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Boi Gordo

O ano da Carne Fraca

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A operação da Polícia Federal e a delação dos dirigentes do Grupo JBS mudaram um cenário otimista do mercado de boi no início de 2017. Os estragos foram grandes, sobretudo, no caso da Carne Fraca, na credibilidade da carne brasileira no mercado internacional. Mas em agosto o quadro começa a mudar, especialmente pelo custo inferior dos insumos – principalmente o milho

Arno Baasch
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O mercado brasileiro de carne bovina registra até meados de 2017 um ano bastante desafiador e transformador. Em pouco mais de oito meses, o setor se deparou com uma série de Divulgação sobressaltos, que podem trazer reflexos para o desempenho no decorrer do ano. Apesar da forte crise econômica enfrentada pelo Brasil, havia uma expectativa de um ano mais animador para o setor de carne bovina. O analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias destaca que o setor tinha como diferencial o custo de produção mais baixo em relação ao ano anterior, diante dos menores preços praticados para a saca de milho e o farelo de soja.

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Nas exportações, embora com volumes inferiores ao primeiro bimestre de 2016, Iglesias afirma que o desempenho nos meses iniciais de 2017 sinalizava uma tendência de recuperação para o restante do ano, algo fundamental para a garantia de melhores preços para o setor em meio à maior concorrência com as demais proteínas animais, em especial a carne de frango e a suína. “O Brasil embarcou mais de 301 mil toneladas de carne bovina no primeiro bimestre (2017), volume inferior às 323 mil toneladas exportadas no primeiro bimestre do ano passado, mas o clima era de otimismo”, relembra.

A produção de carne bovina indicava um declínio de 3,2% nos dois primeiros meses de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado, de 1,543 milhão de toneladas, o que também era um indicador importante para uma tendência de recuperação dos preços do boi gordo. “Estes haviam iniciado o ano com um valor médio de R$ 150,41 por arroba em São Paulo, que ficava acima do registrado em janeiro de 2016”, sinaliza.

Entretanto, os bons indicativos para a pecuária de corte em 2017 vieram abaixo a partir do dia 17 de março, com a deflagração da Operação Carne Fraca por parte da Polícia Federal. “A operação provocou inúmeros estragos e talvez o principal tenha sido o abalo na credibilidade da proteína animal brasileira. O fato não se restringiu à carne bovina, mas afetou também a de frango e a suína”, comenta.

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Os efeitos imediatos foram as suspensões das compras de carne bovina, de frango e suína por diversos países, afetando a imagem dos produtos brasileiros no cenário internacional. “Apesar da ação rápida por parte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e das demais entidades que regem o setor para tentar controlar os danos, os efeitos dessa operação ainda são evidenciados, como a suspensão e a manutenção do embargo às importações de carne bovina por parte dos Estados Unidos e das Filipinas”, descreve.

Passados praticamente dois meses após a Operação Carne Fraca, quando começava a sinalizar uma melhora nas exportações de carne bovina, Iglesias comenta que o setor foi novamente impactado pelas delações do Grupo JBS. “Essa notícia afetou o maior frigorífico do País e o setor como um todo e ainda gera incertezas no curto prazo”, destaca. Iglesias afirma que inicialmente muitos pecuaristas decidiram deixar de vender a prazo para o Grupo JBS, primando pelos negócios à vista, diante do temor quanto a um possível calote por parte do frigorífico. A decisão inicial do frigorífico de deixar de abater em certas unidades, como no Mato Grosso, também trouxe um custo adicional aos pecuaristas, que tiveram de arcar com despesas de transporte dos animais para outros estados.

A turbulência observada no mercado de carne bovina trouxe incertezas ainda maiores em termos de consumo interno e externo, o que fez com que os preços do boi gordo tivessem uma queda ainda mais expressiva. “O preço médio do boi em São Paulo, no encerramento de maio (2017), chegou a R$ 136,69, 11,72% menor frente ao preço médio praticado no mesmo mês do ano passado e 9,1% inferior ao registrado em janeiro”, compara. Para Iglesias, a autorização da venda de ativos da JBS foi um passo muito importante para sanar dívidas de curto prazo da empresa.

No entanto, buscando alternativas, muitas associações de pecuaristas e outros grupos decidiram reduzir a dependência em relação ao frigorífico. Além da busca por outras unidades de abate, uma das medidas tomadas por grandes estados produtores de boi, como Goiás, Mato CFM Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia, foi a redução da alíquota do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para boi em pé, o que contribuiu para um melhor escoamento dos excedentes de gado prontos para o abate desses estados.

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Com o indicativo de uma menor oferta, os preços da arroba do boi já sinalizavam melhora nas primeiras semanas de agosto/2017, combinadas com o bom desempenho das exportações, que voltaram a se recuperar um mês antes

Na avaliação de Iglesias, a redução de alíquotas de ICMS para gado em pé dos estados do Centro-Oeste e de parte da Região Norte fez com que muitos animais fossem direcionados para a Região Sudeste, garantindo uma ampliação das escalas de abate aos frigoríficos, especialmente de São Paulo. Por outro lado, essa ampliação da oferta de gado acabou pressionando ainda mais as cotações da arroba do boi, combinada com a crise econômica enfrentada pelo Brasil, o que impactou diretamente no consumo de proteína animal. O levantamento de Safras & Mercado apontou que em São Paulo os preços da arroba chegaram ao final de julho no menor patamar desde agosto de 2014, cotada a R$ 125,79. O analista ressalta que o cenário de baixa nos preços do boi gordo ao longo dos sete primeiros meses do ano fez com que os pecuaristas revissem a estratégia de confinar um número maior de animais no primeiro giro da atividade.

Exportações decepcionam — O balanço das exportações de carne bovina ao longo do primeiro semestre exprime um quadro de preocupação, indicando que haverá dificuldade em recuperar a credibilidade da proteína animal nacional no mercado internacional. Iglesias destaca que a paridade cambial ainda é um fator de alerta ao setor, tendo em vista que o real apresentou valorização frente ao dólar, fator que tirou a competitividade das commodities brasileiras no cenário internacional. Segundo levantamento de Safras & Mercado, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil exportou 950,4 mil toneladas de carne bovina na primeira metade do ano, retração de 9,4% frente ao 1,048 milhão de toneladas embarcado no primeiro semestre do ano anterior.

O fator cambial também afetou as receitas do setor nas exportações do primeiro semestre de 2017, que recuaram 3,8%. O valor arrecadado no período foi de US$ 2,59 bilhões, contra os US$ 2,69 bilhões dos seis primeiros meses de 2016. Apesar do cenário negativo obtido pelo País na primeira metade do ano, Iglesias entende que a posição brasileira ainda é vantajosa frente aos demais concorrentes, como Estados Unidos e Austrália, especialmente no que tange aos preços, podendo contribuir para a retomada dos embarques daqui para frente, o que dependerá fundamentalmente do câmbio.

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Expectativa mais favorável — Após as dificuldades enfrentadas pelo setor de carne bovina até agora, diante do forte ciclo de baixa nos preços, o mercado de boi parece, enfim, sinalizar uma perspectiva de recuperação. “Neste mês de agosto, a oferta de animais terminados se aproxima do final e o mercado de boi começa a ingressar no período de entressafra. A carência de oferta desse momento até o último trimestre do ano, quando se espera a entrada de gado confinado de segundo giro, deve contribuir para um melhor cenário para o mercado brasileiro de boi”, projeta.

Iglesias salienta que a retração nos preços dos insumos adotados na alimentação dos animais, como farelo de soja, polpa cítrica e especialmente de milho, diante da produção recorde na safrinha do cereal, combinado com a tendência de recuperação dos preços praticados no mercado futuro, podem contribuir para estimular as atividades de confinamento de agora em diante, para abastecer o mercado nos meses finais do ano, período considerado auge na demanda. “O movimento de baixa nos preços do gado de reposição também, de certo modo, alivia os custos da cadeia produtiva e pode contribuir para um incremento da atividade de confinamento”, afirma.

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O fator cambial também afetou as receitas das exportações do primeiro semestre de 2017, que recuaram 3,8%, com valor arrecadado de US$ 2,59 bilhões, contra os US$ 2,69 bilhões dos seis primeiros meses de 2016

Com o indicativo de uma menor oferta, os preços da arroba do boi já sinalizaram melhora nas primeiras semanas de agosto, combinadas com o bom desempenho das exportações, que voltaram a se recuperar em julho. “Para que o setor de carne bovina consiga trabalhar com reajustes de preços nos meses finais do ano é necessário que o movimento das exportações ganhe força, uma vez que a demanda interna segue debilitada, com a economia apenas ensaiando uma recuperação. A concorrência entre a carne bovina, de frango e suína na preferência dos consumidores deve seguir muito acirrada até o final do ano”, analisa Iglesias.