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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Suinos

 

Salvo pelos portos

Preços em baixa e insumos (leia-se milho) em alta trabalharam contra o setor da suinocultura nos últimos meses. E acrescentase ao cenário a crise econômica que segura o consumo. Porém, felizmente, as exportações em volume cresceram 54% no primeiro semestre de 2016

Jorge Correa

A crise atingiu em cheio a suinocultura brasileira. Os preços internos baixos e o elevado custo de produção são dois componentes que preocupam o setor. Segundo o analista de Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias, os preços domésticos não reagiram até meados do ano por conta da elevada produção de suínos e também pela fraca demanda interna ao longo dos últimos meses, apesar do baixo preço da carne. Na avaliação dele, o custo de produção deve seguir elevado no decorrer do segundo semestre de 2016, pois insumos utilizados no arraçoamento animal (caso do milho, por exemplo), continuam em patamares elevados. “Esses fatores tendem a desestimular a produção. Por isso, esperamos que na segunda metade do ano ocorra redução do tamanho dos plantéis para que o mercado encontre um ponto de equilíbrio entre oferta e demanda”, pondera.

Crise econômica, desaceleração dos negócios, fechamento de fábricas, desemprego: assim o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, avalia o cenário brasileiro do primeiro semestre, que para ele foi de estragos em praticamente todos os setores produtivos. Com a expansão do índice de desemprego, os níveis de consumo foram fatalmente impactados. “Nesse contexto, os produtores e exportadores de proteína animal viram o preço do milho dar saltos e alcançar patamares superiores a R$ 60 a saca”, destaca. De acordo com o dirigente, com a colheita da safrinha de milho e o leve “respiro” diante das cotações praticadas no cereal, é a vez da soja “pesar” nos custos e na competitividade dos produtores suinícolas do Brasil.

Para somar-se a esses fatores desfavoráveis, a queda do câmbio a patamares de R$ 3,30 impôs um aperto às margens do setor. A ABPA manifestou preocupação com relação à importância da manutenção do câmbio a R$ 3,50 para a capacidade competitiva das agroindústrias exportadoras. Para o dirigente, esses efeitos sobre a produção deverão resultar em queda sobre a expectativa inicial de crescimento de produção para 2016, quando são esperados 3,76 milhões de toneladas. Agora, o setor espera repetir volume próximo do produzido em 2015, de 3,64 milhões de toneladas.

Para Iglesias, o câmbio pode alterar o comportamento das exportações no segundo semestre, caso o real continue se valorizando frente ao dólar, fator que torna as commodities brasileiras menos competitivas. Segundo ele, a paridade girou em torno de R$ 3,60 para cada US$ 1, no primeiro semestre, fator que contribuiu positivamente para os embarques. Em julho, estava entre R$ 3,20 e R$ 3,30 para US$ 1,00.

Turra também saúda o crescimento nos negócios externos. As exportações brasileiras de carne suína (considerando todos os produtos) totalizaram, em junho/ 2016, 61,322 mil toneladas, volume 29,5% superior ao registrado no mesmo período de 2015. No acumulado do ano, o setor acumulava alta de 54,7% em relação ao primeiro semestre de 2015, totalizando 353,3 mil toneladas.

A receita dos embarques em dólares chegou a US$ 122,9 milhões em junho, número 14,8% maior na comparação com o sexto mês de 2015. No semestre, os ganhos chegam a US$ 633,8 milhões, dado 14,8% maior na comparação com os seis primeiros meses de 2015. Já o saldo em reais chegou a R$ 420,7 milhões em junho, resultado 13% superior ao alcançado no mesmo período de 2015. No acumulado do ano, a receita obtida atingiu R$ 2,328 bilhões, 40,8% acima do alcançado no primeiro semestre de 2015.

Mercados promissores — Segundo a ABPA, a China destaca-se nas importações da carne suína brasileira. Outros grandes mercados, como Rússia (maior importador), Argentina, Chile e Singapura também aceleraram suas compras no primeiro semestre. Segundo Turra, há boas expectativas quanto à abertura do mercado da Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e União Europeia. Também está no radar a abertura para venda ao varejo na África do Sul, além da possível elaboração do protocolo de miúdos para embarques à China.

(Emil toneladas) / Fonte: ABPA

Iglesias, de Safras e Mercado, utiliza dados da Secretaria do Comércio Exterior (Secex) para apontar que o primeiro semestre de 2016 representou o melhor resultado da história para a carne suína. Os números diferem dos apontados pela ABPA, mas são igualmente significativos. A exportação de carne suína brasileira (in natura e industrializada) totalizou 342,9 mil toneladas nos primeiros seis meses de 2016.

O resultado é 55,5% maior se comparado ao acumulado do primeiro semestre de 2015, quando atingiu 220,5 mil toneladas. A Rússia importou um volume total de 116,9 mil toneladas no primeiro semestre. Se comparado ao volume de 96,3 mil toneladas registrado em igual período de 2015, os russos ampliaram o volume em 21,3%. No ano passado, o mercado externo levou 15,2% da produção nacional de carne suína.

Para o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Dirceu Talamini, devido à competitividade das cadeias e à qualidade dos seus produtos, o Brasil tem aproveitado as oportunidades de exportação, o que ajuda a reduzir a pressão no mercado interno. O País é o quarto maior exportador de carne suína. “As exportações foram beneficiadas também pelo dólar valorizado, que em janeiro de 2016 chegou a valer 4,05 reais. Essa taxa de câmbio, entretanto, estimulou fortemente as exportações de soja e milho, elevando os preços desses insumos e consequentemente os custos de produção de suínos, que não puderam ser repassados integralmente aos consumidores, trazendo prejuízos à produção primária”, pondera.

Talamini vislumbra que o cenário para os próximos 12 meses será mais favorável, com expectativa de redução dos preços do milho e do farelo de soja que afetam os produtores e da retomada do crescimento do emprego e do consumo dos produtos cárneos decorrente de uma expectativa mais positiva das políticas econômicas a serem implantadas pelo novo Governo. “Mas não vemos mudança significativas no curto prazo indicando uma recuperação lenta das condições econômicas do País e também da suinocultura”, destaca.

A seu ver, algumas medidas estão ao alcance dos governos dos estados e do País no que se refere, em especial, à criação de estímulos à produção e armazenagem do milho procurando aproveitar as oportunidades de exportação, sem desabastecer o mercado interno. “É possível aumentar a área de milho e também aumentar a produtividade, bem como utilizar as terras ociosas no inverno para produzir cereais que possam ser usados nas rações. Isso é muito importante para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, estados que têm um consumo maior que a produção de milho”, destaca o pesquisador.