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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Ovinos/Caprinos

 

Sem sair do lugar

O setor da ovinocultura não cresce em razão da baixa eficiência produtiva e da desunião da cadeia, apesar de haver demanda pelos produtos. No caso de caprinos, Nordeste detém 91% do rebanho nacional

Jorge Correa

A produção da ovinocultura brasileira continua focada na carne, que tem um valor agregado substancial, pois atualmente a produção de lã é vista como intenção secundária na atividade. Segundo a médica veterinária Samantha Andrade, técnica adjunta e coordenadora de pequenos e médios animais e alimentação e nutrição do Senar/Goiás, o momento é de evolução, com um rebanho no Brasil de cerca de 15 milhões de cabeças distribuídas em todo o País, segundo dados do IBGE. “O problema da ovinocultura é a falta de investimentos e a baixa adesão de um número expressivo de produtores à cadeia, o que faz parecer uma produção relativamente discreta”, aponta.

Ressalva que atualmente as perspectivas são promissoras, com bom horizonte para expansão da atividade, visto que a demanda está crescente por todos os produtos e subprodutos oriundos desse sistema. A grande demanda dá-se basicamente por carne que, se bem produzida, é saborosa, bem requisitada e tem um alto valor agregado embutido. “O mercado de lã não é tão atrativo por ter perdido espaço para materiais sintéticos, que são mais baratos”, diz a especialista.

Na avaliação do médico veterinário Marcos Borba, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, sediada em Pelotas/RS, o grande problema da ovinocultura foi não ter completado devidamente a transição da lã para a carne. “Com a crise mundial da lã, perdemos espaço e um número significativo no rebanho. Em meados dos anos 1980, o Rio Grande do Sul tinha 14 milhões de cabeças. Hoje, são 4 milhões. Estamos deixando de ganhar”, enfatiza.

Borba lembra que o setor enfrenta hoje problemas dentro da porteira, em função da baixa eficiência reprodutiva, e fora dela, pela desunião na cadeia produtiva. Destaca que hoje no Rio Grande do Sul existem pequenas e médias propriedades, com rebanhos em torno de 80 cabeças, e localizadas majoritariamente na metade Sul do Rio Grande do Sul, nas fronteiras com o Uruguai e a Argentina. “Poderíamos associar essa realidade à culinária e ao turismo e teríamos um grande resultado”, frisa.

Na avaliação de Samantha, a carne ovina não teve por muito tempo padrão de produção nem de qualidade, o que ainda é uma deficiência da atividade em alguns locais. Mas salienta que isso está sendo relativamente superado em locais específicos com produtores e indústrias compromissados com o produto final. “Não podemos ignorar que há uma diferença substancial entre o consumo culturalmente favorável da carne bovina, que se encontra em torno de 40 quilos ao ano per capita, em comparação ao consumo de carne ovina, que gira em torno de 1 quilo per capita”, aponta. Dentre as raças, em especial para carne, estão em alta a Dorper, White Dorper e Santa Inês, todas conhecidas por sua boa deposição de carne na carcaça, rusticidade, dentre outras características.

Fonte: Senar Goiás

Com relação à criação, a pesquisadora realça que a produção de carne ovina pode ser mais rentável que a bovina. Como exemplo, cita os indicadores de produção como a lotação no caso da bovina em torno de 1,5 a 2 unidades animal (UA) por hectare a pasto, enquanto a criação de ovinos permite no mesmo sistema cerca de 12 UA/hectare, chegando a 40 UA/hectare. Outro indicador é a duração do ciclo de cada animal: no caso do bovino é cerca de 12 até 36 meses para abate, enquanto no ovino de quatro a seis meses. ”Outro item importante é da valorização da carne ovina, que hoje custa R$ 17,03/quilo carcaça, e a de boi gordo, R$ 8,37/quilo, representando uma diferença de 103% no valor nominal”, compara. O suíno e o frango, lembra Samantha, têm ciclos relativamente rápidos, como o ovino, sendo o primeiro retirado para abate em cerca de quatro a seis meses, e o frango tecnificado, em cerca de 1,5 mês (45 dias).

Nos últimos dez anos, o rebanho caprino no Brasil foi reduzido aproximadamente em 14%, e dos mais de 8,8 milhões de cabeças, segundo IBGE em 2014, quase 92% estão na Região Nordeste

Rebanho ovino e caprino — Diante dos números oficiais mais recentes sobre os rebanhos, publicados pelo IBGE, o zootecnista e pesquisador da Embrapa Ovinos e Caprinos Klinger Aragão Magalhães analisa a tendência apontada pela série de dados dos últimos anos, em especial a partir de 2012, quando houve uma alteração no comportamento do rebanho brasileiro. Em trabalho realizado com outros pesquisadores da unidade, constatou que o rebanho ovino registrou, em 2014, o número de 17.614.454 cabeças no País, das quais 10.126.799 estão no Nordeste (57,5%) e 5.166.225, na Região Sul (29,3%).

No caso de caprinos, em 2014 foram registrados 8.851.879 cabeças, das quais 8.109.672 cabeças estão na Região Nordeste (91,6%). Analisando os últimos dez anos, destaca que o rebanho reduziu em aproximadamente 14%. Entretanto, a partir de 2012, o rebanho caprino mostrou recuperação de 2,4% no efetivo. Com relação ao rebanho ovino, apesar de ter também sofrido redução entre 2011 e 2012 (semelhante aos caprinos), apresenta uma tendência de crescimento do efetivo nos últimos dez anos. “Em termos de tendência nota-se uma diminuição do rebanho na série de 2005 a 2014, para o rebanho caprino, diferentemente do que se observa para o ovino”, salienta Magalhães. “Talvez a menor concentração regional dos animais e a crescente demanda por produtos da ovinocultura nos últimos anos sejam algumas das razões que dão suporte ao crescimento do rebanho no País”, destaca.

Segundo a unidade da Embrapa, em 2014 o rebanho mundial de caprinos era da ordem de 1 bilhão de cabeças. Os caprinos estão distribuídos por todos os continentes. No entanto, percebe-se uma maior concentração de caprinos nos países em desenvolvimento. Magalhães lembra que, analisando-se a evolução do rebanho caprino mundial nos últimos cinco anos, observa-se uma taxa de crescimento anual da ordem de 1%, com pequenas mudanças desse cenário em 2016. O Brasil aparece como o 22º rebanho mundial de caprinos, com 8,851 milhões de cabeças, bem abaixo da China (187,869 milhões e participação de 19% na produção mundial). A Índia tem 133 milhões (ou 13%) e a Nigéria 71 milhões (7% do rebanho mundial).