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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Uva/Vinho

 

Nas ondas do frio

Um inverno histórico em baixas temperaturas ajudou demais na venda de vinhos, enquanto a preocupação com a saúde contribuiu para a expansão da comercialização de suco de uva

Luís Henrique Vieira

Um inverno muito mais frio do que a média dos últimos anos em diversas regiões do Brasil, aliado a um reconhecimento maior dos benefícios à saúde que o suco de uva proporciona ajudaram em muito a indústria vitivinícola brasileira em vendas recentes. Embora as vendas de vinho não tenham crescido no ano passado, os primeiros números do primeiro semestre de 2016 apontam uma melhora em relação a igual Ibravin período de 2015.

O setor considera que, por outro lado, continua bastante difícil competir com os vinhos estrangeiros tanto domesticamente como no exterior em função do chamado Custo Brasil, um velho conhecido combo de custos, que engloba tributos, energia elétrica, logística, burocracia, entre outros. Isso tudo, apesar da desvalorização do real em relação ao dólar nos últimos tempos. Outra justificativa para a dificuldade para o setor crescer é escala de produção menor que a de outros países tradicionais, como Argentina e Chile.

A aposta dos vitivinicultores é de um forte incremento das exportações para os próximos meses do ano em função da exposição do País através das Olimpíadas do Rio. “No ano de 2014 já aconteceu com a Copa do Mundo em que as exportações de vinhos aumentaram exponencialmente com a exposição do nome do País em nível global. Acredito que neste ano com as Olimpíadas isso deve acontecer de novo. O estrangeiro vê o nome do País e depois compra algum produto brasileiro na gôndola. Como no início do ano nos ajudou o frio, acho que vamos ter crescimento em 2016,” aposta o vice-presidente do Instituto de Vinhos do Brasil (Ibravin), Oscar Ló.

No ano passado, as exportações tiveram uma queda de aproximadamente 43%, mas isso é em função do aumento exponencial registrado em 2014, segundo a avaliação do Ibravin. Além disso, as importações saltaram 1% em relação ao ano anterior e 7% na média dos cinco anos anteriores, mostrando a grande dificuldade de competição com os vinhos produzidos fora do Brasil. Já no caso dos espumantes, houve queda de importação na casa dos 4%, e também 67% menos exportações. O instituto também avalia que a variação cambiária não teve tanto impacto nessas correlações entre o que se envia para fora e o que o País recebe, apesar de ter beneficiado a competitividade da exportação de outras indústrias.

O Ibravin comemora um aumento de mais de dois dígitos das vendas de espumantes registrado em 2015. Para o vice-presidente do Ibravin, o consumo da bebida de fabricação brasileira já virou uma tradição. “Nós temos uma qualidade que é reconhecida pelo consumidor e o consumo de espumantes é muito forte em todas as regiões do País em várias datas comemorativas,” explica.

Suco de uva: boom nos últimos anos — Já o consumo de suco de uva teve um aumento de mais de 30% no Brasil em 2015, e um aumento superior a 90% na média dos últimos cinco anos. Toda essa expansão é atribuída a investimentos em qualidade e também à promoção dos benefícios que o produto promove à saúde. “Existiu nos últimos anos uma divulgação muito grande em programas nacionais de televisão sobre os benefícios do suco de uva, que são parecidos aos do vinho. Isso acabou repercutindo muito fortemente nas vendas,” justifica Ló.

O consumo de suco de uva teve um aumento de mais de 30% em 2015 e um incremento superior a 90% na média dos últimos cinco anos

E algumas medidas que tentam melhorar a competitividade do setor vitivinícola estão paralisadas em função da indefinição do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, segundo explica o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho José Fernando Protas da Silva. Conforme ele, antes o Modervitis, Programa de Modernização da Vitivinicultura, da Embrapa, que visava modernizar a produção vitivinícola no Brasil, estava atrelado ao antigo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que foi substituído pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Agrário na gestão Michel Temer.

Para se ter uma ideia, as licitações relacionadas ao programa para assistência técnica foram paralisadas. “Não sabemos se vai voltar a presidente Dilma ou se fica o Temer. Se ficar o Temer, o programa ficará atrelado ao Ministério da Agricultura,” afirma o pesquisador. Silva ressalta que o trabalho da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves/RS, já gerou resultados em termos de agregação de valor no estado, tanto para os produtores de vinho como de suco. “Nós temos ainda muito o que trabalhar na integração entre indústria e produtor, mas já avançamos muito no que se refere a agregar valor. A maior parte dos sucos de uva e dos vinhos de garrafão são engarrafados no próprio estado. Isso já faz toda a diferença,” relata o pesquisador.