção no meio rural e também para a preservação do meio ambiente. Por exemplo, se dividirmos a produção total da safra 2008/2009 de milho, soja, arroz, feijão e trigo pela produtividade que tínhamos em 1977/1978, descobriremos que foram poupados 66 milhões de hectares. O mesmo na pecuária, em 1970, segundo o IBGE, o Brasil tinha 154 milhões de hectares de pastagens com 78,6 milhões de bovinos, em 2006 crescemos somente 2,6% em área e 118,3% em rebanho. Muito ainda pode ser feito em relação à pecuária. Nossa lotação animal/hectare é em média 1,08. Existem soluções para, no mínimo, dobrar o valor, sem desmatamento. Ainda sobre a pecuária, o peso médio das carcaças abatidas nos trimestres desde o 1º de 1997 até o 1º de 2010 cresceu 133% em peso e 102% em animais abatidos.

O Brasil ainda possui inúmeras áreas de pastagens em algum processo de degradação. A Embrapa estima que 80% das áreas de pastagens do Brasil Central estejam nestas condições. Segundo estudo da empresa Celeres, baseada em dados da World Wildlife Fund (WWF), 17% do cerrado brasileiro está com pastagens degradadas. Portanto, existe espaço para crescimento sem que novas áreas sejam abertas. Entretanto, é necessário que a floresta em pé valha mais do que deitada. O Estado também deve fornecer mecanismos de financiamento que promovam o maior desenvolvimento da pecuária em áreas já abertas.

O aumento de produtividade, portanto, como forma de mitigar os efeitos deletérios sobre o meio ambiente é altamente válido. Pesquisa realizada por Monteiro e Lanna (2009) mostra que a produção de Gases de Efeito Estufa (GEE) em sistemas pecuários mais intensificados é menor por kg de carcaça produzida. A emissão média de metano (CH4) na pecuária tradicional brasileira (extensiva a pasto) é de 0,78 kg de CH4/kg de carcaça produzida, enquanto que em sistemas com a integração de uma criação intensiva a pasto + terminação em confinamento emite 0,471 kg de CH4/kg de carcaça produzida. O mesmo efeito é notado para a liberação de gás carbônico equivalente (CO2 eq.). Dessa forma, aumentando os índices de produtividade sem abrir novas áreas é possível conciliar o que hoje é tratado como duas coisas opostas, produção de alimentos e preservação do meio ambiente.

Uma melhor regulação brasileira sobre uso de produtos e também mudanças cabíveis no código florestal, por diversos autores, já se mostraram viáveis e de baixíssimo ou então de nenhum impacto sobre o meio ambiente. Pelo contrário, os ganhos para a sociedade como um todo serão extremamente maiores.

Priorizando o crescimento do país, seja no fomento de atividades não deletérias e em simbiose com a natureza e as necessidades individuais e coletivas do ser humano, melhoria e transparência na fiscalização, redução da carga tributária sobre o setor produtivo e melhoria em logística e infraestrutura é possível permitir ao meio rural a oportunidade de crescer junto com o Brasil e com o resto do mundo.

*Zootecnista do depto. técnico
da Associação Nacional dos Confinadores
(ASSOCON)