A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

 

Equilíbrio que faz bem a todos

A redução da produção acompanhou a queda nas demandas interna e também externa, o que garantiu a manutenção de preços atrativos para toda a cadeia brasileira

Leonardo Gottens

Ocenário é de estabilidade no mercado de laranja no Brasil, que segue aquecido em virtude de um delicado equilíbrio: a diminuição na produção acompanhou a queda nas demandas interna e externa, garantindo a manutenção de preços atrativos para a cadeia produtiva brasileira em relação aos anos passados. A perspectiva dos Fotos: Henrique Santos especialistas do setor é de que essa relação mantenha-se nos próximos 12 meses, até meados de 2017, apesar de alguma preocupação com a concentração do processamento nas mãos de poucas empresas, e também sobre como uma possível alta dos preços seria recebida pelos consumidores.

O Brasil segue sendo o maior produtor, mas colheu uma safra pequena no parque citrícola de São Paulo e Minas Gerais. Segundo estimativa do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), foram 245,78 milhões de caixas (de 40,8 quilos). Porém, os resultados foram menores também na Flórida (Estados Unidos), com previsão de 81,5 milhões de caixas, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (Usda). Além disso, os estoques de passagem de suco (de 2015 para 2016) foram baixos no início da safra.

“As explicações para o cenário atual estão relacionadas à queda de produção dos pomares, causada, principalmente, pelo clima no Brasil, devido às altas temperaturas na florada e excesso de chuvas na pós-florada, em outubro de 2015”, explica Vinícius Trombin, coordenador da Pesquisa de Estimativa de Safra do Fundecitrus. “Também há influência da questão fitossanitária, sobretudo na Flórida, devido ao HLB (huanglongbing/ greening), principal doença da citricultura, que afeta o desenvolvimento dos frutos e provoca a queda prematura”.

O greening também é a principal ameaça fitossanitária à cultura no Brasil. De acordo com Flávio Viegas, presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), a maioria dos produtores independentes, que vinha sendo remunerado com preços abaixo do custo de produção, acumulou dívidas e não teve condições de dispensar os tratos culturais devidos aos seus pomares. “Mesmo com a reação dos preços, a situação de grande parte dos agricultores não deve se alterar, pois a maior parte da renda vai ser destinada ao pagamento dessas dívidas. Por outro lado, a recuperação dos pomares não responde imediatamente à melhoria dos tratos culturais”, ressalta.

Necessidade de união e parcerias — Trombin aponta que o caminho para amenizar as perdas provocadas pela doença é o desenvolvimento de pesquisas para prevenção e controle (com foco em economia), boas práticas, soluções mais baratas e com menor impacto no meio ambiente. Ele aponta ainda a necessidade de fortalecimento da união entre os produtores e associações do setor, bem como parcerias entre as entidades públicas e privadas, ações de incentivo ao consumo da fruta e do suco e a manutenção da transparência das informações para aumentar a competitividade, a produtividade e a viabilidade da produção de citros.

A avaliação dos especialistas do setor é de que o Brasil pode se manter como o maior produtor e exportador de suco de laranja

Outro desafio enfrentado no País, de acordo com Viegas, é a concentração do setor industrial: “Hoje a maior parte do processamento está com apenas três empresas que não concorrem entre si, o que dá às indústrias um excessivo poder de mercado e produz enormes distorções. Dentro do Brasil, alguns produtores recebem uma remuneração que é o dobro da maioria dos citricultores. Não há um mecanismo de precificação que reflita as condições de mercado. A precificação da laranja é fixada unilateralmente pelas processadoras”, descreve. Segundo ele, “falta transparência nas informações do setor, não há informações confiáveis a respeito do preço dos sucos a granel, concentrado e não concentrado, nos principais mercados”, E faltam, ainda, informações sobre o preço e o consumo do suco no nível do consumidor final.

“Os contratos de fornecimento de laranja são contratos de adesão, que dão poder total às indústrias para utilizar o contrato da maneira que seja mais conveniente para elas, em prejuízo dos citricultores. O retardamento da colheita, por exemplo, é um mecanismo que beneficia a processadora em detrimento do produtor”, lamenta. Viegas defende um maior equilíbrio nas relações entre produtores e indústria, bem como mais transparência nas informações, além de contratos mais justos, um sistema de precificação que assegure ao produtor a remuneração compatível com o mercado e uma distribuição de renda dentro da cadeia produtiva na proporção dos investimentos, custos e riscos incorridos.

Ainda outro fator de pressão sobre o mercado de suco de laranja no Brasil, apontado pela Associação Nacional de Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), é a concorrência com outros tipos de sucos e bebidas que apresentam custos e margens mais atrativas para o consumidor, como refrigerantes e águas com sabor.

A avaliação geral dos especialistas é de que o Brasil pode seguir sendo o maior produtor e exportador de suco de laranja, bem como tem condições de liderar o mercado de sucos de frutas em geral. Apesar da contração da demanda, a produção vem caindo proporcionalmente. Hoje os estoques estão em níveis que não permitem manter o abastecimento dos mercados. A previsão é de que os consumidores brasileiros sintam de maneira mais forte a escassez, pois há priorização do mercado externo.