Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de Fêmeas

Vacas, forte indicador da atividade pecuária

Gustavo Adolpho Maranhão Aguiar*

Existem vários indicadores que retratam a atividade pecuária. Talvez o mais importante deles seja o abate de fêmeas. O aumento ou a diminuição da participação das fêmeas no abate de bovinos ocorre em consequência do fator mais importante de qualquer atividade econômica: os preços.

Quando o preço do boi gordo está em queda, o produtor passa a abater as fêmeas a taxas superiores ao descarte convencional, em parte porque seu fluxo de caixa está comprometido, mas porque outro importante produto, o bezerro, está também desvalorizado.

Podemos dizer que normalmente o preço do boi gordo e a participação das vacas no abate total são grandezas inversamente proporcionais. Observe a figura 1.

Na figura 1, o reflexo da queda dos preços do último ciclo pecuário sobre o abate de fêmeas. Essa fase durou de 2000 até 2006.

Repare que ao fim deste período a participação das fêmeas atingiu o ponto máximo, em resposta ao preço deflacionado do boi gordo mais baixo das últimas décadas. Nesta altura, as vacas representaram quase 44% dos abates de bovinos no Brasil.

Com o esgotamento da oferta de fêmeas, tanto o preço do boi gordo quanto da reposição começaram a se recuperar e, desta forma, se iniciou o processo de retenção de matrizes, em que estamos até hoje.

Observe que na figura 1 a participação no abate de 2010 é referente somente ao primeiro semestre. Estedado estará provavelmente superdimensionado, em virtude do descarte de fêmeas vazias no primeiro trimestre.

Portanto, o número consolidado para este ano deverá ser menor do que o mostrado na figura 1.

Diferenças estaduais

O abate foi mais intenso em algumas regiões. Tomemos, por exemplo, a diferença entre São Paulo e Mato Grosso do Sul. Observe a figura 2.

De maneira geral, estados mais dedicados à cria apresentaram as maiores participações de fêmeas no abate, durante o último ciclo.

Isto pode ser observado na figura 2. No vale de preços, em 2006, enquanto 37,7% dos animais abatidos em São Paulo eram vacas, no Mato Grosso do Sul esse número atingiu 52,3%.

No Pará e Tocantins, significativos no mercado de cria, por exemplo, a participação registrada também foi alta, chegando a 46,8% e 54,1%, respectivamente.

Reflexos da matança

Podemos dizer que o descarte forçado de matrizes é sentido até hoje. Apesar do processo de retenção de matrizes nos últimos quatro anos, o mercado ainda não deu sinais de sobreoferta. Observe a figura 3.

Com base nos preços, desde o pico do abate de fêmeas em 2006, o mercado não foi, ainda, capaz de recompor a oferta de animais, tanto terminados, quanto para recria, ao ponto de fragilizar os preços.

Quando analisamos o preço do boi gordo, o que tivemos em 2010 foi a maior valorização anual em novembro dos últimos tempos. O patamar de preço de 2009 (reflexo da crise) ajudou nessa valorização, mas o fato é que a oferta de animais terminados em 2010 está extraordinariamente curta.

Como fundamento de mercado, também temos a demanda. Além da oferta tímida, temos uma demanda crescente atuando no alongamento da fase de alta de preços.

Nos últimos 14 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto per capita do Brasil, tomado a preços de 1995, teve uma alta de 21,7%.

Isso se traduz, em última análise, em aumento de consumo de alimentos, principalmente de carne, cuja elasticidade-renda é alta. Em outras palavras, para a carne, o aumento de renda significa aumento de consumo.

A vaca para abate

Existe outro fato que interfere na retenção ou não de matrizes: o diferencial macho/fêmea, a diferença de preços entre o boi gordo e a vaca gorda. Note o que ocorreu em 2010 na figura 4.

Este ano, caiu a diferença entre os preços do boi e da vaca, ficando praticamente o ano todo acima da média do período analisado, e com boa margem em relação a esta média.

Isso ocorreu em função da dificuldade dos frigoríficos em comprar machos para o abate, o que aumentou a procura por fêmeas para o preenchimento das escalas. Com isso o preço da arroba da vaca subiu.

Esse fenômeno faz com que, mesmo com preços bons para a reposição, o que estimula a retenção de fêmeas, aconteça a venda de matrizes para abate. Não com a intensidade de uma venda forçada, mas suficiente para que se especule em alongamento do ciclo de alta.

Para 2011

A expectativa é que a retenção de fêmeas prossiga em 2011, estimulada pelos preços atraentes da reposição. Para o curto prazo, a demanda deverá ser superior à oferta de gado, o que manterá o mercado aquecido.

Ter uma visão macro da pecuária e conhecer o ciclo de preços contribui para o sucesso econômico. Com essa informação é possível planejar e, até mesmo, aproveitar oportunidades de negócios.

*Zootecnista e consultor da Scot Consultoria